O futebol brasileiro não costuma ser compreensível com treinadores que deixam de entregar resultados, mas no Allianz Parque a realidade tem desafiado a lógica. A goleada sofrida para o Novorizontino foi a gota d’água de um balde que tem o rastro de duas temporadas sem grandes títulos. Há um aparente esgotamento da relação que se tornou prisioneira do sucesso do passado. 

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O técnico estava irritado na coletiva após a derrota de 4 a 0 para o time do interior. Foi sua pior derrota no cargo, justamente no dia em que completou 400 partidas. Desde outubro de 2020 no comando, o português coleciona títulos, são dez, que o alçaram às altas prateleiras do clube. Mas tem um porém: o último foi lá no Paulistão de 2024. Já se passaram quase dois anos desde então, com escassez de títulos e drástico declínio no desempenho em campo – exceção para um breve respiro após a Copa do Mundo de Clubes do ano passado.

Último título de Abel Ferreira com o Palmeiras foi o Campeonato Paulista de 2024: portanto, há quase dois anos / Palmeiras

Abel estava bravo, como uma boa parcela da torcida também está. Ainda que a diretoria proteja o treinador internamente, com pouco respingo interferindo no seu dia a dia, muita gente defende que o ciclo do treinador já era. O próprio Abel talvez tenha enxergado isso pela demora em anunciar a sua renovação. Ficar, então, foi um erro.

Armadilha do sucesso

Existe um conceito das ciências sociais chamado Dependência de Trajetória, que resumidamente explica como experiências e resultados do passado limitam ou influenciam nos eventos e nas decisões posteriores. No contexto palmeirense, é como se gerasse uma espécie de paralisia no hoje pelo sucesso do ontem, e aí a relação deixa de ser movida pelo entusiasmo da conquista e passa a ser ditada por uma ligação em que nenhuma das partes sabe como desmontar, mesmo que o desgaste seja visível. Não digo que seja isso, mas pode ser.

O Palmeiras não tem em Abel apenas um treinador. Ele é praticamente o sistema operacional do clube, como o Windows instalado em um PC. A estrutura institucional é tão “Abelizada” que uma possível ruptura parece impossível de ser considerada. No momento em que as coisas não vão bem, como acontece nos últimos anos, essa “dependência” mostra o seu lado complicado: quando o sistema operacional se torna previsível e a mensagem se desgasta, o clube fica preso a um modelo de sucesso que já não entrega os resultados do passado. Mas que, por outro lado, é caro demais para ser substituído.

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No fim das contas, demitir Abel não seria apenas trocar de comandante, mas repensar, reestruturar e reaprender a funcionar. Como foi feito com a saída da Crefisa. Há ainda um fato extra a se considerar: Leila Pereira assumiu a presidência do Palmeiras no finalzinho de 2021, já com Abel vencedor no cargo. Foi reeleita para liderar o clube até o fim de 2027, exatamente até onde vai o vínculo do português. Ou seja, na era Leila, o Palmeiras sempre rodou no sistema Abel.

Da empolgação à exaustão

Para boa parte das arquibancadas e de torcedores que se manifestam na internet, “já deu de Abel”. Além do desempenho que não demonstra grandes evoluções em campo, o discurso já não move montanhas. Não há mais planos. O torcedor, que por anos viu nele um craque do banco de reservas, com conceitos e posições fortes, vê a coisa de outra maneira agora. A convicção virou teimosia. A estratégia virou covardia.

Abel Ferreira é um dos técnicos mais vencedores da história do Palmeiras, com dez títulos / Palmeiras

Nas coletivas, Abel já não responde apenas às perguntas, mas retoma temas passados para justificar o presente. Para se defender. Ora irritado, ora com cinismo. Ora também com razão. Ele está cansado de ter de reforçar seu valor a cada tropeço, e o torcedor está cansado dessas explicações e de esperar por uma evolução que não deslancha. Todo mundo está cansado e o foco se perde. Um sentimento dividido já ocupa o peito de muitos palmeirenses, que ficam entre as saudades do Abel de antes, mas que não suportam mais o Abel de hoje. 

Há muitos que ponderam que o elenco segue em reformulação, que é início de temporada e que o tempo é necessário, uma vez que o técnico já demonstrou sua capacidade em diversos outros momentos. Tudo é verdade. Mas… Enquanto isso, o plano de Abel segue. Mas para o bem ou para o mal do Palmeiras?

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