Durante anos, muita gente repetiu que o Brasil estava avacalhando o VAR. Era exagero? Bastava olhar para a sucessão de decisões que brigavam com a imagem, que forçavam interpretações improváveis ou tentavam impor uma espécie de realidade paralela àquilo que o software foi criado para fazer: mitigar erros.
Aqui, ao contrário do que acontece em tantas outras ligas, o VAR nunca conseguiu se firmar como um instrumento aceito por todos. Para uma parte significativa do público, e até de dirigentes, ele não revela a verdade — é só mais um ingrediente no caldeirão das suspeitas.
Tudo no VAR é contestado
Não por acaso, multiplicam-se exemplos. Impedimentos milimétricos só detectados pelo traçado eletrônico e imediatamente contestados por torcedores de todos os lados. Lances de cartão vermelho que, mesmo com dez câmeras, seguem presos ao limbo da interpretação. A burocracia da cabine não trouxe a paz prometida; trouxe, isso sim, um novo tipo de conflito.

Mas eis que o Brasil decidiu superar a si próprio. Se antes avacalhávamos o VAR pelas decisões tomadas dentro de campo ou na cabine, agora criamos um fenômeno ainda mais surreal: o VAR do VAR. Uma espécie de tribunal paralelo, alimentado por vídeos piratas e imagens produzidas — ao que tudo indica — por inteligência artificial, com o único objetivo de jogar mais lenha na fogueira das suspeitas.
CBF faz investigação de vídeo
É exatamente isso que investiga a CBF após um vídeo viralizar nas últimas horas. A gravação mostra um suposto toque de mão de Memphis Depay segundos antes de marcar o gol da vitória do Corinthians sobre o Cruzeiro no primeiro jogo da semifinal da Copa do Brasil. Porém, a imagem não existe entre as que foram disponibilizadas oficialmente pelo VAR durante a partida. Surge de outro ângulo, mal definido, borrado, e justamente por isso tão conveniente para quem deseja sustentar a narrativa de que Anderson Daronco teria favorecido o Corinthians no Mineirão.
A CBF, para afastar a manipulação, divulgou as imagens oficiais, aquelas realmente analisadas pela equipe de cabine. O lance foi visto e revisto sob quatro ângulos diferentes — e em nenhum deles há qualquer indício de toque de mão. Como todo gol, o de Memphis foi checado.
A conclusão foi unânime
Primeiro, se Yury Alberto estava impedido antes de escorar de cabeça. Não estava. De modo que a linha do impedimento mostrava o atacante em plenas condições. Depois, os analistas focaram na ação de Memphis, justamente buscando o toque que agora virou munição nas redes. Assim, a conclusão foi unânime: não houve infração.

Um detalhe relevante: nenhum jogador do Cruzeiro reclamou do lance em campo. Nem Cássio nem os zagueiros mais próximos levantaram qualquer protesto. Não houve polêmica até o surgimento do vídeo fantasma — que, em tese, mostra um toque inexistente, captado por ângulo inexistente, por câmera inexistente. E mesmo que o vídeo fosse real, não poderia ser usado. O protocolo do VAR é cristalino: só valem imagens oficiais. Nada que circule em rede social tem valor para anular gol, partida ou resultado.
Investigação policial?
Se ficar provado que o vídeo foi manipulado por inteligência artificial, caberá investigação para identificar o autor e sua motivação. Há, inclusive, espaço para investigação policial: manipular material para gerar suspeita sobre arbitragem não é brincadeira, é interferência dolosa num ambiente que já vive saturado de desconfiança.
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O que não pode — e aqui está o cerne do problema — é permitir que o VAR, já castigado no Brasil por uso deficiente e má comunicação, seja completamente desmoralizado pela disseminação irresponsável de vídeos falsos. Se a moda pega, se nada for feito, teremos não apenas o descrédito do árbitro de vídeo, mas o descrédito do próprio futebol como competição íntegra.
Não há esporte que sobreviva quando cada lance vira terreno fértil para deepfakes, manipulações e teorias conspiratórias. Mas se o vídeo for mesmo uma produção artificial e tudo seguir como está, aí, sim, estaremos diante da desmoralização total do instrumento que a Fifa criou para garantir lisura — e que o Brasil, pelo visto, insiste em transformar em espetáculo de distorção.




