Separados por quase um século, os mundos de 1930 e 2026 parecem pertencer a dimensões diferentes. Hoje, a apreensão gira em torno da presença ou não de Neymar entre os 26 convocados de Carlo Ancelotti. Equipes de jornalismo já mobilizam operações multimídia para aquela que promete ser a Copa da informação instantânea e da inteligência artificial. Milhões de pessoas colecionam figurinhas, discutem listas de convocados e contam os dias para a bola rolar nos Estados Unidos, México e Canadá. Faltam menos de 30 dias para o início de mais um Mundial.

Tudo sobre a Copa do Mundo

Nesse clima de ansiedade coletiva, a memória inevitavelmente nos empurra para trás. Como era o mundo em 1930, quando a Fifa organizou a primeira Copa do Mundo da história? Ao menos no Brasil, dá para afirmar sem exagero que o torneio estava longe de provocar a febre nacional que conhecemos atualmente. Acredite se quiser: concursos de misses despertavam mais interesse popular do que a própria Copa do Mundo.

O planeta ainda tentava sobreviver ao trauma econômico provocado pelo Crash da Bolsa de Nova York, em 1929. A quebra abalou economias inteiras, mergulhou países em recessão e transformou a ideia de reunir seleções de diferentes continentes em um único torneio numa aventura quase irresponsável para os padrões da época. Viajar até o Uruguai exigia semanas no mar, dinheiro escasso e uma disposição que nem todas as federações europeias demonstraram ter.

O SONHO DE JULES RIMET

Ainda assim, sobrou ousadia para Jules Rimet transformar um sonho em realidade. A primeira Copa do Mundo aconteceu entre os dias 13 e 30 de julho de 1930, em Montevidéu. Apenas 13 seleções aceitaram participar: Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Iugoslávia, México, Paraguai, Peru, Romênia e Uruguai. Não existiam eliminatórias. A Fifa simplesmente convidou seus filiados e torceu para que alguém aparecesse.

As dificuldades logísticas ajudam a dimensionar a distância entre aquela Copa e o futebol globalizado de hoje. Franceses, romenos, belgas e iugoslavos passaram cerca de vinte dias atravessando o Atlântico de navio. O lendário transatlântico italiano Conte Verde virou praticamente uma concentração flutuante. A bordo estavam seleções inteiras, árbitros, dirigentes e o próprio Jules Rimet carregando na mala o troféu da primeira Copa do Mundo. Durante a viagem, os jogadores improvisavam treinamentos correndo pelos conveses do navio e, à noite, assistiam a apresentações musicais para matar o tempo.

O Brasil também pegou carona nessa barca, embarcando na parada no Rio de Janeiro, e chegou desfalcado antes mesmo da estreia. Desentendimentos políticos entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sediada no Rio, e a Associação Paulista de Esportes Atléticos impediram a convocação de atletas paulistas. A exceção foi Araken Patusca, do Santos, inscrito oficialmente como atleta do Flamengo apenas para contornar o impasse burocrático.

BRASIL ELIMINADO DE CARA

Dentro de campo, a trajetória brasileira durou pouco. A seleção perdeu a estreia para a Iugoslávia por 2 a 1 e acabou eliminada ainda na primeira fase. Mas aquele jogo entrou para a eternidade graças a João Coelho Netto, o Preguinho, autor do primeiro gol da história do Brasil em Copas do Mundo. E talvez nenhum personagem simbolize melhor o espírito daquela época do que ele.

Preguinho não era apenas jogador de futebol. Era praticamente uma delegação olímpica sozinho. Competia também em atletismo, basquete, saltos ornamentais, remo, natação, tênis de mesa, vôlei e polo aquático. Em um único dia de 1925, venceu uma prova de natação pela manhã, pegou um táxi até as Laranjeiras e estreou pelo Fluminense no futebol horas depois. Um atleta de dez modalidades num tempo em que o profissionalismo ainda engatinhava.

Na segunda partida da Copa, o Brasil venceu a Bolívia por 4 a 0, com dois gols de Preguinho e outros de Moderato. A goleada, porém, já não servia para nada. A Iugoslávia havia garantido a classificação do grupo.

A ROMÊNIA E O REI CAROL II

Enquanto isso, o torneio acumulava histórias quase inacreditáveis se vistas do presente. De acordo com o site oficial da Fifa, há fatos que hoje seriam classificados como bizarrices. Por exemplo: a seleção da Romênia foi escolhida diretamente pelo rei Carol II. Muitos jogadores trabalhavam numa empresa inglesa de petróleo que não queria liberá-los para a viagem. O monarca, então, resolveu pessoalmente o problema: avisou ao dono da companhia que fecharia a empresa caso os atletas não fossem autorizados a disputar a Copa. Funcionou.

Havia também peculiaridades dentro das quatro linhas. As bolas de couro natural possuíam costuras externas e ficavam absurdamente pesadas em dias de chuva. Argentina e Uruguai fizeram questão de utilizar modelos diferentes ao longo do torneio, até que a rivalidade explodiu na final. Sem acordo sobre qual bola seria usada, Jules Rimet precisou intervir: o primeiro tempo seria disputado com a bola argentina; o segundo, com a uruguaia. A Argentina foi para o intervalo vencendo por 2 a 1. No segundo tempo, usando a bola uruguaia, os donos da casa viraram para 4 a 2 e conquistaram a primeira Copa do Mundo da história diante de um Estádio Centenário ainda inacabado.

URUGUAI, O PRIMEIRO CAMPEÃO

Até a comunicação parecia pertencer a outra civilização. Em 1930, as notícias viajavam lentamente por cabos submarinos. No Brasil, o jornal Diário da Noite montou uma operação especial para transmitir informações da Copa ao vivo por rádio para cerca de dez mil pessoas reunidas na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Hoje, um único gol gera milhões de notificações instantâneas ao redor do planeta em questão de segundos.

Também chama atenção a simplicidade geográfica daquela Copa pioneira. Todo o torneio foi disputado em apenas uma cidade, Montevidéu, utilizando três estádios. Em 2026, a competição acontecerá simultaneamente em três países, espalhada por dezenas de cidades, arenas bilionárias e deslocamentos continentais.

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Noventa e seis anos depois, a Copa do Mundo continua sendo a mesma obsessão coletiva. Mudaram os meios de transporte, as bolas, a tecnologia, a cobertura jornalística, a preparação física e o tamanho do espetáculo. Mas permanece intacta a capacidade que o torneio possui de parar o planeta e transformar jogadores em personagens eternos. A história ganha novo capítulo daqui a alguns dias…

Com fotos de IA das imagens da época

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