A classificação veio, como se esperava. A tranquilidade, não. O Palmeiras chegou à Arena Pantanal protegido pela vantagem de três gols construída no primeiro confronto, rodou o elenco e avançou às quartas de final da Copa do Brasil. Mas a derrota por 3 a 2 para o Fortaleza, equipe da Série B, deixou uma impressão incômoda: o teste planejado por Abel Ferreira não funcionou. O placar agregado de 5 a 3 garantiu a vaga, porém abriu uma fresta de desconfiança em um time acostumado a transformar vantagem em controle.
Abel não colocou em campo uma formação inteiramente reserva. Misturou jogadores importantes, como Murilo, Felipe Anderson, Vitor Roque e Flaco López, com atletas menos utilizadas e atletas que precisavam ganhar ritmo. Giay, Benedetti, Arthur, Lucas Evangelista e Riquelme Fillipi receberam uma oportunidade valiosa em um cenário aparentemente ideal: margem confortável, adversário obrigado a atacar e pouca pressão sobre o resultado. Era uma noite para ampliar opções. Acabou servindo para expor limitações.

Palmeiras em marcha lenta
O Verdão começou a partida em ritmo de amistosoo. Em vez de administrar a posse e empurrar o Fortaleza para a ansiedade, permitiu que o rival crescesse. Miritello abriu o placar aos 33 minutos do primeiro tempo, em chute defensável para o goleiro Carlos Miguel. Flaco López empatou aos 40 minutos, resultado que praticamente eliminava qualquer possibilidade de reação histórica, mas o time voltou a se desorganizar. Aos 44 minutos, Rodriguinho marcou o segundo dos cearenses e levou o Fortaleza ao intervalo em vantagem.
A sequência mostrou o principal problema da noite. O Palmeiras não protegeu a própria área com a consistência habitual. Houve distância entre os setores, dificuldade para controlar a segunda bola e pouca autoridade para interromper os ataques antes que se tornassem perigosos. Uma equipe escalada para testar alternativas terminou o primeiro tempo oferecendo ao adversário a confiança que a goleada sofrida na ida havia retirado.
Carlos Miguel também não aproveitou a partida para afastar dúvidas. O goleiro não foi o único responsável pelos gols, porque a marcação permitiu finalizações em condições favoráveis, mas tampouco transmitiu segurança. Não apareceu com uma defesa capaz de mudar o rumo do jogo e mostrou hesitação em bolas que atravessaram sua área. A atuação ganha peso porque ele já vinha de uma falha importante na derrota por 2 a 1 para o Atlético-MG, pelo Campeonato Brasileiro.
Mudança de atitude
Com as entradas de Andreas Pereira, John Árias e Ramón Sosa, aos dez minutos da etapa final, o Palmeiras encurralou o Fortaleza e conseguiu igualar o marcador. O empate de Murilo, aos 15 minutos do segundo tempo, parecia recolocar a partida no roteiro imaginado. Com o placar em 2 a 2, a expectativa era de que a equipe paulista controlasse os minutos finais. Nem isso aconteceu. Aos 42 minutos, Maílton cobrou escanteio e Lucas Emanoel apareceu livre para cabecear e decretar a vitória cearense. Foi outro lance que reuniu desatenção coletiva e pouca presença defensiva dentro da área.
A derrota produziu um dado que não cabe tratar como simples acidente. Foi a segunda vez em 2026 que o Palmeiras sofreu pelo menos três gols em uma partida. A anterior havia sido muito mais pesada: 4 a 0 para o Novorizontino, pelo Campeonato Paulista, em janeiro. Desde então, a equipe havia recomposto sua estabilidade. Levar três gols de um adversário da Série B, mesmo com uma formação modificada e a classificação encaminhada, foge do padrão.
Sinal de alerta
Não se trata de transformar uma derrota administrável em crise. O Palmeiras está nas quartas, preservou parte dos titulares e segue vivo na disputa pelo título. Mas partidas assim revelam o que a margem confortável costuma esconder. Abel saiu de Cuiabá sabendo que algumas alternativas ainda não oferecem o mesmo nível de controle da equipe principal e que a vantagem construída no primeiro encontro foi mais decisiva para a classificação do que a atuação da volta.
“Primeiramente, dar os parabéns a todos pela classificação. No primeiro jogo fomos eficientes e conseguimos fazer um bom resultado. Hoje não fizemos um jogo tão bom. Sofremos três gols, o que é ruim acontecer, mas a gente sabe onde errou e precisa melhorar. Sabemos que isso pode acontecer, mas temos que corrigir muito rápido, porque, ao longo do ano, não podemos cometer esse tipo de erro”, disse o zagueiro Murilo, que reconhece que a equipe deu mole demais diante do Leão do Pici
O próximo adversário será conhecido na terça-feira, 11 de agosto, em sorteio na sede da CBF, no Rio de Janeiro. A competição seguirá com confrontos de ida e volta nas quartas e nas semifinais. A decisão, marcada para 6 de dezembro, será disputada em partida única. Para chegar até lá, o Palmeiras precisará vencer duas eliminatórias — e dificilmente encontrará outra margem tão confortável para absorver uma atuação defensiva como a desta quarta-feira.

Clássico de dar gosto
No Maracanã, o Vasco também garantiu presença entre os oito melhores ao vencer o Fluminense por 3 a 1. Depois do empate sem gols na ida, Brenner transformou o equilíbrio do clássico em vantagem cruz-maltina. O atacante marcou aos 34 minutos do primeiro tempo e voltou a balançar a rede aos sete minutos da etapa final, dando ao Vasco o controle de uma eliminatória que havia começado cercada por cautela e baixa produção ofensiva.
Martinelli descontou para o Fluminense aos 32 minutos do segundo tempo e devolveu tensão ao clássico. O time tricolor tentou pressionar nos minutos finais, mas deixou espaços, e o Vasco completou o placar por 3 a 1, com gols de Puma Rodríguez para encerrar a discussão, nos acréscimos. Com a vitória, o Vasco repete a façanha do ano passado, quando eliminou o Tricolor, mas isso aconteceu na semifinal. Asssim, a classificação cruz-maltina coloca mais um rival de peso no sorteio que definirá o caminho até a decisão.





