Durante boa parte de sua carreira, Neymar acostumou-se a viver em uma espécie de território protegido. Na sua bolha, mesmo quando era vaiado por torcidas adversárias, a hostilidade quase sempre vinha acompanhada de uma inevitável admiração. Era o craque que desequilibrava partidas, o talento raro que arrancava aplausos até de quem vestia outra camisa. Em Belém, porém, o roteiro foi diferente. E talvez esse seja o aspecto mais significativo de tudo o que aconteceu depois da vitória do Santos por 1 a 0 sobre o Remo, pela Copa do Brasil.

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As discussões com adversários, árbitro e dirigentes, os xingamentos no túnel do Mangueirão, a troca de provocações com o presidente remista Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, e a resposta publicada menos de 24 horas depois nas redes sociais — uma foto em um iate acompanhada da provocativa legenda “Vagabundiando” (sic) — são apenas a superfície da história. O episódio revela algo muito mais profundo sobre o momento vivido por Neymar.

Neymar curte folga em iate
Neymar faz provocação no iate; vida deixa de ser futebol e passa a ser a resposta para o próximo xingamento / Reprodução

O camisa 10 santista parece travar, hoje, a batalha mais difícil de toda a sua carreira. A luta contra a inevitável mudança de percepção que acompanha qualquer grande ídolo quando sua trajetória se aproxima do fim. Belém deixou isso muito evidente. E Neymar parece não ter entendido o recado.

Neymar não é só amado

Durante praticamente toda a partida, Neymar foi tratado como um inimigo. Recebeu vaias incessantes, foi alvo de provocações e deixou o gramado cercado por um ambiente de enorme hostilidade. Evidentemente, fazia parte do contexto de um confronto eliminatório e da rivalidade criada pela disputa da vaga nas quartas de final da Copa do Brasil. Ainda assim, a intensidade das reações escancarou uma realidade da qual talvez nem o próprio jogador tenha plena consciência: Neymar já não ocupa mais aquele lugar quase sagrado de patrimônio nacional acima das rivalidades clubísticas.

Hoje, mais do que nunca, ele divide opiniões. E talvez isso seja uma novidade difícil de administrar para quem passou duas décadas sendo tratado como um fenômeno capaz de seduzir até torcedores rivais. Seu comportamento também parece refletir esse momento de transição. Antes mesmo da bola rolar, Neymar já chegava pressionado. Foi alvo de cobranças por não viajar com a delegação santista, em razão do compromisso com o leilão beneficente promovido por seu instituto. Desembarcou em Belém apenas no dia da partida e acabou iniciando o jogo no banco de reservas por decisão de Cuca.

Neymar dá assistência para o gol de Rony
Com lampejos dos velhos tempos, Neymar faz a diferença e dá assistência para o gol de Rony na vitória sobre o Remo / Santos FC

Entrou apenas no segundo tempo e não fez uma atuação brilhante. Ainda assim, foi dele a principal jogada ofensiva do Santos na partida, construindo toda a ação que terminou com o gol de Rony e garantiu a classificação alvinegra. Foi decisivo no lance capital do confronto, mas esteve longe de oferecer aquela atuação dominante que, durante tantos anos, parecia uma obrigação natural para qualquer equipe que contasse com Neymar.

Sem equilíbrio emocional

Talvez aí esteja outro conflito. Durante muito tempo, bastava Neymar entrar em campo para que todas as atenções estivessem voltadas para seu talento. Hoje, sua presença desperta tanto expectativa quanto desconfiança. Cada atuação passa a ser julgada à luz de um passado quase impossível de repetir. É nesses momentos que equilíbrio emocional faz diferença. Ao responder às provocações dos torcedores com ironias, mandar beijos para a mulher de um torcedor que o insultava na boca do túnel, discutir com dirigentes adversários e prolongar a polêmica nas redes sociais no dia seguinte, Neymar acabou desviando o foco daquilo que importava: sua contribuição para a classificação do Santos.

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É verdade que ninguém é obrigado a suportar ofensas em silêncio. O próprio jogador argumenta que apenas reagiu às agressões verbais recebidas durante toda a noite. Também é inaceitável que dirigentes ultrapassem os limites da civilidade, como fez Tonhão ao recorrer a ataques pessoais e chamar o camisa 10 santista de “vagabundo”. Nada disso encontra justificativa. Mas existe uma diferença importante entre compreender uma reação e considerá-la a melhor resposta possível.

A grandeza dos maiores atletas quase sempre aparece quando conseguem vencer também o jogo psicológico. Ignorar provocações, deixar que o placar fale por si e abandonar o estádio com serenidade costuma produzir um efeito muito mais poderoso do que qualquer discussão ou postagem provocativa. Neymar, infelizmente, fez o caminho oposto. Sua publicação no iate, utilizando a palavra “Vagabundiando” como resposta direta ao presidente do Remo, alimentou uma polêmica que já deveria ter terminado com o apito final. Ganhou manchetes, gerou novos debates e manteve o ambiente de conflito aceso quando o Santos já deveria estar comemorando apenas a classificação. Mais do que um simples desentendimento, tudo isso parece retratar um jogador que ainda busca encontrar seu novo lugar dentro do futebol.

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