“Pode ficar tranquilo que nós vamos classificar.” Carlos Miguel passou pela zona mista do Nubank Parque há uma semana e deixou a frase depois de uma das noites mais difíceis desde que assumiu o gol do Palmeiras. O goleiro havia falhado, autor do gol contra, no empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño, no primeiro jogo das oitavas de final da Libertadores, mas não se escondeu. Ao contrário: fez uma espécie de profecia sobre o que aconteceria em Assunção.

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Dito e feito. Nesta quarta-feira, na chuva do estádio La Nueva Olla, o Palmeiras venceu o Cerro Porteño por 1 a 0, avançou às quartas de final e Carlos Miguel teve a oportunidade de transformar aquela frase em realidade. Trabalhou pouco durante boa parte da noite, protegido por um sistema defensivo montado para diminuir os riscos, mas apareceu quando mais precisava. Já nos acréscimos, defendeu o chute de Vegetti, que poderia levar a decisão para os pênaltis. Uma semana depois do erro, o goleiro ajudou a confirmar a própria previsão.

Palmeiras Gustavo Gómez
Após cabeceio certeiro, o segundo em dois jogos seguidos, capitão Gómez comemora o gol da classificação / Palmeiras

Palmeiras cascudo

Foi uma classificação com a cara da Libertadores e daquele Palmeiras copeiro que tantas vezes apareceu na era Abel Ferreira. Não houve espetáculo. Houve chuva, contato físico, divididas, erros técnicos, bolas longas, disputa pelo espaço e tensão. Em uma noite dessas, jogar bonito era quase um detalhe. O fundamental era sobreviver. E o Palmeiras sobreviveu. Abel apostou na formação com três zagueiros — Murilo, Gustavo Gómez e Barboza — e construiu uma equipe preparada primeiro para suportar o Cerro. O time paraguaio começou pressionando, encontrou superioridade no meio-campo em alguns momentos, mas, apesar das dificuldades palmeirenses para construir, pouco conseguiu machucar de verdade a defesa brasileira.

Palmeiras acha uma solução

O Palmeiras também produzia pouco. Vitor Roque ficava muitas vezes isolado, a saída era dificultada pela marcação individual montada por Ariel Holan e o jogo se arrastava em uma batalha muito mais física do que técnica. Era preciso encontrar outra solução. Ela veio de uma das armas mais antigas de um time copeiro: a bola parada. Aos 41 do primeiro tempo, Arias cobrou escanteio e Gustavo Gómez apareceu onde tantas vezes aparece desde que chegou ao Palmeiras. O capitão subiu e decidiu pelo alto: 1 a 0.

47 vezes Gómez

Não poderia haver personagem mais adequado. Gómez é o maior zagueiro artilheiro da história do Palmeiras e chegou aos 47 gols pelo clube com o cabeceio em Assunção. Antes da partida, a página oficial do Verdão registrava 415 jogos e 46 gols do paraguaio; o gol contra o Cerro aumentou essa conta e reforçou ainda mais seu tamanho no clube. Também ampliou uma marca impressionante na Libertadores. Gómez chegou a 15 gols pelo Palmeiras no torneio e passou a ter gols em nove edições consecutivas da competição, de 2018 a 2026. Em uma partida na qual técnica e criatividade estavam em falta, foi o capitão quem resolveu naquilo que conhece como poucos.

Controle dos nervos

O gol mudou o cenário. Obrigado a buscar o empate, o Cerro teve mais a bola no segundo tempo, mas encontrou um Palmeiras confortável sem ela. Os três zagueiros protegiam a área, os espaços diminuíam e a equipe de Abel conseguiu controlar melhor uma partida que havia sido incômoda na etapa inicial. Mais do que isso: o Palmeiras passou a encontrar espaços e esteve perto de ampliar em algumas oportunidades. Não ampliou e, por isso, precisou sofrer até o fim. Foi quando Carlos Miguel voltou ao centro da história. Nos acréscimos, Vegetti conseguiu a finalização que poderia apagar em segundos tudo o que o Palmeiras havia construído durante a noite. Desta vez, porém, o goleiro estava lá e fez a defesa, com rebote, mas nenhum rival estava bem posicionado na área.

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A classificação também encerrou uma pequena escrita particular. Antes desta quarta-feira, Abel havia enfrentado Ariel Holan três vezes neste ano sem conseguir vencê-lo: empate por 1 a 1 em Assunção e derrota por 1 a 0 em São Paulo, ainda pela fase de grupos, além do 1 a 1 no primeiro confronto das oitavas. O triunfo por 1 a 0 foi, portanto, o primeiro do português sobre o argentino. E veio no duelo que mais importava. O Cerro havia sido a pedra no sapato palmeirense durante toda esta Libertadores. Na fase de grupos, terminou na liderança da chave depois de empatar por 1 a 1 com o Palmeiras no Paraguai e vencer por 1 a 0 no Brasil.

Palmeiras Carlos Miguel
Carlos Miguel cumpre a promessa de que o Palmeiras se classificaria e faz a defesa decisiva no fim do jogo / Palmeiras

A conquista da vaga não apaga os problemas recentes, tampouco significa que o futebol voltou a ser brilhante. O time ainda precisa jogar mais diante do investimento e da qualidade de seu elenco. Mas mata-mata também exige capacidade de competir quando a inspiração desaparece. E, em Assunção, o Palmeiras fez isso. A crise não desaparece em 90 minutos, mas perde temperatura. O time de Abel está entre os oito melhores da América e agora espera o vencedor de LDU x Mirassol, que se enfrentam nesta quinta-feira, em Quito, depois do empate por 1 a 1 no primeiro duelo.

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