O Corinthians, de Dorival Júnior, encerrou o Brasileirão oferecendo ao país um triste símbolo do que se tornou a cultura esportiva de parte dos grandes clubes do futebol brasileiro: a celebração do mínimo, o elogio ao aceitável, a institucionalização do fracasso. “Pelo menos não ficamos nenhuma rodada na zona do rebaixamento”, repetiu o treinador, como quem oferece consolo a uma torcida que aprendeu a medir temporadas por títulos, finais e grandes noites, e não por ausências na zona da degola.

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É uma frase que, além de afrontar a história do Corinthians, revela algo ainda mais preocupante: a ideia de que a mediocridade é um estado administrável — e até comemorável.

Yuri Alberto e Memphis Depay: Corinthians termina o ano como o pior paulista no Brasileirão / Corinthians

No Corinthians, essa lógica se tornou explícita. Contentar-se com o simples fato de não ter caído é a negação de todo o projeto esportivo que um clube da sua grandeza deveria representar. É pequeno demais. É pobre demais. E, sobretudo, incompatível com a régua da torcida — que não mede eficiência por sustos evitados, mas por ambições perseguidas.

Corinthians ficou atrás do Santos

A campanha corintiana no Brasileirão foi, em todos os sentidos, decepcionante. Não há eufemismo possível para descrever uma equipe que terminou atrás do Santos — que jogou a última rodada flertando com o rebaixamento —, somou apenas 12 vitórias em 38 partidas e encerrou o campeonato mais de 30 pontos atrás do campeão Flamengo. Não há mérito algum em escapar. Há, no máximo, o cumprimento da obrigação mínima de quem carrega a terceira maior folha salarial do país.

Vasco é outro clube grande, de história, que anda se contentando com o simples fato de não ser rebaixado / Vasco

E o problema, convém reforçar, não é exclusivo do Corinthians. O Brasileirão de 2025 expôs uma verdade incômoda para boa parte dos gigantes nacionais: São Paulo, Santos, Atlético-MG, Vasco, Internacional — todos normalizaram desempenhos que, para seus orçamentos, histórias e pretensões, deveriam ser tratados como fracassos. Todos eles poderiam ter caído no lugar de Ceará, Fortaleza, Juventude ou Sport. Todos justificaram campanhas medíocres com discursos de ocasião. De algum modo, viram vantagem em “não cair”.

Ciclos de ilusões e desilusões

Essa inversão de prioridades é letal. É ela que mantém o futebol brasileiro empacotado em ciclos de ilusões e desilusões, sempre presos ao presente imediato, incapaz de projetar um futuro minimamente profissional. A recorrência de investimentos enormes — principalmente nos clubes paulistas — para resultados pífios revela um problema que não é técnico, nem tático: é mental. É cultural. É estrutural.

O Corinthians perdeu ou empatou mais da metade dos jogos que disputou em casa. Perdeu 16 pontos em 24 possíveis contra os quatro rebaixados. Falhou onde não podia falhar. Desperdiçou onde não podia desperdiçar. Um eventual título da Copa do Brasil — improvável, mas ainda possível — diminuiria o ruído do desastre, mas não seria capaz de apagar a jornada vergonhosa que o clube protagonizou no campeonato nacional.

Flamengo e Palmeiras

O alerta, portanto, vale para todos os gigantes que se esconderam atrás de desculpas inconcebíveis: metas modestas produzem resultados modestos. Ambições pequenas geram temporadas pequenas. Times que celebram a fuga da queda não podem brigar por título algum. E enquanto essa mentalidade se mantiver, o futebol brasileiro continuará orbitando em torno dos dois únicos projetos realmente sólidos do país — Flamengo e Palmeiras — que colecionam taças enquanto os demais se acostumam perigosamente ao papel de coadjuvantes de luxo.

Flamengo, ao lado de Palmeiras, é um dos clubes brasileiros com projeto sólido para as próximas temporadas / Flamengo

Mudar o patamar das ambições não é retórica; é sobrevivência. Ou esses clubes se reinventam — e entendem que a grandeza não se protege com desculpas — ou verão, ano após ano, o mesmo filme se repetir. E nele, definitivamente, não haverá espaço para quem acha que “não cair” é motivo para festa.

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