O Corinthians entra em uma semana que ajuda a explicar, melhor do que qualquer debate teórico, um dos grandes impasses do futebol brasileiro: afinal, é possível escolher qual competição priorizar? Na quarta-feira, às 20h, o time encara o Cruzeiro de Tite, no Mineirão, com a chance de embalar a terceira vitória seguida no Brasileirão. Poucos dias depois, fora de casa, enfrenta o Novorizontino pela semifinal do Paulistão. Dois jogos grandes, dois cenários diferentes e praticamente nenhum tempo de recuperação entre um e outro.
Foi nesse contexto, que está longe de ser novidade ou exclusividade do Corinthians, que Dorival Júnior admite que ainda não definiu uma prioridade — e nem sabe se um dia poderá fazê-lo. “Não é fácil tomar essa decisão. Sou sincero, não é fácil. Queremos brigar por todos os títulos, mas só se tivermos uma equipe composta. Mas não existe isso no momento. A nossa recuperação está sendo muito curta”, disse após o jogo contra a Portuguesa.

É nesse ponto que aparece o dilema de treinadores como Dorival. O Corinthians já começa a pagar um preço alto pela sequência brutal de partidas logo no início do ano. Matheus Pereira, Yuri Alberto e Kaio César estão fora por lesões musculares — problemas que, em muitos casos, poderiam ser evitados em um calendário minimamente racional, com uma pré-temporada mais longa e adequada. Ao mesmo tempo, Memphis e Matheus Bidu já acenderam o sinal de alerta físico e saíram do último jogo sob cuidados preventivos. Todo o elenco está em observação.
Calendário sempre foi problema
Estamos em fevereiro, mas o cenário físico do elenco lembra o de fim de temporada. E isso diz muito sobre o futebol brasileiro. O calendário sempre foi um problema antigo, mas continua sendo tratado como se fosse inevitável. Jogos em excesso, competições sobrepostas, distanciamento completo do timing das ligas europeias e uma cobrança permanente para que os jogadores respondam em campo como se fossem máquinas. Não são.
Nesse contexto, dá para entender o desespero de Dorival nas últimas semanas pedindo reforços. Sem dinheiro, o Corinthians tentou encontrar soluções possíveis para repor perdas recentes e elevar o nível do grupo. Sem isso, seria quase impossível imaginar o time disputando duas frentes logo depois de praticamente não ter tido férias.
Pressão externa
Vale lembrar: o time jogou até a véspera do Natal na final da Copa do Brasil e, pouco depois da virada do ano, já estava em campo novamente para a Supercopa contra o Flamengo, simultaneamente à obrigação de entrar de vez na maratona do Brasileirão e do Estadual.
O desgaste ficou evidente na classificação dramática contra a Portuguesa, no Canindé. Apenas dois dias e meio depois de uma partida pesada contra o Athletico-PR, em um gramado ruim, o Corinthians não conseguiu repetir o nível das atuações anteriores. Foi dominado em quase todo o jogo pela Lusa e só avançou na base da resistência, da camisa e da fase iluminada do goleiro Hugo.
Não há estratégia se perder o jogo
O problema é que o treinador não tem tempo para recuperar seus jogadores — e, na prática, também não tem muita liberdade para escolher o que priorizar. Em clubes como Corinthians, Flamengo e Palmeiras, o jogo mais importante é sempre o próximo. Não importa se é pela quarta rodada do Brasileirão ou por uma semifinal estadual. Escalar um time misto pode ser uma decisão lógica do ponto de vista físico, mas também pode abrir a porta para uma derrota que desencadeia uma pressão enorme — muitas vezes desproporcional e pouco sensível à realidade do calendário. Torcida e crítica não admitem concessão.
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No caso específico do Corinthians, a equação é ainda mais delicada. Dorival sabe que, no meio do ano, pode perder peças importantes do elenco, como Memphis, Yuri Alberto, Bidon e André. Isso significa que o primeiro semestre talvez seja o momento mais forte do time na temporada e precisa aproveitá-lo para “ganhar gordura” na soma de pontos.





