O desfecho da final da Copa Intercontinental entre PSG e Flamengo não foi apenas cruel para um lado e glorioso para o outro. Foi didático. Depois do empate em 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, o que se viu nas cobranças de pênalti não foi o capricho do destino nem o famoso “detalhe que decide finais”. Foi trabalho. Planejamento. Método. E, sobretudo, a demolição de uma das desculpas mais repetidas — e mais convenientes — do futebol brasileiro: a de que pênalti é loteria. Não se trata de um golpe de sorte. Definitivamente não.
Matvey Safonov, um goleiro russo até então desconhecido do grande público, terceiro reserva de um PSG estrelado, decidiu uma final continental defendendo quatro cobranças do Flamengo. Quatro. Não houve ali improviso, intuição sobrenatural ou sorte ocasional. Houve estudo minucioso, leitura fria do adversário e coragem para confiar no que havia sido preparado antes de a bola rolar.

Safonov não virou herói por acaso. Virou porque foi preparado para isso. Antes de cada batida, ele caminhava até a trave, pegava uma toalha vermelha aparentemente banal e conferia sua “cola”. Nela, só havia informação. Nome, número, nacionalidade, foto, pé dominante e, sobretudo, um mapa detalhado das zonas preferenciais de cobrança de cada jogador do Flamengo. Um trabalho coordenado pelo preparador de goleiros Borja Álvarez Buedo, fruto de análise, repetição, observação e banco de dados. Futebol moderno em seu estado mais puro.
Não foi sorte
As imagens captadas pelo fotógrafo Mohamed Elhosary, do jornal egípcio Youm7, escancararam aquilo que muitos insistem em negar: o pênalti começa muito antes do apito final. Começa no vídeo, na planilha, no treino invisível. Safonov não “escolheu um canto”. Ele executou um plano.
E o plano funcionou de maneira quase inacreditável. Saúl, Pedro, Léo Pereira e Luiz Araújo pararam no goleiro russo. Apenas De la Cruz converteu. O Flamengo, que tantas vezes ouviu — e tantas vezes repetiu — que decisões por pênaltis fogem ao controle, foi derrotado exatamente pelo contrário: por alguém que assumiu o controle total da situação.
Safonov sabia de tudo
O contexto torna tudo ainda mais simbólico. Safonov tem 26 anos, 1,92m, era reserva imediato em um elenco que perdeu Donnarumma para o Manchester City e foi ao mercado buscar Lucas Chevalier, do Lille. Luis Enrique só o escalou como titular pela primeira vez na temporada em 6 de dezembro, numa goleada por 5 a 0 sobre o Rennes. Até a final intercontinental havia feito apenas mais duas partidas. Nenhuma delas prepararia emocionalmente um goleiro para defender quatro pênaltis em uma decisão continental — a não ser o trabalho invisível.

Exemplo a seguir
É justamente aí que o futebol brasileiro precisa se olhar no espelho. Quantas vezes a eliminação nos pênaltis é tratada como fatalidade? Quantas entrevistas repetem o mantra da loteria para suavizar fracassos que, na verdade, passam por negligência metodológica? Safonov não ganhou o jogo sozinho. Ele foi o rosto visível de uma estrutura que levou a sério algo que muitos ainda tratam como aleatório.
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A final do Intercontinental não revelou apenas um herói improvável. Ela expôs uma diferença de mentalidade. De um lado, a crença no acaso. Do outro, a fé no estudo. Entre uma coisa e outra, um goleiro com uma toalha nas mãos e quatro pênaltis defendidos para provar, de forma definitiva, que pênalti não é loteria. É treino. É pesquisa. É uma decisão baseada em informação.





