Jogar com Neymar pode ser perigoso. Não jogar talvez seja ainda mais. É diante desse dilema, sem uma alternativa segura, que o Santos precisa decidir como utilizar seu principal jogador contra o Palmeiras, nesta quarta-feira, às 21h30 (horário de Brasília), no Nubank Parque, pelo primeiro duelo das quartas de final da Copa do Brasil. A questão vai muito além da conhecida resistência de Neymar aos gramados sintéticos. Ela envolve condição física, risco disciplinar, uma sequência pesada de partidas e, claro, a necessidade esportiva de não deixar o Palmeiras construir em casa uma vantagem que transforme o confronto da Vila Belmiro, na volta, em uma missão quase impossível.

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Qualquer decisão de Cuca terá um preço a se pagar. Se escalar Neymar desde o início, o treinador expõe o camisa 10 a um piso que ele rejeita, acrescenta mais 90 minutos a uma sequência exigente em termos físicos e ainda corre o risco de perdê-lo para o segundo jogo. Isso porque Neymar entra em campo com o risco de suspensão. O atacante recebeu dois cartões amarelos nesta Copa do Brasil, contra Coritiba e Remo. Uma nova advertência diante do Palmeiras significa suspensão automática no confronto de volta, marcado para o dia 2 de setembro, às 21h30 (horário de Brasília), na Baixada Santista.

Neymar Santos
Neymar durante partida contra o Mirassol; camisa 10 atuou o jogo inteiro e é dúvida contra o Palmeiras / Santos FC

Neymar é decisivo

E este talvez seja o risco mais delicado de todos. Neymar não é um jogador que passa despercebido por uma partida. Procura a bola, participa das jogadas, sofre faltas, discute decisões da arbitragem e joga no centro dos acontecimentos. Nesta temporada, Cuca já deixou claro que pretende conversar com o craque sobre o excesso de advertências, porque o Santos não pode se dar ao luxo de perder seu jogador mais importante em momentos decisivos. Contra o Palmeiras, portanto, Neymar precisará jogar também contra a própria impulsividade.

Na camada dos prós e contra, o gramado sintético acrescenta outra camada de preocupação. Desde que retornou ao futebol brasileiro, Neymar transformou esse tipo de superfície em assunto recorrente. Fez críticas ao piso do estádio palmeirense e deixou evidente que não se sente confortável atuando nessas condições. O histórico recente ajuda a explicar a resistência. Na única partida que atuou no piso artificial, contra o Atlético-MG, na Arena MRV, em setembro do ano passado, Neymar sofreu uma torção no tornozelo direito logo nos primeiros movimentos, sem contato com adversários. Permaneceu em campo, mas voltou a criticar o gramado depois do jogo.

Sintético provoca lesão?

É importante, porém, não transformar preferência pessoal em diagnóstico médico. Pesquisas mais recentes também não permitem afirmar que o gramado sintético provoque mais lesões de maneira geral. A revisão sistemática mais confiável sobre o tema, publicada em 2023 no British Journal of Sports Medicine, com análises de estudos sobre lesões em diferentes superfícies, concluiu que as evidências ainda são heterogêneas: alguns trabalhos apontam alterações no perfil de lesões, como musculares, de pele ou relacionadas à tração, enquanto outros não encontram diferença relevante no risco total quando modalidade, nível de competição, qualidade do piso e manutenção são considerados.

O consenso mais prudente é que o tipo de superfície pode alterar o perfil das lesões, mas não determina sozinho que o risco global seja maior. O fato objetivo, portanto, é outro: Neymar não gosta da superfície, não se sente confortável nela e carrega um episódio recente que reforçou sua resistência.

Riscos na balança

Para o Santos, isso já basta para entrar no cálculo. Só que preservar o atacante também representa enorme perigo esportivo. Guardar Neymar também pode custar caro. O Palmeiras disputará a primeira partida em casa e o Santos sabe que deixar seu melhor jogador fora por precaução significa abrir mão de uma arma fundamental durante metade da eliminatória.

Neymar já decidiu partidas para o time nesta temporada. Na própria Copa do Brasil, foi dele a assistência para Rony marcar o gol da classificação diante do Remo, no Mangueirão. Ao todo, soma oito gols e oito assistências em 22 partidas pelo Santos em 2026. São 16 participações diretas nos 67 gols marcados pelo time na temporada, quase um em cada quatro.

Neymar discute com a juíza Edina Alves Batista
Neymar discute com a juíza Edina Batista após receber cartão amarelo; pendurado, pode não jogar na quarta / Reprodução

Neymar disputou os 90 minutos do empate por 1 a 1 com o Mirassol no domingo, na Vila Belmiro. O Santos agora enfrenta o Palmeiras, visita o Corinthians no domingo, pelo Brasileirão, e recebe novamente o time de Abel Ferreira três dias depois. São quatro partidas em apenas 11 dias. Três delas são clássicos. Duas valem uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. E o compromisso pelo campeonato nacional também está longe de ser descartável para uma equipe que luta para se distanciar da zona do rebaixamento.

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Cuca já administrou a utilização de Neymar pensando neste trecho do ano. Agora, porém, chegou aquele momento em que preservar demais também pode custar caro. Existe, porém, uma saída intermediária: começar com Neymar no banco e utilizá-lo apenas se o andamento da partida exigir. Seria uma forma de diminuir sua carga física e o tempo de exposição ao gramado. Mas não eliminaria nenhum dos principais riscos. Alguns minutos bastam para sofrer uma lesão. Também bastariam para receber um cartão amarelo. No fim das contas, Cuca não precisa escolher entre correr ou evitar riscos. Precisa decidir qual deles o Santos pode se permitir correr.

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