O São Paulo precisava de uma vitória. Mais do que isso: precisava de uma trégua na maldição que fazia o time deixar escapar resultados positivos que pareciam já conquistados e escorriam pelos dedos sem explicação. Enfim, depois de nove jogos de agonia, desconfiança e cobranças, o Tricolor entrou no Morumbis nesta terça-feira carregando um peso emocional extra. Diante de um adversário visivelmente inferior, que vinha para o jogo sem poder tirar proveito dos efeitos da altitude da Bolívia, não bastava vencer e avançar na Copa Sul-Americana. Era preciso recuperar um pouco da confiança perdida pelo caminho.
E conseguiu. A vitória por 3 a 1 sobre o Bolívar (4 a 2 no agregado dos dois jogos) não apaga os problemas que fizeram o São Paulo chegar a este momento, nem transforma de uma hora para outra o trabalho de Dorival Júnior num exemplo de excelência. Mas interrompe uma sequência incômoda, devolve alguma tranquilidade aos jogadores e, principalmente, abre a perspectiva real de brigar por um título que pode salvar a temporada turbulenta.

Alívio gigantesco
E olha que a tal maldição esteve muito perto de se repetir. O São Paulo fez um primeiro tempo consistente, teve mais posse de bola, ocupou melhor os espaços e criou as melhores oportunidades. O Bolívar, ao contrário, praticamente não ameaçou Rafael. Aos 17 minutos, a superioridade tricolor se consolidou com a abertura do placar. Danielzinho apareceu muito bem pela esquerda, atacou o espaço vazio e recebeu de Iago. De primeira, cruzou para o meio da área. Luciano não desperdiçou. Pegou de esquerda e mandou para a rede.
Era o gol que o São Paulo precisava para respirar. E controlar o andamento do jogo à sua maneira. O time continuou encontrando espaços. Danielzinho ainda deixou Iago em boa condição dentro da área, mas Lampe evitou o segundo. Marcos Antônio também teve a sua oportunidade antes do intervalo, mas bateu por cima. O problema é que, para o São Paulo dos últimos meses, uma vantagem nunca pareceu suficiente. A lembrança mais recente estava justamente no outro lado da disputa. Em La Paz, o Tricolor também havia feito um bom primeiro tempo, saído na frente e depois sofrido o empate na etapa final. No Campeonato Brasileiro, a história vinha se repetindo com uma frequência que transformara cada vantagem em motivo de apreensão.
Chute na maré de azar
E o fantasma voltou a aparecer no Morumbis.Aos 15 minutos, Luciano teve a chance de acabar com a partida. Entrou pelo meio da área e bateu rasteiro, cruzado. A bola beijou a trave e saiu. No minuto seguinte, veio o golpe. E o temor do reaparecimento dos velhos fantasmas. O centroavante Asprilla recebeu fora da área e acertou um daqueles chutes que deixam o goleiro apenas como espectador. De três dedos, como se diz no futebol, mandou a bola no ângulo esquerdo de Rafael. Um golaço.
O 1 a 1 fez o Morumbis mudar de temperatura. Por alguns minutos, todos aqueles traumas de jogos passados voltaram juntos. A sequência de nove partidas sem vencer, os pontos desperdiçados, os jogos em que o time saiu na frente e não soube sustentar o resultado, a pressão sobre Dorival… A torcida, que mais uma vez lotou o estádio e passou a noite empurrando o time, já começava a perder a paciência. Mas desta vez o São Paulo não se entregou ao roteiro que vinha perseguindo o clube. Sete minutos depois do empate, veio o alívio. Em uma cobrança de falta para a área, Sabino cabeceou e a bola tocou no braço aberto de Echeverría. O VAR chamou o árbitro para a revisão. Pênalti. Calleri assumiu a responsabilidade. E bateu como quem queria tirar uma tonelada das costas. Forte, firme, no alto, no canto direito de Lampe. 2 a 1.
O respiro foi imediato. Não apenas pelo gol, mas pela maneira como o São Paulo reagiu ao momento em que tudo parecia começar a desandar outra vez. E ainda havia mais. Aos 31 minutos, Artur cobrou escanteio na medida. Sabino apareceu no primeiro pau, subiu mais do que todo mundo e mandou para a rede. O terceiro gol transformou o sofrimento em festa e liquidou a disputa.

Que venha o Boca Juniors
Desta vez, o São Paulo não deixou a vitória escapar. Talvez seja cedo para falar em mudança de rumo. Uma noite não resolve os problemas acumulados em semanas. Mas há vitórias que valem mais do que os três gols que aparecem no placar. Esta valeu porque interrompeu um ciclo de frustração que já começava a contaminar tudo: o ambiente, os jogadores, a torcida e até a avaliação sobre o trabalho de Dorival Júnior.
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Até porque agora a exigência sobe muito. Nas quartas de final da Sul-Americana, o adversário será o Boca Juniors, que confirmou sua classificação com goleada, por 4 a 0, sobre o Recoleta, no duelo argentino, e chega como um dos grandes obstáculos do caminho tricolor. O Boca será outra história. Mas antes de pensar no gigante argentino, o São Paulo merece curtir esse momento de alegria e esperança em paz.





