A responsabilidade de defender o título de último campeão é sempre um peso a mais na disputa de uma Copa do Mundo, realizada num intervalo de quatro anos em que muita coisa acontece de forma a relativizar as certezas. Não por acaso, o técnico Lionel Scaloni inicia os preparativos da seleção argentina em território norte-americano lutando contra a pressão de ser apontado como favorito à conquista do bicampeonato consecutivo.
Personagem central daquela que foi uma das mais emblemáticas finais da história das Copas, vencida pela Argentina nos pênaltis após um eletrizante empate por 3 a 3 diante da França, no Catar, Scaloni prefere enxergar sua equipe inserida em um grupo amplo de candidatos ao título. Em entrevista concedida ao jornal esportivo argentino Olé, o treinador foi questionado sobre a projeção que fazia para a trajetória da Argentina no Mundial e respondeu sem qualquer traço de arrogância.

Para ele, os atuais campeões estão entre as dez (isso mesmo, dez!) seleções com condições de levantar a taça, mas longe de serem os únicos postulantes. “Não sei se dez ainda é um número pequeno”, observou o treinador ao listar os países que considera capazes de chegar ao topo. “Não posso dizer se a Argentina vai ganhar de novo, mas vai brigar para chegar à final junto com Espanha, França, Portugal, Inglaterra, Brasil, Colômbia, Uruguai, Marrocos e Croácia.”
Receita para ser campeão
A declaração chama atenção por partir de alguém que conhece como poucos os atalhos e armadilhas de uma Copa do Mundo. Experiente, Scaloni fez questão de advertir que um Mundial não se conquista apenas jogando bola. O rendimento dentro de campo é fundamental, mas está longe de explicar sozinho uma campanha vitoriosa em um torneio de tiro curto, no qual a margem de erro se aproxima de zero e fatores circunstanciais costumam ser decisivos.
Essa reflexão dialoga diretamente com a própria trajetória do treinador à frente da Argentina. Ao olhar para trás, desde os tempos em que assumiu o comando cercado de desconfiança até a consagração no Catar-2022, Scaloni recordou quantos obstáculos precisaram ser superados ao longo do caminho. “Das últimas seleções campeãs, nós fomos certamente a que teve mais obstáculos no percurso. Perdemos o jogo de estreia, sofremos o empate no último minuto contra a Holanda e decidimos a classificação nos pênaltis. E, na final, abrimos 2 a 0 contra a França e o jogo empatou em 3 a 3”, relembrou.
A observação serve para desmontar a visão simplista de que os campeões percorrem trajetórias lineares até a glória.

Aprendizado com mestres
Se hoje Lionel Scaloni fala com a autoridade de quem conquistou a taça, ele também conhece o outro lado da moeda. Em 2006, ainda como jogador, integrou a talentosa seleção argentina comandada por José Pékerman, eliminada pela Alemanha nas quartas de final. Até hoje, a lembrança permanece viva. “Na Copa da Alemanha, a expectativa era enorme. Tínhamos um timaço e não conseguimos o objetivo. Ficou na memória uma seleção incrível, que marcou época. Mas não ganhou.”
Talvez esteja aí a essência da Copa do Mundo. Um torneio capaz de transformar equipes brilhantes em lembranças melancólicas e, ao mesmo tempo, eternizar grupos que souberam resistir às dificuldades quando tudo parecia perdido.
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A roda-gigante volta a girar em 2026. E a “Scaloneta” embarca para mais uma viagem carregando a experiência de quem já conheceu os dois extremos da competição. Com a humildade de quem não se coloca como favorita, mas também com a confiança de quem aprendeu a vencer. Seja qual for o desfecho, a Argentina de Messi, Scaloni e companhia certamente tem lugar garantido entre os grandes protagonistas desta Copa que começa em uma semana.





