Por Fabrício Barcelos

Perseu não é exatamente um deus grego talhado em mármore. O que há de mais alvo nele são os cabelos grisalhos, que brotaram em compensação, deficitária, aos fios castanhos arrancados sem misericórdia pelo passar dos anos. Mas chegou à beira dos 60 gozando das fartas facilidades oferecidas no Brasil a um homem entendido como branco: boa vontade condescendente dos chefes também machos, respeito incondicional da Polícia Militar e relações sociais alicerçadas num repertório reduzido a conversas sobre futebol.

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O esporte, aliás, funciona para Perseu como uma argamassa para novas companhias. Seria exagero chamar de amizade esses afetos nascidos nas arquibancadas. O tom da masculinidade de Perseu interdita o olho no olho, recomenda um escudo para camuflar fragilidades. A vulnerabilidade não pode aparecer, nem no mais vago reflexo.

CHORAR ABRAÇADO A OUTRO HOMEM

A um cara como Perseu, só é dado o direito de chorar abraçado a outro homem se for para celebrar um gol do time do coração. É uma catarse perseguida por ele religiosamente, há temporadas, mesmo que, numa constância frustrante, o clube passe rodadas sem dar pretexto para lágrimas de alegria.

Autoproclamado cristão, sobretudo depois que isso passou a pegar bem entre os parceiros, Perseu na verdade é muito indisciplinado para as coisas da fé. O estádio preenche o vazio da alma, proporcionando comunhão numa liturgia com cerveja liberada. Tampouco sente falta de cantoria de igreja, porque o futebol dá salvo-conduto para pular, dançar, gritar num volume que, em outros corpos, pediria diagnóstico psicanalítico.

Com tanta liberdade para despressurização do espírito, não precisa ser muito sagaz para entender as razões de Perseu. Foi ensinado pelo pai e pelo avô a amar o clube, tem sentimentos genuínos, sente a vista umedecer quando o time entra em campo, mas ele precisa admitir que vai ao jogo antes de tudo por si mesmo. Viciou nas hipérboles sentimentais. Não vive mais sem os abraços que, ao balançar da rede, ficam livres de veto.

UMA FINAL A 450 QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA

Esses dias, houve uma final, 450 quilômetros distante. Ele foi. Aos 17 minutos do segundo tempo, o menino vindo da base driblou com o que Caetano chama de elegância sutil de Bobô, resistiu ao ímpeto de cavar a falta e rolou, com mel, para o lateral. Este, também açucaradamente, achou o centroavante que, na linha de fundo, serviu o gringo. Goool!

Perseu sentiu o corpo levitar, carente de chão. Soltou uivos quase inumanos e, exaurido em segundos, buscou abraços em braços indisponíveis. Todos à volta, rostos afogueados pelo sangue bombeado pela jugular, olhavam para telas de celular. O gol do título não valia ser vivido no presente. Foi catapultado em videoselfies ao futuro incerto pelo narcisismo, para o desejo de teatralizar sentimentos para tédio ou inveja de terceiros.

Como na mitologia, Perseu se viu invisibilizado, não pelo capacete de Hades, mas pelo individualismo, o gozo de si mesmo, que, num contexto ideológico, ele acha até bonito. Andejou, confuso, se sentindo só, um senhor grisalho carente de abraço.

QUEM É ELE

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.

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