A Argentina venceu a Inglaterra e se habilitou a buscar seu quarto título mundial por um simples motivo: foi a equipe que queria vencer em Atlanta. Se até em jogo de várzea a vontade de ganhar é fundamental para a conquista do objetivo, que dirá em uma semifinal de Copa do Mundo. Os argentinos conhecem muito bem esse elementar princípio. A boa seleção inglesa, ao que parece, não: a considerar o comportamento demonstrado em campo. Inexplicável e covarde.
É difícil entender a postura da Inglaterra após sair em vantagem em um jogo que até então era ruim, travado, sem ousadia e criatividade. A impressão que se tem é a de que os ingleses em nenhum momento acreditaram na vitória. Aí, “acharam” um gol e, surpresos, resolveram sentar em cima da vantagem.

O problema é que no futebol, a situação é válida se o time que está em vantagem recua para atrair o adversário a fim de definir o jogo ampliando o placar em contra-ataques. Várias vezes dá certo, diria até que na maioria das vezes. Porém, essa ação estratégica é bem diferente de uma atitude covarde, que é recuar para apenas se defender, pensando unicamente em torcer para a partida chegar ao fim. Normalmente dá errado. Como deu.
Uma covardia inexplicável
A Inglaterra fracassou porque do outro lado do campo estava uma equipe que tem como uma de suas marcas lutar incessantemente o tempo todo pela vitória. A Argentina também estava bastante desgastada fisicamente, como a Inglaterra. Entretanto, jamais deixou de acreditar na possibilidade de vencer — como já fizera, por exemplo, tanto contra Cabo Verde quanto, e principalmente, diante do Egito. É de se alegar que a Inglaterra é muito superior às duas seleções citadas. Fato. Assim como é fato que ambas, mesmo com seus diferentes graus de limitações, recusaram-se a ser tão covardes como os ingleses foram.
Reação
A Argentina mais uma vez mostrou confiança, raça e coração. Foi para cima e aproveitou a mediocridade do adversário. Lionel Scaloni fez alterações que tornaram o time mais ofensivo. Enquanto isso, a Inglaterra tremia. Thomas Tuchel, em vez de trocar o cansado Rogers por Saka ou Madueke para ao menos ter uma válvula de escape, uma opção de velocidade, optou por estabelecer uma linha de cinco na defesa e colocar o resto do time, Kane inclusive, na frente da área para proteger tal linha. Ou seja, convidou a Argentina a lhe bombardear. O convite foi aceito.
Messi, que até o gol inglês estava discreto, passou a tomar conta do jogo. Aos 39 anos, parecia estar até então se poupando para quando fosse necessário entrar em ação. Para isso, teve uma contribuição extra: o espaço dado pelos ingleses, que se plantaram dentro da própria área — e mesmo neste reduzido espaço cansaram de cometer erros de posicionamento. Reparem que a liberdade que Enzo Fernández teve para dar o chute que levou a Argentina ao empate já havia ocorrido algumas vezes.
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Desde a saída do jogo após o gol da Inglaterra, ficou claro que a Argentina iria virar: pelo volume que resultou em bolas na trave e boas defesas de Pickford e pela incrível falta de reação dos europeus. No fim, aconteceu de novo: os corajosos venceram os covardes.
Direito de sonhar
Domingo, na decisão, a parada será mais dura. A Espanha tem uma seleção melhor tecnicamente, seu treinador, Luis de La Fuente, não tem tantos problemas para montar o esquema tático como Scaloni vem tendo. E os espanhóis não costumam se sujeitar à pressão de seus adversários — e mantêm a calma quando tentam. Atual campeã, a Argentina tentará entrar na seleta galeria de tetracampeões mundiais. Pode não conseguir o título, mas, mais do que qualquer outra seleção, adquiriu o direito de sonhar.





