Ainda não se sabe ao certo qual era a intenção de Yuri Alberto quando resolveu falar publicamente, assim, do nada, sobre seu desejo de sair do Corinthians na próxima janela de transferências. O time havia acabado de derrotar o Barra, em Itaquera, por 1 a 0, gol dele, e a torcida só pensava em pegar o trem e voltar para casa curtindo a vitória e a classificação para a próxima fase da Copa do Brasil, mantendo de pé o sonho do bicampeonato. Mas numa entrevista pós-jogo meio protocolar, o atacante abriu o coração, encheu-se de sinceridade — e talvez ingenuidade — para disparar uma notícia que ninguém esperava ouvir naquela noite.

Tudo sobre a Copa do Mundo

A partir dali, Yuri bateu de novo às portas do inferno nessa relação meio irracional, meio tóxica, que boa parte das torcidas brasileiras costuma estabelecer com seus ídolos. Porque é inegável que desejar uma vaga no rico futebol europeu, com salários em euro e estruturas muito superiores às oferecidas no Brasil, é absolutamente legítimo. Ainda mais para quem está num clube mergulhado numa dívida acumulada de bilhões de reais (R$ 2,8 bi), convivendo com dificuldades para arcar com compromissos básicos da administração do dia a dia e devendo salários e premiações para parte do elenco.

Yuri Alberto deixou claro que deseja trocar o Corinthians pela Europa na próxima janela de transferência / Instagram

Não há crime — e não deveria haver castigo — para um atleta profissional que vislumbra a possibilidade real de trocar esse cenário de incertezas por um eldorado que paga em dia e ainda pode lhe abrir novas portas na carreira. No caso de Yuri, existe inclusive a perspectiva de chegar à seleção italiana graças ao passaporte comunitário europeu. Tudo isso faz sentido. Tudo isso é compreensível.

O timing errado de Yuri Alberto

O problema foi o timing errado. A ocasião indevida. A forma desestruturada de um anúncio que pegou todo mundo de surpresa numa noite em que a última coisa que se podia imaginar era um debate sobre a venda do artilheiro. O assunto simplesmente não estava em pauta. Mas, desnecessariamente, Yuri trouxe para si um holofote que certamente lhe causaria problemas. E causou.

Causa e consequência

Tudo isso acabou amplificado por uma sequência de atuações abaixo do seu padrão técnico, com gols perdidos e um desempenho bem distante daquele atacante decisivo que tantas vezes carregou o Corinthians em momentos difíceis. Bastou isso para parte da torcida concluir que Yuri já não está mais tão comprometido com a camisa corintiana e que sua cabeça estaria longe do Parque São Jorge pensando no que vem depois da Copa. Pode até não ser verdade. Talvez não seja. Mas foi exatamente esse arquétipo do jogador desconectado emocionalmente do clube que começou a se formar ao redor dele.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

No futebol brasileiro essas narrativas ganham vida própria muito rapidamente. O atacante que até outro dia era exaltado como símbolo de raça e entrega passou a ser visto por muitos como um mercenário ingrato. Parece exagero. E provavelmente é. Mas paixão de torcida raramente respeita o princípios de equações equilibradas cientificamente.

Desconversada básica

Depois dos gols perdidos em Montevidéu, questionado novamente sobre o tema, Yuri já apareceu diferente. Desconversou, mudou o tom, afirmou que não há nada definido e que tudo será resolvido no tempo certo. Deu a entender até que seguirá mais as orientações do pai, agora transformado em seu representante, no papel que até então era do empresário André Cury, personagem que também mantém relações desgastadas com o clube por conta de dívidas pendentes.

Seja como for, Yuri sabe que pisou na bola na condução desse episódio. E agora terá de lutar contra uma onda de negatividade que ele mesmo ajudou a criar. Para ele e para o Corinthians, a pausa da Copa do Mundo talvez apareça como uma espécie de trégua. Um momento de paz, reflexão e reorganização. Até que o próximo passo desse futuro finalmente seja decidido.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui