O triturador de técnicos e o ‘oásis’ de Abel: o abismo entre projeto e imediatismo no Brasil

Enquanto o Palmeiras colhe os frutos da longevidade, gigantes como Flamengo e Santos seguem presos ao ciclo de demissões e ilusões

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Trio de ferro: Abel segue como o treinador mais longevo dos últimos anos, comparando com Dorival e Crespo, o português

Enquanto Abel Ferreira reina absoluto no Palmeiras, rivais tentam achar salvadores da pátria em cada esquina… Domenec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho, Paulo Sousa, Dorival Júnior, Vítor Pereira, Jorge Sampaoli, Tite e Filipe Luís. A lista impressiona. São os técnicos que passaram pelo Flamengo nos últimos seis anos, período que culmina agora com a chegada de Leonardo Jardim. É exatamente o mesmo intervalo de tempo em que Abel comanda o Palmeiras, ganhando ou perdendo títulos, mas sempre sustentado por uma estrutura de confiança institucional. Esse contraste diz muito sobre gestão de pessoas, cultura de trabalho e pilares administrativos. Não basta ter muito dinheiro e imaginar que ele pode comprar vitórias.

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Evidentemente o orçamento é um caminho para projetos sólidos, duradouros e bem-sucedidos — no futebol ou em qualquer outra atividade econômica. Mas ele está longe de ser o fim da equação. A longevidade de Abel, inicialmente respaldada pela coleção de títulos conquistados em suas melhores jornadas, hoje se sustenta sobretudo como exemplo de como resistir ao imediatismo e ao passionalismo que dominam o futebol brasileiro.

Trio de Ferro: abismo de longevidade entre Abel, Dorival e Crespo expõe cultura do imediatismo / Montagem The Football

Com o respaldo da presidente Leila Pereira, o técnico português virou símbolo de continuidade num ambiente em que a regra é a ruptura. E o Flamengo está longe de ser caso isolado. Levantamento divulgado pelo canal TNT Sports mostra que, nas últimas cinco temporadas, outros gigantes também trocaram o pé pelas mãos na busca incessante por um técnico salvador da pátria.

Instabilidade santista

O campeão de instabilidade é o Santos, que contratou nada menos do que treze treinadores no período: Cuca, Ariel Holan, Fernando Diniz, Fábio Carille, Fabián Bustos, Lisca, Odair Hellmann, Paulo Turra, Diego Aguirre, Marcelo Fernandes, Carille novamente, Pedro Caixinha e, agora, Juan Pablo Vojvoda. Como esperar que um clube construa padrão de jogo, identidade tática ou mesmo um ambiente favorável ao aproveitamento das joias da base com tamanha instabilidade? Não há projeto que resista a tantas mudanças de comando — cada uma delas trazendo consigo nova filosofia, novo humor, novos pedidos de elenco e, quase sempre, a mesma frustração nos resultados.

O Santos virou talvez o retrato mais fiel de um clube que se perdeu em algum ponto do passado e passou a enxergar na troca de treinadores um bálsamo instantâneo para problemas estruturais. Ocorre que ninguém faz milagre. Hoje, sob o comando de Vojvoda, qual é a expectativa da torcida e dos analistas em relação ao time santista? Certamente não das mais otimistas — e não porque o treinador seja o problema. Difícil é admitir isso.

Pilha de treinadores

Na mesma linha, o Corinthians também empilhou treinadores enquanto Abel reinava no rival. E o curioso é que o próprio clube já deu, no passado, um exemplo de resiliência. Quando decidiu manter Tite no cargo mesmo após a humilhante eliminação na pré-Copa Libertadores da América, abriu caminho para uma reconstrução que culminaria no título invicto da Libertadores e na conquista do Mundial de Clubes da Fifa.

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Mas o tempo passou, os problemas voltaram e a diretoria começou a agir como tantas outras no país, apostando na crença de que existe um salvador da pátria em cada esquina. Nos últimos anos passaram pelo banco corintiano Vagner Mancini, Sylvinho, Vítor Pereira, Fernando Lázaro, Cuca, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, António Oliveira, Ramón Díaz até a chegada de Dorival Júnior. Dorival, aliás, ocupa hoje posição curiosa nesse cenário: é um dos técnicos há mais tempo no mesmo clube do país — e provavelmente já teria sido demitido se não tivesse conquistado a Copa do Brasil na temporada passada. Sua cova, como tantas vezes ocorre no futebol brasileiro, já estava aberta.

De Diniz a Crespo

O São Paulo também seguiu roteiro parecido. Passaram pelo clube Fernando Diniz, Hernán Crespo em sua primeira passagem, Rogério Ceni, Dorival Júnior, Thiago Carpini e Luis Zubeldía antes do atual estágio novamente com Crespo. Muita gente para poucos resultados consistentes dentro de campo — algo que talvez se explique mais pelos escândalos administrativos recentemente revelados do que pela qualidade dos treinadores.

Nesse cenário de instabilidade estrutural, Leonardo Jardim inicia agora seu projeto no Flamengo. Chega até um pouco constrangido depois de ter declarado no passado que não treinaria outro clube brasileiro que não fosse o Cruzeiro. Mudou de ideia diante de uma proposta irrecusável — e reconheceu ter sido ingênuo ao fazer uma espécie de jura de fidelidade ao time mineiro. Até porque ele sabe melhor do que ninguém que, no futebol brasileiro, a roda gira rápido — e raramente poupa alguém. Se em um ano o Flamengo não conquistar os títulos que a diretoria espera, Jardim certamente será tratado como um trem que tomou o trilho errado. E, como manda a tradição do nosso futebol, precisará parar na próxima estação.

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