Por Savério Orlandi

A lei que instituiu a Sociedade Anônima do Futebol (nº 14.193/2021) completará no mês de agosto, depois da Copa do Mundo, cinco anos de existência com um modelo consolidado, mas não definitivo, e com bastante entusiasmo pelas associações esportivas. Ainda que não trate de uma panaceia geral, já é um conceito encaminhado de gestão, que permite a criação de um ambiente propício para a melhor governança dos clubes, principalmente para o equacionamento dos passivos e para atração de novos investimentos. Mas há ressalvas, como o que aconteceu no Botafogo, de John Textor, e de outros clubes que não tiveram boas experiências.

Siga The Football

Desde 2023, a matéria passa por uma revisão legislativa, com um projeto de alteração em trâmite dentro do moroso legislativo brasileiro. Há boas inclusões para o seu aperfeiçoamento, como mais transparência dos atos da gestão, de uma obrigatoriedade da presença de um conselheiro independente no board da instituição e da garantia de um mínimo percentual para a distribuição de dividendos aos acionistas.

John Textor, dono da SAF do Botafogo: situação atual bastante complicada no clube do Rio de Janeiro / Botafogo

É sempre bom ter em mente que o dono de uma SAF quer lucrar, ganhar dinheiro. Mesmo os mais apaixonados pelo clube. Segundo o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento da Sociedade Anônima do Futebol (IBESAF), havia 127 SAFs no Brasil até dezembro de 2025. É bastante coisa.

Primeira onda das SAFs

No “dia seguinte” à vigência da nova legislação da SAF, as primeiras transformações ocorreram basicamente por causa da dívida dos clubes. Elas foram aderidas como uma solução imediata para as associações esportivas em situação “pré-falimentar”, que mal dispunham de recursos para arcar com as despesas operacionais mais comezinhas, como as contas de consumo, por exemplo.

Ronaldo assumiu a SAF do Cruzeiro e tocou o clube antes de vendê-lo para Pedro Lourenço / Cruzeiro

As operações iniciais foram abruptas, implementadas sem qualquer tipo de valuation e marcadas por aportes que permitissem a própria continuidade existencial da marca, sob a forma da transferência do controle acionário, total ou parcial, para os investidores. O Botafogo é um desses casos. Vasco e Cruzeiro também. O clube mineiro fez um barulho tremendo por causa da participação do craque Ronaldo Nazário no negócio, o que além de torná-lo dono da SAF fez com que ele figurasse como grande fiador desse novo modelo societário. O Fenômeno ajudou a consolidar as SAFs no futebol brasileiro.

A segunda onda

O processo passou então por muitas transformações através dos mais variados modelos, na maior parte com as estruturas mais bem refletidas e desenhadas e invariavelmente com a alienação do comando decisório da SAF. Esse período implementou processos desenvolvidos por clubes como Fortaleza e Bahia, cuja SAF passou a integrar uma organização multi-clubes, e pelo Atlético Mineiro. Foi também a chance para a regularização formal dos negócios de investidores que já aportavam recursos em associações esportivas, além de alternativa para que clubes regionais ou nacionais de outros tamanhos redefinissem trajetórias com abertura à investimentos.

O fim desse ciclo trouxe ainda as práticas de mercado ao futebol, com operações que envolveram a compra e a venda de ações diretamente da SAF por novos investidores. Mais uma vez, o Cruzeiro saiu na frente quando foi adquirido por Pedro Lourenço. Esse repasse das SAF começa a ganhar força e se tornar recorrente.

Vem aí a terceira onda

Dentre as novas tendências, tem se verificado atualmente processos mais acurados com análise prévia, às vezes mediante a assinatura de documento preliminar, como protocolos de entendimento (o que fez o Santos, por exemplo) ou estruturações mais sofisticadas patrocinadas por assessores financeiros com a realização de due diligence. E quase sempre através de aportes e implementação faseados, como é a proposta hoje em análise pelo Fluminense.

SAF no Santos: clube analisa proposta de grupo americano que detém grande poderio financeiro / Santos FC

Outro movimento recente foi a venda da participação acionária para investidores novos sem a transferência do controle da gestão. Ou seja, uma venda de percentual inferior a 49% das ações da SAF. O Coritiba e o Independiente Del Valle são dois exemplos desse modelo aprimorado de 2025. Mas esse ainda é um modelo visto por alguns como improvável, mas que pode fazer sentido para futuras parcerias estratégicas e duradouras, com vinculações de marcas que além do caráter econômico vislumbrem também o fortalecimento esportivo e institucional.

É nítida a evolução nos processos de conversão das SAFs, construindo cenários mais claros e dispondo de mais tempo para as operações e suas valuations, assim como o estudo das contingências, até porque a própria indústria como um todo tem se aprimorado substancialmente no processo.

Vem mais por aí?

Além do incremento das transações diretas das participações acionárias nas SAFs entre proprietários e novos investidores, caminho irreversível como já mencionado, é óbvio que as atenções se voltem para a parcela de clubes que mantém estruturas associativas, como Flamengo e Palmeiras. Assim, especialmente em relação às associações com equilíbrio financeiro e reiterados aumentos de receitas, as eventuais transformações com 100% da titularidade mantida pelo próprio clube e mesmo os casos de alienação de ações sem realizar a transferência do controle acionário são duas modalidades reais de ocorrência nos próximos tempos.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Threads
Tik Tok

Também poderão ser viabilizadas soluções personalizadas que contemplem ações da SAF em mãos dos próprios torcedores da associação. Pesquisas recentes indicam o alto grau de interesse em investir para lucrar com o seu time de coração, como a SAFIEL, do Corinthians. Sem falar da possibilidade de abertura a novos investimentos através do acesso direto ao mercado de capitais, ideia ainda não conjugada por nenhuma SAF, mas que poderá trazer uma nova forma de financiamento. A propósito, a porta foi aberta pela própria CVM com a edição do Parecer de Orientação nº 41/23, quase uma “carta convite” para esse novo jogo. As cartas estão na mesa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui