Horas depois de tentar levar sem sucesso a Romênia de volta a uma Copa do Mundo, no mata-mata da semana passada contra a Turquia, o técnico romeno Mircea Lucescu passou mal. Ele morreu nesta terça-feira, dia 7, no Hospital Universitário de Bucareste. Teve complicações após um ataque cardíaco e não resistiu. Dias antes de sua morte, em Istambul, comandando a seleção romena, Lucescu, de 80 anos, tentou uma última façanha na carreira. Foi sua última dança. Morreu fazendo o que mais gostava.
Como jogador do Dínamo de Bucareste, ganhou títulos e fez parte de uma das melhores seleções de seu país na história. Ele era o ponta-esquerda daquele time que perdeu para a seleção brasileira por 3 a 2, em Guadalajara, na Copa do Mundo de 1970. Foi um jogaço, diga-se. “Eu tinha a obrigação de atacar e tentar marcar Jairzinho e Carlos Alberto”, me contou o próprio Lucescu, falando um excelente Português, no fim de 2010, quando estive em Donetsk para uma reportagem especial. The Football lamentou a sua morte.

Apesar da derrota por 3 a 2 naquela tarde em Guadalajara, Lucescu se apaixonou pelo Brasil e pelo jeito técnico e ofensivo como aquele time liderado por Pelé jogava futebol. Era algo de “outro planeta”. Desde então, ele colocou muito do estilo brasileiro nos clubes ucranianos. Com os seus times, ele não temia diante de gigantes de qualquer lugar, como Barcelona, Milan, Madri… Era um “brasileiro” com sangue romeno.
Ele começou no Corvinul Hunedoara
Comunicativo e extrovertido, Lucescu era uma figura. Quando suas equipes atuavam fora de casa, ele levava seus jogadores, por conta própria, para visitar um monumento, um museu na cidade ou um local histórico, mesmo que isso significasse perder o último treino. “Eles são garotos de sorte, viajam pelo mundo, não podem ficar só vendo estádios e hotéis”, comentava.
Decidiu virar técnico de futebol em 1979, quando assumiu o nanico Corvinul Hunedoara. Mesmo construindo uma equipe quase do zero, sem recursos, o seu trabalho atraiu a atenção dos dirigentes do Dínamo de Bucareste, um dos maiores clubes romenos. Ele chegou à capital de seu país inovando. Em um tempo em que a Romênia era um país europeu pobre, durante a ditadura de Nicolae Ceaucescu, o treinador inventou de improviso a profissão de analista de jogos.
‘Eu treino ideias’
No começo de sua carreira, começou a requisitar os serviços dos oito melhores alunos da escola mais próxima e os colocava em setores separados do estádio com a tarefa de anotar as posições dos jogadores a cada quinze minutos. No dia seguinte, em seu escritório, ele reunia as anotações para formar um retrato preciso da partida e explicava ao elenco. “Gosto de pensar o futebol diferentemente dos outros”, costumava dizer. “Eu não treino formações táticas, eu treino ideias.”

Ao longo de sua trajetória como técnico, adorava contar com os jogadores brasileiros. E, para transformar o Shakhtar em uma equipe temida, montou uma dupla do barulho com o seu presidente naquela época: era Rinat Akhmetov. Aos 41 anos, Akhmetov tinha acumulado um patrimônio estimado em US$ 15,6 bilhões. Com dinheiro para dar e vender, ele cumpria à risca tudo o que o técnico romeno pedia. Ele queria jogadores brasileiros.
Caçador de brasileiros
Para descobrir bons atletas antes da concorrência, ainda no tempo das fitas de videocassete e dos DVDs, Lucescu acompanhava de perto os jogos dos campeonatos brasileiros. Ele contava o que via a Akhmetov, que assinava os cheques sem duvidar. Técnico e cartola viam tantos jogos juntos que, apesar de só falar russo, o idioma mais comum no leste da Ucrânia, o presidente do Shakhtar sabia de cor os nomes de vários jogadores e times do Brasil.
Assim que alguém chamasse a atenção, uma rede de contatos entrava em ação. Ela incluía o empresário francês Franck Henouda Logbi, radicado na gaúcha Porto Alegre, um velho conhecido de Lucescu desde os tempos em que ele trabalhava no Galatasaray. Naquela ocasião, foi Logbi que contratou o goleiro Taffarel por encomenda do romeno. Era Logbi que se encarregava de preparar e editar um DVD com uma dezena de partidas do jogador que interessava – com vitórias e derrotas.
A lista de brasucas
Adepto do jogo ofensivo e de equipes com jogadores técnicos, ele transformou o Shakhtar Donetsk em uma legítima sucursal do futebol brasileiro na Europa. Os primeiros da legião brasileira de Lucescu foram o atacante Matusalém e o meia Elano. Depois vieram Ilsinho, William, Brandão, Luís Adriano, Jadson e Fernandinho. Mesmo nos confins da Ucrânia, a estrutura do time era invejável.
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“Treinamos em um centro muito bem equipado e que dá show em qualquer um do Brasil, incluindo o do São Paulo e o do Cruzeiro”, me contou o lateral-direito Ilsinho naquela época. O treinador de juvenis veio a peso de ouro do Ajax, referência mundial quando o assunto é formar novos jogadores. Naqueles tempos, o médico do Shakhtar era o espanhol Paco Biosca, ex-presidente da Sociedade Internacional de Cirurgia Ortopédica. Toda essa estrutura passou pelo crivo de Lucescu. Criativo e genial, não por acaso ele foi um fenômeno de longevidade. Comandou equipes durante 45 anos, conquistou 38 títulos e, mesmo octogenário, mantinha-se atualizado e em busca da próxima ideia.





