Quando chamo o Uber, me curvo com o peso de uma tradição masculina. Sinto-me um macho incompleto, metaforicamente castrado. Nasci sem sensibilidade para prazeres de ordem automobilística. Sou incapaz de diferenciar modelos, salvo pela cor ou pela logomarca das quatro montadoras que existiam meio século atrás, na minha infância.
Se calha de vir um carro chinês, agonizo em taquicardia – não por pendores trumpistas, mas pela absoluta impossibilidade de formar mentalmente alguma imagem identificável pelo nome do carro que aparece no aplicativo. Vivo angústias até o “motorista parceiro”, compadecido, perguntar: Fabrício?

É um alívio comparável apenas às temporadas em que, por generosidade do acaso, nenhum sinistro se dá lá em casa. A humanidade fica mais segura quando, livre de minha ancestral imperícia, não preciso manusear ferramentas. Ah, faltou dizer: a debilidade da motricidade fina me faz um jogador de sinuca hediondo, repelido até por mesas de ébrios.
COMO AMAR OS CEOS E MECENAS DE NOSSOS CLUBES?
Enfim, admito, parte relevante de quem eu sou me torna incapaz de desempenhar os papeis masculinos delegados a mim pela cultura dominante. Estou girando nesses pensamentos fálicos porque, de uns tempos para cá, a macheza rala me nega a admiração por CEOs e mecenas que, do nada, surgem para salvar nossos clubes com suas fortunas.
É gringo crescido chamando futebol de soccer, é dono de cassino digital, é padeiro milionário, é arrozeiro de muitos hectares, ex-boleiro de bolso cheio na Europa, todo mundo louvado, aplaudido por jornalista em coletiva, ou simplesmente tolerado em silêncio. É uma degradação bárbara.
O CETICISMO É TRATADO COMO INVEJA
Mas, se a gente, no papel de torcedor, manifesta algum desconforto com esse avanço do capitalismo desavergonhado sobre nossos patrimônios coletivos, é como se nos faltasse testosterona. O ceticismo é tratado como inveja, que, por sua vez, é tratada como atributo feminino. Só um ser pobre, frágil e avesso a riscos não se derrete por esses machos provedores.
Sei lá, vejo os caras cansando do brinquedo em seguida. Rico é uma raça que se entedia rápido com as coisas, e amor exige paciência. Mas vá falar disso na frente do pessoal versado em carro chinês, sinuca e furadeira. Sou uma vergonha da raça – ainda que mais por inaptidão do que por rebeldia.





