A 45 dias da abertura da Copa do Mundo de 2026, não há protestos nas ruas, manifestações na porta da CBF, editoriais inflamados na TV Globo, nem aquele ódio orquestrado que escorre pelo esgoto das redes sociais e contamina a opinião pública. E é justamente sob a sombra desse contexto de silencioso desinteresse pela seleção brasileira que o técnico Carlo Ancelotti pode cometer uma grande injustiça sem sequer ser cobrado por isso: a ausência do centroavante Pedro, do Flamengo, na sua lista final para o desafio do hexa.

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Ignorar o que o camisa 9 rubro-negro vem fazendo em campo pode custar caro. Tudo bem que não há um clamor popular nacional por sua presença no grupo. Nem de longe o cenário remete a 2002, quando Luiz Felipe Scolari bateu no peito e decidiu abrir mão de Romário para preservar o ambiente daquilo que chamou de “família Scolari”. Naquele momento, Romário era um dos melhores jogadores do mundo e presença certa na preferência de praticamente todo torcedor brasileiro. Ainda assim, Felipão fez sua aposta — um all-in — e, campeão na Ásia, saiu ileso perante a história.

Pedro vive ótima fase no Flamengo e ainda aguarda sua chance na seleção brasileira de Ancelotti para a Copa / Flamengo

Talvez Ancelotti não tenha o mesmo cacife, assim como Pedro não seja exatamente a carta mágica no baralho do hexa, assim como Romário representava à época. Mas não abrir sequer uma oportunidade para o atacante do Flamengo é, no mínimo, um equívoco. Até porque o elenco disponível para a definição dos 26 nomes está longe de ser incontestável. A prova disso é que, a tão pouco tempo da estreia contra o Marrocos, no MetLife Stadium, ninguém — nem mesmo o treinador — é capaz de cravar qual será o time titular.

Sem unanimidade

Não há unanimidades do goleiro ao ponta-esquerda. E mesmo nas posições que parecem ter donos, como Alisson no gol, Casemiro na cabeça de área e Vinícius Júnior no ataque, falta aquele encantamento que transforma bons jogadores em referências absolutas.

Chance para (quase) todo mundo

Ancelotti, é verdade, não fechou as portas para ninguém. Consciente da ausência de craques incontestáveis em todas as posições, esticou ao máximo a corda dos testes. Sua última convocação — para os amistosos contra França e Croácia — deixou isso claro, com uma profusão de nomes chamados pela primeira vez. Estranhamente, Pedro segue fora desse radar.

Ancelotti nunca fechou o grupo: treinador italiano sempre deixou uma fresta para ‘reforços’ de última hora / CBF

Dos 56 jogadores testados ao longo de quase um ano de trabalho, 17 jogam no ataque. Uma rotatividade que evidencia a busca, mas também escancara a lacuna. E num espectro tão grande custa a acreditar que Pedro não esteja lá. Talvez o italiano esteja guardando uma surpresa para o momento decisivo — o anúncio da lista final, marcado para o dia 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio. Mas, até aqui, o silêncio em torno de Pedro incomoda.

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E incomoda porque Pedro já é, há tempos, um dos atacantes mais completos em atividade no país. Mas suas qualidades parecem ter atingido um novo patamar sob o comando de Leonardo Jardim, em um Flamengo que resgata, em alguns momentos, a magia da era de Jorge Jesus, quando o Flamengo jogava por música e por prazer. Contra o Atlético Mineiro, no Mineirão, sua atuação foi um espetáculo: não apenas pelos gols, mas pela forma como participou da construção, abriu espaços, flutuou com inteligência e deu ritmo ao ataque.

Questão de justiça

Não por acaso, chamou a atenção de quem entende do ofício. Casagrande, em sua coluna no UOL Esportes, praticamente lavrou um atestado de qualidade: “Faz gol de todo jeito, participa ativamente da construção das jogadas, abre espaço desfilando elegantemente pelo campo”. Não é pouca coisa — ainda mais vindo de quem conhece, por experiência própria, as agruras e as exigências da posição.

Por que não Pedro?

E aqui reside o ponto central desta pensata: se tantos tiveram ao menos uma chance ao longo do ciclo — Antony, Endrick, Estêvão, Gabriel Martinelli, Igor Jesus, Igor Thiago, João Pedro, Kaio Jorge, Luis Henrique, Matheus Cunha, Raphinha, Rayan, Rodrygo, Richarlison, Samuel Lino, Vinícius Júnior e Vitor Roque — por que Pedro não? Não se trata de transformá-lo em solução mágica ou titular incontestável. Trata-se de justiça esportiva. Ainda há tempo, Ancelotti. Se não há o barulho do clamor popular rolando nas ruas, ouça as sutilezas ensurdecedoras do silêncio.

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