Pelo menos nas últimas três temporadas, o Corinthians parece carregar uma espécie de maldição: a incapacidade crônica de fazer o básico contra adversários que habitam — ou, normalmente, deveriam habitar — a parte de baixo da tabela. A história se repetiu na noite deste domingo, com a derrota por 2 a 1 para o Mirassol. Como efeito imediato dessas derrotas tão indesejadas quanto recorrentes, o time volta à zona de rebaixamento, estacionado nos 15 pontos em 14 rodadas.
Uma campanha ridícula para um time com o orçamento milionário do Corinthians. Ironicamente, o próprio Mirassol também flerta com a degola, longe de repetir a campanha sólida que apresentou em 2025, e chegou neste jogo à sua terceira vitória em 14 rodadas.
Apático como sempre
O contraste com o que se viu quatro dias antes, na vitória convincente sobre o Peñarol pela Libertadores, salta aos olhos. Ainda que houvesse desfalques de um jogo para o outro, esperava-se um mínimo de consistência de um time que dava sinais de crescimento sob o comando de Fernando Diniz. Mas o que se viu foi o oposto: uma atuação apática, desorganizada, tecnicamente pobre.

O Corinthians foi envolvido na maior parte do tempo, como se tivesse deixado no vestiário qualquer traço das virtudes recentemente exibidas. Errando passes curtos, lento nas transições, sem aproximação, o time lembrou — e muito — aquele que se arrastava em campo na sequência de nove jogos sem vitória sob Dorival Júnior.
VAR e arbitragem de campo
Além das próprias limitações, o Corinthians também sofreu com decisões pontuais da arbitragem em lances capitais da partida. Logo no início do jogo, Edson Carioca chegou a ser expulso por um carrinho por trás, mas o cartão vermelho foi retirado após revisão do VAR. Pouco depois, aos 22, um pênalti discutível de Bidu sobre Carlos Eduardo foi assinalado — e convertido pelo próprio atacante, que deslocou Hugo Souza e abriu o placar. O gol teve um efeito imediato: aumentou a instabilidade de um time que já demonstrava sinais claros de desconexão e nervosismo.

O Mirassol, confortável no jogo, passou a dominar as ações. E aos 32 minutos, aproveitou um erro na saída de bola corintiana para ampliar. Carlos Eduardo avançou pela direita e cruzou na medida para Edson Carioca marcar de cabeça. Ele mesmo: Edson Carioca que havia sido expulso e foi perdoado pela ação do VAR. Antes do intervalo, Breno Bidon ainda chegou a balançar as redes, mas o lance foi anulado por impedimento de Yuri Alberto na origem. Era pouco — quase nada — para quem praticamente não exigiu do goleiro Walter.
Hugo no ataque
Na volta para o segundo tempo, Fernando Diniz manteve a equipe inicial — talvez mais por falta de opções no banco do que por convicção. Mas a escalação inicial seguia sem dar respostas e o técnico partiu para o tudo ou nada, no desespero. Vieram as mudanças, uma após a outra, numa tentativa de alterar um panorama que já parecia consolidado. Kaio César, Dieguinho, Pedro Raul, Labyad e até Alex Santana — nome que já soava descartado — foram acionados. O Corinthians passou a ocupar mais o campo ofensivo, mas sem organização, mais na base da insistência do que da construção. No final do jogo até o goleiro Hugo foi para o ataque.
Aos 34 minutos, ainda encontrou um respiro: Dieguinho arriscou de fora, a bola desviou na zaga e enganou Walter. Era o gol que reacendia uma chama tardia. Mas parou por aí. Numa noite marcada por erros em série, pedir mais do que isso seria ignorar o que o próprio jogo já havia deixado claro desde o início.
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A invencibilidade de Diniz chega ao fim. O processo de reconstrução, não. Mas o tropeço em Mirassol escancara um problema que insiste em sobreviver a técnicos, elencos e contextos: a irregularidade. Mais do que uma derrota isolada, o resultado soa como um alerta. O tempo passa, as rodadas diminuem e o Corinthians volta a frequentar um território que conhece bem demais nos últimos anos. Cabe a Diniz fazer com que a identidade em formação não seja essa versão frágil e errática, mas aquela que, por uma noite, contra o Peñarol, pareceu apontar um sonho possível para o bando de loucos.





