Começou bem mal o trabalho da seleção na Granja Comary, em Teresópolis. O primeiro ruído, por óbvio, tinha que girar em torno de Neymar. O problema não é apenas Neymar estar seriamente lesionado. O problema é tudo o que se depreende dos bastidores de sua convocação para a Copa, certamente sua última aparição num grande palco mundial.
A apresentação do jogador na Granja Comary com uma lesão grau 2 na panturrilha escancarou um cenário desconfortável, contraditório e até constrangedor para a comissão técnica da seleção brasileira às vésperas da Copa do Mundo. Mais do que uma questão médica, o episódio expõe ruídos de informação, abala relações de confiança e coloca em xeque um dos pilares que vinham sustentando o discurso de Carlo Ancelotti desde sua chegada ao Brasil.

Porque durante todo esse primeiro ano de trabalho, Ancelotti foi categórico ao afirmar que só levaria para a Copa jogadores que estivessem com 100% de suas condições físicas, técnicas e emocionais. Era quase uma obsessão do treinador italiano: formar um grupo pronto, inteiro e confiável. A convocação de Neymar, no entanto, já carregava uma dose evidente de flexibilização desse conceito mesmo antes da confirmação da lesão mais grave.
A CBF não sabia
O histórico recente do atacante já era suficiente para levantar dúvidas sobre sua condição física absoluta. E agora descobre-se que o jogador não estava sequer apto clinicamente no momento da convocação. A situação fica ainda mais delicada diante da condução do caso pelo Santos. Um dia antes da divulgação da lista, o departamento médico do clube enviou à CBF um relatório apontando apenas um “leve edema muscular”, quadro que teoricamente não impediria Neymar de participar normalmente do período de treinamentos em Teresópolis nem dos amistosos preparatórios para o Mundial. É impossível ignorar o peso desse diagnóstico na decisão da comissão técnica.
Só que bastou Neymar se apresentar oficialmente à seleção para que o cenário mudasse completamente. Após exames realizados sob supervisão da CBF, incluindo uma ressonância magnética feita no Rio de Janeiro, constatou-se uma lesão grau 2 na panturrilha, problema que exige pelo menos mais duas ou três semanas de recuperação e praticamente inviabiliza sua participação regular nas atividades físicas e nos amistosos preparatórios.

A diferença entre um edema leve e uma lesão muscular de grau 2 não é detalhe técnico. É praticamente outro diagnóstico. Naturalmente, isso gera um desconforto inevitável dentro da CBF. Nos bastidores, já é perceptível a irritação com a condução do Santos, que sustentou até o fim a narrativa de que Neymar não tinha uma lesão significativa. Para Ancelotti, a sensação deve ser ainda pior. Afinal, toda relação entre comissão técnica e clubes é construída sobre confiança. E neste caso, o treinador italiano provavelmente se sente traído pelas informações recebidas.
João Pedro e Pedro
Mas existe também um outro debate importante: até que ponto tudo isso só aconteceu porque o personagem envolvido é Neymar? É difícil imaginar tamanho esforço, tolerância e elasticidade de critérios sendo empregados por qualquer outro jogador da seleção brasileira. E é exatamente aí que mora a principal contradição do caso. Ao convocar um atleta que claramente não preenchia os pré-requisitos físicos estabelecidos pelo próprio treinador, a seleção abriu mão da coerência em nome de um privilégio que se imaginava extinto sob a gestão do italiano.
Enquanto Neymar ocupa uma vaga cercada de dúvidas físicas, outros jogadores inteiros ficaram fora da lista. João Pedro talvez tenha sido o mais prejudicado nessa novela. Em condições normais, seria um atleta capaz de oferecer intensidade, mobilidade, ritmo competitivo e disponibilidade imediata para o grupo. Em vez disso, o Brasil apostou em um jogador que talvez nem esteja apto para a estreia do Mundial. Pedro, do Flamengo, também está na área.

É verdade que o erro ainda pode ser corrigido. O regulamento permite substituições por lesão mediante justificativa médica até 24 horas antes da estreia na Copa. Se a recuperação não evoluir como esperado, Neymar ainda pode ser cortado e outro nome pode surgir na lista definitiva. Mas há um prejuízo impossível de reparar: o tempo. Ou melhor, o tempo perdido.
Aposta de risco
Tempo de treinamento, de adaptação, de integração, de observação… Tudo isso foi desperdiçado numa aposta de altíssimo risco. Há quem enxergue, inclusive, um certo conforto político para Ancelotti dentro desse cenário. Convocar Neymar evitou o desgaste gigantesco de deixar o maior nome do futebol brasileiro fora da primeira lista da Copa. E um eventual corte posterior, respaldado por laudos médicos, transferiria a responsabilidade da ausência para a lesão — não para uma decisão técnica.
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É uma leitura possível. Mas ainda assim preocupante. O fato é que a Seleção Brasileira
iniciou sua caminhada rumo ao hexa prometendo profissionalismo, critérios rígidos e meritocracia física absoluta. O caso Neymar mostra que, na prática, nem sempre é tão simples sustentar esse discurso diante do peso de certas figuras. E talvez seja justamente isso que torne toda essa história tão inquietante.





