A Holanda frustrou os seus torcedores no amistoso de despedida antes da viagem aos Estados Unidos para a disputa da Copa do Mundo. O que era para ser uma noite de confirmação virou ruído. É um sinal de alerta bem mais alto do que o técnico Ronald Koeman imaginava. A derrota por 1 a 0 para a Argélia, em Roterdã, no De Kuip, não muda o peso histórico da seleção holandesa nem tira o time da prateleira dos candidatos perigosos. Mas expõe um incômodo: a Laranja ainda não parece pronta para sustentar, durante 90 minutos, a autoridade que promete carregar para o Mundial.

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O gol de Anis Hadj Moussa, aos 41 minutos do segundo tempo, deu ao jogo um roteiro cruel para os donos da casa. O atacante da Argélia conhece bem aquele cenário, já que atua pelo Feyenoord, justamente o clube que manda seus jogos no De Kuip. A Holanda, que teve momentos de domínio e chances para resolver a partida antes, viu o amistoso escapar quando já não demonstrava a mesma energia do início.

Holanda Memphis Depay
Fora de ritmo, o atacante Memphis Depay atuou em todo o segundo tempo e pouco fez para evitar a derrota / Holanda

Koeman esbraveja

É aí que a derrota deixa de ser apenas um resultado ruim e vira pauta. Koeman não gostou nada do que viu. O técnico saiu irritado, cobrou a falta de eficiência da equipe, lembrou que a Holanda poderia ter construído vantagem cedo e tratou o tropeço como um sinal de atenção antes da estreia na Copa. A bronca não foi apenas pelo placar. Foi pelo conjunto: o time produziu, desperdiçou, perdeu intensidade e permitiu que uma seleção competitiva, organizada e disposta a disputar cada lance transformasse o amistoso em problema.

“Detesto perder. Este era um jogo para vencer. Criamos quatro ou cinco grandes chances e, se você as aproveita, a partida fica muito mais fácil”, disse o técnico Ronald Koeman.

Todos de olho em Memphis

Para o olhar brasileiro, o personagem central estava inicialmente no banco. Memphis Depay começou entre os reservas e voltou com o time após intervalo, ainda em processo de retomada depois de lesão na coxa, pois ficou 62 dias sem atuar. O atacante do Corinthians se lesionou no dia 22 de março, na partida contra o Flamengo pelo Brasileirão, e retornou aos gramados no dia 24 de maio, ao entrar no segundo tempo da partida Corinthians contra o Atlético-MG.

Com 55 gols, Memphis é o maior artilheiro da história da seleção holandesa, mas chega à Copa em um momento particular: não precisa provar tamanho, precisa provar condição.

Sua entrada deu outro ponto de interesse ao jogo. Memphis tentou participar, finalizou e apareceu como opção técnica em uma equipe que buscava mais presença no ataque. Ainda assim, não foi capaz de alterar o destino da partida. E esse talvez seja o detalhe mais importante para a leitura da Holanda às vésperas do Mundial: Koeman sabe o que Memphis representa, mas ainda precisa saber o quanto poderá exigir dele.

Elenco é respeitado

A seleção holandesa tem nomes fortes, tradição, repertório e ambição. Mas a derrota para a Argélia mostrou que o time ainda depende de ajustes finos em duas áreas decisivas para Copa do Mundo: agressividade e contundência. A equipe até criou situações, especialmente no começo, mas não traduziu domínio em vantagem. Quando perdeu o controle emocional e físico da partida, abriu espaço para a Argélia crescer.

O amistoso também serviu para mostrar que a Copa não perdoará seleções em ritmo de ensaio. A Argélia, que está no Grupo J, ao lado de Argentina, Áustria e Jordânia, jogou como quem tinha algo a afirmar. Marcou, competiu, suportou a pressão e encontrou o gol no momento mais doloroso para a Holanda. Koeman, ao reclamar da inoperância de sua equipe, praticamente admitiu que o problema não esteve apenas na parte técnica, mas na temperatura competitiva.

Holanda perde amistoso para Argélia
Na prateleira das seleções favoritas da Copa do Mundo, Holanda derrapa em casa e acende sinal de alerta / Holanda

Último teste

Em solo norte-americano, a Holanda encara o Uzbequistão, na próxima terça-feira, em Nova York. A estreia holandesa na Copa será contra o Japão, no Grupo F, que ainda tem Suécia e Tunísia. Não é uma chave impossível, mas é uma chave traiçoeira. Japão e Suécia têm capacidade para incomodar, e a Tunísia costuma oferecer jogos físicos e desconfortáveis. A derrota para a Argélia, portanto, chega no pior momento para quem queria viajar leve.

Holanda na rota do Brasil

A derrota holandesa também interessa diretamente ao Brasil por causa do chaveamento. No desenho da Copa, existe a possibilidade de Brasil e Holanda se enfrentarem já na segunda fase, a rodada de 16 avos.

Para isso acontecer, há dois caminhos: primeiro, o Brasil termina em primeiro lugar no Grupo C, e a Holanda fica em segundo no Grupo F. O segundo, a Holanda vence o Grupo F, e o Brasil termina em segundo no Grupo C.

Em termos simples, o cruzamento só aparece cedo se uma seleção vencer sua chave e a outra ficar em segundo lugar na sua. Se Brasil e Holanda forem líderes, não se encontram nessa fase. Se ambas terminarem em segundo, também seguem por lados diferentes naquele momento.

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Por isso, o tropeço contra a Argélia ganha uma camada a mais de interesse. Se a Holanda oscilar no Grupo F e ficar atrás de Japão, Suécia ou Tunísia, pode transformar o primeiro mata-mata do Brasil em um clássico mundial antes da hora. Para uma Copa com novo formato e margem menor para tropeços no mata-mata, não é um detalhe de tabela. É uma ameaça real de roteiro.

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