A Copa do Mundo de 2026 é a maior de todos os tempos. A frase já foi repetida tantas vezes que começou a perder força antes mesmo de a bola rolar. Virou slogan, virou carimbo, virou clichê. Mas talvez o tamanho real desta Copa não esteja apenas nos 48 participantes, nos três países-sede, nos estádios monumentais ou na maratona de jogos espalhados pela América do Norte. Talvez esteja, sobretudo, no que aconteceu quando a peneira apertou de verdade.

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Agora, com a Colômbia classificada para as oitavas de final, com a vitória sobre Gana, por 1 a 0, gol de John Arias, a comparação com o Catar ajuda a contar uma história bem mais interessante do que a simples expansão do torneio. Entre os 16 melhores de 2022 e os 16 melhores de 2026, sete seleções mudaram. Não é uma revolução completa. Também não é continuidade pura. É uma troca de pele.

Copa Árias
Após marcar o gol colombiano, John Arias é abraçado por James Rodríguez (10),Daniel Muñoz (2) e Davinson Sánchez / Fifa

Copa se renova

Argentina, Brasil, França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Marrocos, Suíça e Estados Unidos estavam nas oitavas há quatro anos e voltaram a aparecer entre os sobreviventes. São os rostos da permanência. Uns por tradição, outros por projeto, outros pela força de uma geração que ainda não terminou de dizer o que tinha para dizer. Mas, ao redor deles, o mapa mudou bastante. Saíram Holanda, Croácia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Polônia e Senegal. Entraram Canadá, Paraguai, Noruega, México, Bélgica, Egito e Colômbia. A fotografia é clara: a Copa não trocou de donos, mas trocou boa parte dos vizinhos dos donos.

Há algo de simbólico nesse movimento. A elite segue instalada no andar de cima. Brasil, Argentina, França, Espanha, Inglaterra e Portugal continuam no tabuleiro, como se lembrassem ao resto do mundo que mata-mata ainda cobra camisa, elenco, casca e repertório. Mas a chamada classe média da Copa, esse território onde moram seleções perigosas, ambiciosas, talentosas nem sempre constantes, passou por uma renovação pesada.

Colômbia de volta

A Colômbia fecha esse retrato com uma força narrativa especial. Não é uma seleção qualquer voltando às oitavas. É o país que encantou o mundo em 2014, resistiu em 2018 e desapareceu da Copa em 2022. Sua presença agora entre os 16 melhores tem gosto de reparação. A Colômbia não está apenas ocupando a vaga de alguém. Está recuperando uma conversa da qual tinha sido excluída.

Esse é o ponto mais bonito do que vem pela frente. O Mundial de 2026, tão vendido pelo gigantismo, também pode ser lido pelas suas reaparições. O México volta ao mata-mata depois da frustração no Catar. O Paraguai recupera uma tradição competitiva que parecia distante. A Noruega coloca sua geração mais midiática no palco decisivo. O Canadá transforma a condição de anfitrião em presença real. O Egito rompe a fronteira da participação decorativa. A Bélgica, mesmo distante do brilho de sua geração dourada, se recusa a aceitar o papel de seleção aposentada. E a Colômbia reaparece para lembrar que talento, quando encontra contexto, ainda pode sobreviver a um ciclo perdido.

Croácia e Holanda saem mais cedo

O contraste com quem saiu também ajuda a entender a mudança. A Croácia, finalista em 2018 e semifinalista em 2022, deixa um vazio enorme. A Holanda, sempre associada à técnica refinada da Copa, também fica fora dessa nova fotografia. Japão, Coreia do Sul e Austrália reduzem a presença asiática no recorte dos 16 melhores. Senegal, que havia sido uma das forças africanas no Catar, abre espaço para outro desenho continental. A Polônia sai, e com ela vai embora uma certa ideia de seleção sustentada quase exclusivamente pelo peso de seu grande nome.

copa salah
Mohamed ‘Faraó’ Salah é decisivo para a classificação do Egito às oitavas; pela frente, Argentina, a atual campeã / Efa

Nada disso significa que a Copa tenha ficado mais fraca. Significa que ficou menos automática. A ampliação para 48 seleções poderia sugerir um torneio mais permissivo, mas a fase decisiva devolveu complexidade ao debate. Sim, há mais portas de entrada. Mas, quando o mata-mata começa a afunilar, a exigência continua brutal. Quem chega às oitavas não chega por cortesia. Por isso, a renovação dos 16 melhores não deve ser lida como uma vitória simples das zebras sobre os favoritos. O que aconteceu é mais sofisticado. A Copa preservou sua hierarquia no topo e bagunçou seu entorno. Os gigantes continuam de pé. Mas os coadjuvantes mudaram de rosto, de sotaque, de biografia e de ambição.

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A maior Copa de todos os tempos, portanto, talvez não precise mais ser chamada assim. O que ela tem de interessante não é apenas o tamanho. É o movimento. Em quatro anos, quase metade do mata-mata mudou. Mas os gigantes seguem ali, vigiando a porta. A Copa de 2026 não derrubou a velha ordem mundial. Fez algo mais sutil: trocou os personagens que orbitam o poder e abriu espaço para novas histórias tentarem chegar perto dele.

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