Messi ampliou suas marcas históricas com mais um gol e a Argentina avançou para a próxima fase do mata-mata da Copa do Mundo. Deu a lógica, mas quando a bola parou de rolar em Miami, a sensação dominante era a de que a Copa perdeu um pouco da graça com o fim da epopeia vivida pela seleção de Cabo Verde. A partir de hoje, os Tubarões Azuis vão fazer muita falta nas tardes de futebol. Pode parecer um paradoxo depois de uma derrota por 3 a 2 na prorrogação. Não é. A Copa de 2026 seguirá adiante sem a pequena seleção africana, mas dificilmente conseguirá preencher o vazio deixado por ela.
O futebol costuma produzir, de tempos em tempos, as chamadas zebras. Equipes sem tradição aparecem, surpreendem um favorito, arrancam um empate improvável ou uma classificação histórica e logo desaparecem. Cabo Verde fez algo muito maior. Não foi uma surpresa passageira. Foi um encantamento coletivo construído jogo após jogo, capaz de mudar a maneira como enxergamos seleções de países pequenos no maior palco do futebol.

Vozinha conquista o mundo
Tudo começou com o assombro provocado pelas defesas de Vozinha diante da Espanha. Parecia apenas mais uma atuação heroica de um goleiro inspirado. Mas, à medida que o torneio avançava, o mundo percebeu que havia muito mais por trás daquela camisa azul. Existia um time que jogava com coragem, inteligência e um orgulho nacional impossível de medir. Quem poderia imaginar que justamente a atual campeã do mundo precisaria de 120 minutos para derrotá-los?
E o cenário era absolutamente favorável aos sul-americanos. Miami transformou-se numa extensão da Bombonera. Desde que Lionel Messi escolheu o Inter Miami para dar continuidade à carreira, a cidade passou a respirar o camisa 10. Em pouco mais de três anos vieram títulos, recordes e uma idolatria que parecia tornar impossível qualquer sensação de desconforto dentro daquele estádio. Era, literalmente, a casa de Messi.
Messi carrega Argentina
A expectativa era de uma classificação protocolar. Mas o jogo entregou muito mais. Um jogo espetacular, emocionante, histórico. Foi Messi, naturalmente, quem abriu o caminho com um gol de alta classe. Lisandro Martínez encontrou um lançamento primoroso para o camisa 10 dominar e finalizar de pé esquerdo, sem qualquer chance para Vozinha. Era o vigésimo gol de Messi em Copas do Mundo, ampliando ainda mais o recorde como maior artilheiro da história da competição. Também era seu sétimo gol nesta edição, repetindo exatamente a marca da campanha do título mundial de 2022 e mantendo vivo o duelo particular com Mbappé na corrida pelos grandes números da história.
Parecia o início de uma noite tranquila. Não foi. A Argentina diminuiu o ritmo depois do intervalo. Talvez tenha acreditado que bastaria administrar a vantagem diante de um adversário estreante naquele tipo de palco. Cabo Verde interpretou essa acomodação como um convite. Passou a jogar mais adiantado, dividiu todas as bolas e começou a ocupar o campo ofensivo sem qualquer complexo de inferioridade. Até que Deroy Duarte empatou. O estádio silenciou por alguns segundos. Era como se ninguém conseguisse acreditar que aquilo estivesse realmente acontecendo.
Só termina quando acaba
Messi tentou recolocar a Argentina na frente. Ficou cara a cara com Vozinha e encontrou um goleiro gigante. Depois vieram duas cobranças de falta que tinham endereço certo. Em ambas, Vozinha voou. Na última delas, já nos acréscimos, defendeu quase de manchete, num reflexo extraordinário. A prorrogação parecia um prêmio para quem jamais deixara de acreditar. Logo no primeiro minuto do tempo extra, Lisandro Martínez aproveitou a sobra de um escanteio para fazer 2 a 1. Outra vez Cabo Verde recusou-se a aceitar o destino.

Lopes Cabral resolveu desafiar a lógica. Recebeu pela esquerda, arriscou de muito longe e acertou um daqueles chutes que fazem o tempo parar antes de a bola encontrar as redes. Um golaço. O improvável voltava a acontecer. O pequeno país africano buscava o empate pela segunda vez contra a campeã do mundo.
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Cabo Verde vai fazer falta
A Argentina só encontrou alívio no segundo tempo da prorrogação. Em mais um escanteio cobrado por Messi, Cristian Romero apareceu pelo alto e cabeceou, mas a bola desviou em Diney Borges antes de entrar. Na súmula, a Fifa anotou gol contra do defensor cabo-verdiano, o lance que decidiu a classificação argentina. Um 3 a 2 sofrido, dramático, digno das grandes noites de Copa. A Argentina continua sua caminhada rumo ao bicampeonato. A Copa, porém, perdeu parte do encantamento. E isso, por maior que seja Messi, por mais forte que seja a Argentina, será impossível substituir.





