Em 1982, o jovem Pedro Leitão de Brito, então com doze anos, teve o seu primeiro contato com a magia das Copas do Mundo em Povoação Velha, principal cidade de Boa Vista, uma das dez ilhas que formam o arquipélago de Cabo Verde, onde nasceu e cresceu. Foi pela tela de uma televisão em preto e branco que ele acompanhou as aventuras de Paolo Rossi, Diego Maradona, Michel Platini, Zico e Roger Milla. A televisão, em questão, pertencia a um português, que morava na ilha de Boavista, onde nasceu, que teimava em expulsá-lo cada vez que o flagrava na sala.
De família pobre, o garoto não tinha condições para pagar pelo ingresso cobrado. E o único jeito era aproveitar momentos de distração do encarregado de vigiar a porta – e entrar na marra e escondido. “Me apaixonei pelo futebol e, desde então, minha vida gira em torno deste esporte”, diz. Ele foi jogador de defesa em times de Cabo Verde, Portugal e Espanha – como o Badajoz e o Estoril. Quando encerrou a sua carreira, assumiu o cargo de assistente da seleção nacional cabo-verdiana. E se faltava a ele o reconhecimento internacional, agora não falta mais. Quarenta e quatro anos após o Mundial de 1982, quem diria, Pedro Leitão de Brito chegou ao topo.

Conhecido no mundo do futebol como Bubista, uma palavra que, em dialeto cabo-verdiano, é o gentílico dos que nascem na ilha de Boa Vista, uma das dez que formam o território de seu país, ele se tornou uma celebridade. Primeiro por superar a forte seleção de Camarões e garantir uma inédita vaga para a Copa do Mundo ao seu país, com pouco mais de 500 mil habitantes. Depois, por superar todas as expectativas nos Estados Unidos. “Essa competição foi uma oportunidade incrível para o nosso povo: mostramos que não importa quão pequeno você seja, com trabalho, é possível ter atuações dignas e fazer boa figura.”
Muito mais que retranca
No comando da seleção de Cabo Verde, desde janeiro de 2020, seis anos e meio depois, ele e seu país se tornaram uma das maiores surpresas da atual competição. Contra todos os prognósticos, o elenco que formou, inclusive com jogadores descobertos pelo LinkedIn, mostrou um bom nível de futebol. Seus jogadores arrancaram empates contra a forte seleção da Espanha e, também, diante de Uruguai e Arábia Saudita, na fase de grupos. E fizeram jogo duro contra a Argentina, de Messi.

Empataram nos 90 minutos e levaram a partida para a prorrogação. Só cederam o terceiro gol aos argentinos, a poucos segundos do apito final, quando uma surpreendente disputa por pênaltis passava a ser cada vez mais provável. Detalhe importante: os “Tubarões Azuis”, como a seleção cabo-verdiana é conhecida, não se limitou a jogar na retranca.
Disciplina tática
“Procuramos atuar com coragem e disciplina tática”, diz. Apesar de estar entre as equipes com menor velocidade de corrida, por outro lado Cabo Verde usou e abusou de movimentações em seu bloco defensivo. O que fez com que seus adversários encontrassem poucos espaços para criar perigo. Zagueiro nos tempos em que era jogador, ele tomou gosto por desenvolver estratégias defensivas.

No Mundial de 2026, frequentemente, a seleção do Cabo Verde adotou um sistema 4-1-4-1, sem receio de pressionar seus rivais no seu próprio campo de defesa. No entanto, seus jogadores não se limitaram a se defender: na partida contra a Argentina, eles finalizaram onze vezes e cinco delas a gol. E quando sofreu com os ataques das outras seleções, Bubista pode contar como o goleiro Vozinha, um dos destaques do time. Aos 40 anos, ele mostrou que está em forma, conseguindo defender 26 chutes disparados contra a sua meta. Com os recursos que tinha, Bubista montou uma seleção competitiva e sedutora.





