Mais uma vez, o Brasil se despede de uma Copa do Mundo de forma melancólica. A derrota por 2 a 1 para a Noruega, na tarde deste domingo, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, encerra uma caminhada tortuosa. E nem se pode dizer que este é um desfecho surpreendente. O mundo inteiro sabia que a Noruega jogava por uma bola para Erling Haaland. O Brasil permitiu que ele tivesse duas. Na primeira, subiu como um gigante para marcar de cabeça. Na segunda, acertou um chute devastador de fora da área. Em ambas, lembrou por que é hoje o centroavante mais letal do futebol mundial.
A velha máxima voltou a prevalecer: a bola pune. Mas ela não puniu apenas a desatenção defensiva brasileira. Cobrou também o preço dos erros acumulados ao longo da tarde e, principalmente, dos últimos quatro anos. Um pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães, chances claríssimas desperdiçadas diante de Nyland e decisões equivocadas num jogo que não admitia margem para falhas.

Europeus deitam e rolam
Mais uma vez caímos diante de uma seleção europeia — o que também não chega a ser surpresa. Foi assim diante da França em 2006. Da Holanda em 2010. Da Alemanha em 2014. Da Bélgica em 2018. Da Croácia em 2022. Agora, da Noruega em 2026. Há coincidências que deixam de ser coincidências. Tornam-se evidências de que o Brasil parou no tempo e precisa mudar conceitos estruturais para voltar a ser respeitado.
Em praticamente todas essas eliminações havia problemas elementares na preparação da seleção brasileira. Desta vez, não foi diferente. Carlo Ancelotti assumiu o comando na reta final das Eliminatórias. Nunca teve tempo, nem convicções suficientes para construir uma equipe verdadeiramente sua. Trabalhou mais apagando incêndios do que edificando um projeto. Houve lampejos, como a emocionante vitória sobre o Japão nas oitavas de final. Mas um torneio do tamanho da Copa do Mundo cobra mais consistência. E isso nunca tivemos. A bem da verdade, nunca tivemos um time para disputar a Copa, quanto mais para ganhá-la.
Tragédia anunciada
Por uma dessas ironias que o futebol gosta de produzir, a eliminação acontece exatamente num 5 de julho, a data eternizada pela tragédia do Sarriá. Há, porém, uma brutal diferença. Em 1982, na Copa da Espanha, caiu talvez uma das maiores seleções que o futebol já viu. Aquela derrota para a Itália, por 3 a 2, continua parecendo uma injustiça histórica porque o Brasil encantava o planeta.
Este Brasil não. Não intimidava. Não encantava. Não era favorito contra ninguém. Era apenas mais um entre os candidatos. Poderia até ter avançado, porque futebol também admite o acaso. Mas, quando chegaram os momentos decisivos, falhou. Endrick perdeu uma oportunidade incrível na cara do goleiro norueguês. Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti. Do outro lado, Haaland recebeu duas chances e transformou ambas em bola na rede, sem piedade.
Não há muito sentido em procurar um único culpado. O resultado é consequência de um ciclo inteiro que termina exatamente como começou: sem identidade, sem estabilidade e sem um futebol compatível com a grandeza da camisa amarela. Agora, resta olhar para frente. Ancelotti finalmente terá um ciclo completo para realizar um trabalho autoral, compatível com a biografia que construiu no futebol mundial. Será a oportunidade de devolver ao Brasil algo que desapareceu há muito tempo: uma seleção capaz de impor respeito pelo que é e não pelo que foi.

Adeus, Neymar!
Este 5 de julho marca também o fim de uma geração. Esta foi a última Copa de Neymar, assim o jogador afirmou após a derrocada. Também pode representar a despedida definitiva de outros jogadores que, apesar do talento, não conseguiram recolocar o Brasil no lugar onde sua história sempre o colocou.
O primeiro tempo refletiu exatamente o equilíbrio enganoso que antecede as grandes tragédias esportivas. A Noruega controlava a posse de bola — chegou a ter 64% — enquanto o Brasil aceitava esperar para tentar acelerar nos contra-ataques. Logo aos dois minutos Berg chegou a balançar as redes, mas Sorloth estava impedido na origem da jogada. O susto serviu de aviso. Pouco depois, surgiu a primeira oportunidade de ouro para mudar completamente o roteiro. Matheus Cunha sofreu pênalti confirmado pelo VAR. Bruno Guimarães caminhou para a cobrança com o país inteiro nas costas. Bateu mal. Nyland defendeu. Ali, o destino começou discretamente a mudar de direção.
Na volta para o segundo tempo, veio o erro estratégico que praticamente entregou o controle da partida aos escandinavos. A seleção brasileira recuou demais. Marcando em bloco baixo, permitiu que a Noruega girasse a bola de um lado para o outro sem qualquer incômodo, esperando apenas o instante certo para acelerar em direção ao seu camisa nove.
Cometa Haaland
Ancelotti percebeu que precisava provocar algum fato novo. Aos doze minutos, lançou Endrick no lugar do apagado Matheus Cunha. A resposta veio imediatamente. Um minuto depois, Vini Júnior encontrou o jovem atacante nas costas da defesa. Ele saiu sozinho diante de Nyland. Era o lance da consagração, mas ele perdeu o tempo da bola, finalizou mal e desperdiçou a grande chance. Mesmo assim, o Brasil cresceu. Aos dezesseis minutos, Douglas Santos levantou na área, Gabriel Magalhães escorou de cabeça e Rayan finalizou cruzado para outra excelente defesa de Nyland, já transformado no grande personagem da partida.
Percebendo que o relógio corria depressa, Ancelotti foi para um “all-in”. Aos 22 minutos, colocou Neymar e Danilo Santos em campo. Mas a aposta deu errado porque a Noruega jogava exatamente por uma bola para Haaland. Ela chegou. Schjelderup escapou pela esquerda aos 34 e cruzou com precisão cirúrgica. Haaland antecipou Gabriel Magalhães, venceu pelo alto e cabeceou com a autoridade dos grandes centroavantes. Era o gol que o estádio inteiro parecia esperar desde o início da tarde.
O Brasil tentou responder. Aos 39 minutos, Endrick recebeu na intermediária, Ajer desviou contra o próprio patrimônio e quase marcou um gol contra. Nyland operou mais um milagre antes de a bola ainda beijar a trave. Quando a seleção se lançou definitivamente ao ataque, ofereceu o espaço que Haaland mais aprecia. Aos quarenta e quatro minutos, recebeu fora da área, levantou a cabeça e disparou um chute violento no canto esquerdo de Alisson. Um gol de quem precisa de centímetros para decidir partidas e não de metros para construir jogadas.

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É pensar em 2030
O golpe era praticamente fatal. Ainda houve tempo para um último suspiro. Aos cinquenta e dois minutos, Ostigard acertou uma cotovelada em Casemiro dentro da área. Novo pênalti. Neymar cobrou com a categoria que sempre o acompanhou durante a carreira e diminuiu a diferença. Mas já era tarde. O sonho do hexa partiu num cometa chamado Haaland.





