presidente da Fifa, Gianni Infantino, teria oferecido ao governo do Marrocos a final da Copa do Mundo de 2030 em troca de apoio nas próximas eleições da entidade. A federação marroquina, que já está aliada à Fifa, teria ainda de trabalhar pela candidatura de Infantino, que começa a enfrentar problemas na Europa, principalmente. A informação foi publicada pelo jornal britânico The Times. A Fifa nega que qualquer promessa tenha sido feita.
O passo dado por Infantino, em meio à crise aberta na entidade, também pode ser um tiro no pé. Ao acenar com a final para o Marrocos, ele tira da Espanha ou de Portugal a possibilidade de receber o jogo mais importante da competição centenária. Infantino ganha força em Rabat, em Casablanca e provavelmente em parte da África. Mas corre o risco de decretar a sua morte política na Europa, justamente onde a resistência ao seu novo mandato cresce.

A Copa de 2030 será disputada por Marrocos, Espanha e Portugal, com três jogos comemorativos do centenário na América do Sul, em Argentina, Paraguai e Uruguai. A Fifa oficializou o modelo em dezembro de 2024, quando confirmou a candidatura conjunta como sede do Mundial. O que ainda está em aberto é a definição do palco da final. E é aí que a política entrou de sola depois de Infantino perder prestígio após anunciar o seu modelo de venda de ações da Copa do Mundo para investidores privados.
Madri era a cidade mais cotada
Segundo o The Times, Infantino prometeu ao Marrocos que a decisão da Copa de 2030 será realizada no país africano, e não no estádio Santiago Bernabéu, em Madri, uma das opções mais fortes da candidatura europeia. Em resposta ao jornal, a Fifa afirmou ser “falso e enganoso” dizer que o presidente tenha prometido a final da Copa de 2030 e informou que a decisão será tomada no momento apropriado.
A negativa oficial não elimina o peso político da notícia. Infantino atravessa seu momento mais delicado no comando da Fifa desde que chegou ao poder. A tentativa frustrada de criar a Fifa Forward Enterprise, empresa ligada à entidade para receber investimento privado e concentrar operações comerciais e eventos, provocou reação dura em federações e abriu desgaste com parte da Europa.

O Marrocos, ao contrário, aparece como um dos pontos de apoio do presidente. A Federação Real Marroquina de Futebol já havia declarado apoio à candidatura de Infantino para a eleição marcada para 18 de março de 2027, em Rabat. A capital marroquina virou, portanto, mais do que uma sede administrativa. Virou território político para o presidente da Fifa tentar segurar o poder. A escolha de Rabat para as reuniões e para o congresso eleitoral não é detalhe. É política esportiva. Infantino sabe disso. Ao aproximar a Fifa do Marrocos, fortalece um aliado, premia uma federação fiel e sinaliza à África que o continente pode receber o maior jogo da Copa do Mundo de 2030.
Espanha é a atual campeã mundial
O problema é o outro lado da conta. Espanha e Portugal não entraram na Copa de 2030 para ser figurantes. A Espanha, especialmente, tem peso esportivo, político, econômico e histórico muito maior dentro da Uefa. Tirar a final de Madri para levá-la a Casablanca pode parecer um gesto de expansão global, mas também pode ser lido na Europa como uma manobra eleitoral. E a Uefa não costuma aceitar esse tipo de deslocamento de poder sem reação. Isso sem falar que a Espanha é a atual campeã mundial.
Infantino fez algo parecido na Copa de 2026, quando a abertura ficou com o México e a final com os Estados Unidos. Havia lógica esportiva, comercial e política na decisão. Os Estados Unidos eram o grande mercado, tinham os maiores estádios, o maior potencial de receita e o presidente Donald Trump no centro do espetáculo. Agora, porém, o gesto é diferente. A final de 2030 seria tirada de dois anfitriões europeus para ser entregue ao país de menor tradição esportiva entre as três sedes principais, embora seja hoje o mais agressivo em investimento e influência.
Casablanca e o Hassan II
O Marrocos também se preparou para isso. O país constrói o Grand Stade Hassan II, nos arredores de Casablanca, projetado para receber 115 mil pessoas e ser um dos maiores estádios do mundo. A arena nasce com ambição clara de sediar a final da Copa. A crise deixa Infantino em uma posição incômoda. Se avançar com o Marrocos, reforça sua base africana e agrada um aliado estratégico. Mas se recuar, pode perder apoio de quem o defendeu no pior momento. Se insistir, compra uma briga direta com Espanha, Portugal e parte importante da Uefa. O presidente da Fifa tenta transformar a final da Copa em moeda política no momento em que é acusado de tentar vender pedaços do próprio negócio da Fifa.
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A Copa de 2030 deveria ser a celebração dos 100 anos do torneio, uma edição simbólica, espalhada por continentes, com memória na América do Sul e força na Europa e na África. Mas a disputa pela final mostra outra coisa: a Copa virou também peça de sobrevivência política. Infantino não está apenas escolhendo um estádio. Está tentando escolher de onde virá sua blindagem para uma reeleição ameaçada. A Fifa nega a promessa. O Marrocos ainda não foi confirmado como sede da final. Espanha e Portugal seguem no jogo. Mas a notícia já produziu efeito. Colocou a eleição de 2027 dentro da Copa de 2030 e expôs o tamanho da crise. Infantino pode até ganhar votos com o Marrocos. O problema é descobrir quantos votos perderá na Europa para pagar essa conta.





