O Corinthians virou um clube que precisa escolher qual incêndio apagar primeiro. Paga salário ou derruba transfer ban? Quita dívida internacional ou segura o vestiário? Renova com Memphis Depay ou tenta registrar reforços? A crise financeira deixou de ser assunto de balancete e passou a bater todos os dias na porta do CT Joaquim Grava. O problema mais visível está nos salários e direitos de imagem. Ao longo de 2026, o Corinthians voltou a atrasar pagamentos do elenco profissional e da comissão técnica. Em maio, quitou os salários de abril com atraso. Em junho, voltou a ter problemas com os vencimentos referentes ao mês anterior. O clube alegou dificuldade de fluxo de caixa, pressionado por dívidas acumuladas.

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A situação ficou ainda mais delicada porque os atrasos internos caminharam ao lado de punições externas. Em poucos meses, o Corinthians acumulou transfer bans aplicados pela Fifa. A CBF também está de olho. O clube chegou a ter quatro bloqueios que impediam o registro de novos jogadores. Depois, pagou uma multa disciplinar de US$ 225 mil, cerca de R$ 1,1 milhão, e derrubou um deles. Ainda assim, seguiu com três punições ativas e mais de R$ 20 milhões em pendências relacionadas a transfer bans. E a vida segue no clube como se o Corinthians estivesse limpo na praça. Não está. Já tem jogador querendo ir embora porque não acredita mais na diretoria.

Presidente do Corinthians, Osmar Stabile, está seguro de que se contratar Memphis os problemas acabam / Corinthians

Esse é o retrato do Corinthians atual: um gigante que não consegue se mover e que não tem credibilidade no mercado nem mais no vestiário. O time precisa de reforços, Fernando Diniz cobra mais opções, a torcida exige reação em campo, mas o clube esbarra na própria conta bancária. Não basta querer contratar. Antes, é preciso pagar o que deve. E o Corinthians deve para muita gente. Os jogadores também só procuram a imprensa quando é interessante para eles e querem dar recados.

Memphis e os seus R$ 42 milhões

As punições da Fifa têm origem em negociações feitas nos últimos anos e não pagas. Há dívida com o Philadelphia Union, dos Estados Unidos, pela contratação de José Martínez. Há pendência com o Midtjylland, da Dinamarca, pela compra de Charles. Há cobrança ligada ao empréstimo de Talles Magno, do New York City. Também houve punição da CBF por atraso em parcela de acordo na Câmara Nacional de Resolução de Disputas. Memphis Depay tem um crédito de R$ 42 milhões, e vai ser difícil receber esse dinheiro.

Marcelo Paz chegou para tirar o clube do sufoco financeiro, mas até agora não houve melhora nas contas / Corinthians

O caso de Charles virou símbolo do descontrole. O Corinthians foi punido por não cumprir acordo de pagamento ao Midtjylland e viu a dívida chegar a cerca de R$ 6 milhões. Não é apenas o valor. É o efeito. Um jogador contratado para compor elenco acabou virando parte de um bloqueio que impede o clube de registrar novos atletas. É o tipo de erro administrativo que cobra juros no campo. Mas ninguém da gestão, do passado e do presente, se incomoda com isso. A porta não fecha para balanço.

Não tem dinheiro para nada

A diretoria tenta se defender dizendo que precisa priorizar o pagamento do elenco. Faz sentido até certo ponto. Clube que atrasa salário perde vestiário, perde confiança e perde autoridade. O Corinthians já perdeu tudo isso. O problema é que, ao escolher pagar salários e deixar transfer bans para depois, o Corinthians não resolve a crise. Apenas muda o incêndio de sala. E os salários continuam atrasados. Que trabalhador quer trabalhar sem receber?

O The Football já mostrou que o transfer ban travou o planejamento corintiano no momento em que a novela pela permanência de Memphis Depay ganhou novo capítulo. Os alertas são dados quase diariamente. Mas basta o time fazer um gol que o cenário muda e a sujeira é empurrada para debaixo do tapete. O clube priorizava direitos de imagem atrasados do próprio elenco antes de direcionar recursos para derrubar dívidas internacionais. Mas nem isso faz mais. É uma decisão compreensível, mas também cruel: para manter quem está dentro, o Corinthians fica impedido de trazer quem poderia ajudar.

E vai levando assim mesmo

Memphis é o melhor exemplo dessa contradição. O Corinthians quer manter seu jogador mais midiático e tecnicamente diferente. Mas o holandês também representa uma conta pesada. Há dívida acumulada, bônus, salários, luvas e um novo contrato sendo desenhado em meio a uma realidade financeira sufocante. O clube tenta reduzir salário mensal, alongar pagamento e transformar uma dívida imediata em compromisso de longo prazo.

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A pergunta é simples: o Corinthians consegue pagar o Corinthians que ele mesmo montou? Hoje, a resposta parece ser não. O clube vive de antecipações, acordos, renegociações, promessas de receitas futuras e venda de ativos. O problema é que futebol cobra no presente. O salário vence todo mês. A Fifa pune quando a dívida não é paga. A CBF bloqueia registro. E o treinador perde atletas, partidas e campeonatos. Nesta semana, o time caiu na Copa do Brasil. A crise também expõe a fragilidade de gestões recentes. Contratações feitas sem caixa, parcelas empurradas, acordos descumpridos e compromissos internacionais ignorados formaram uma bola de neve. Mas isso o Brasil já conhece. É chover no molhado.

O impacto esportivo é direto. Um clube em transfer ban perde força no mercado, atrasa planejamento, fica refém do elenco que tem e depende de soluções internas. Ao mesmo tempo, vê concorrentes se movimentarem. No futebol brasileiro, quem para na janela fica para trás. E o Corinthians, neste momento, está parado. O vestiário já percebeu que nesse mato não sai coelho. Jogador sabe quando o salário vai atrasar e continuar atrasando. Sabe também quando a diretoria promete e não cumpre. Diniz pode tentar blindar o grupo, mas não há blindagem total quando o problema está no extrato bancário.

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