Por alguns minutos, Abel Ferreira ofereceu uma explicação simples para o empate sem gols com o Botafogo e para a consequente perda da liderança do Campeonato Brasileiro: o Palmeiras controlou, criou e não marcou. Poderia ter parado por aí. O problema é que, mais uma vez, a entrevista coletiva avançou para um território conhecido, recheado de reclamações, comparações e fatores externos que ajudam a transformar o discurso do treinador em um filme já visto muitas vezes.

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O Palmeiras saiu do Nilton Santos com 53 pontos, um atrás do Flamengo, que venceu o Remo por 1 a 0 e chegou aos 54. A equipe de Abel liderava o Brasileiro desde a sétima rodada e chegou a abrir oito pontos de vantagem sobre o principal perseguidor no fim de julho, com um jogo a mais. Não há injustiça do campeonato nisso. Há pontos desperdiçados.

Abel Ferreira, treinador do Palmeiras
Abel Ferreira usa mais os fatores externos do que o desempenho do Palmeiras para explicar a perda da liderança / Palmeiras

Abel repete verborragia

Contra o Botafogo, foram 17 finalizações e cinco no alvo. O goleiro Gabriel Batista fez uma boa partida no gol alvinegro. O próprio Abel resumiu a atuação ao dizer que faltou “eficácia nas oportunidades que tivemos”. Quando questionado sobre o que falhou para conservar a vantagem, entretanto, respondeu com ironia: “Faltou fazer mais pontos do que o nosso adversário. Nada mais.”

A resposta é verdadeira. E talvez seja por isso que todo o restante da coletiva soe excessivo. Abel apontou os jogos em casa como um dos problemas da campanha. É um diagnóstico que merece contexto. Até a rodada anterior, o Palmeiras tinha 75% de aproveitamento como mandante — oito vitórias, três empates e uma derrota — e aparecia entre as melhores campanhas caseiras do Brasileiro. Fora de casa, era ainda melhor em comparação aos concorrentes, como melhor visitante da competição.

Portanto, é possível dizer que o Palmeiras deixou pontos importantes em seu estádio. É mais difícil transformar o mando em explicação central para a perda da liderança. Depois vieram o calendário e a impossibilidade de treinar. Abel lembrou que o time disputa Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil e afirmou que “praticamente não treinamos, é recuperar e jogar”. É fato. O Palmeiras é o único clube brasileiro ainda vivo nas três competições e já nesta quarta-feira recebe a LDU, às 19h, pelas quartas de final da Libertadores.

Formar para gerar dinheiro, não títulos

O discurso avançou para as vendas de jogadores formados pelo clube, citando Estêvão, Endrick, Vitor Reis e Allan. Novamente existe uma base factual forte: o Palmeiras construiu uma das categorias de base mais valiosas do continente e vendeu alguns de seus maiores talentos por cifras enormes. Allan, por exemplo, tornou-se neste ano a terceira maior venda da história do Palmeiras. Só que existe o outro lado. O próprio Abel disse comandar um elenco avaliado em R$ 1,4 bilhão. Em 2025, o Palmeiras registrou cerca de R$ 850 milhões investidos em contratações, perto de R$ 970 milhões quando consideradas luvas. Não se trata de um clube obrigado a competir com recursos modestos.

Foi então que o treinador voltou ao Flamengo. Ele sugeriu que se comparasse onde trabalhou Leonardo Jardim e por onde passaram os jogadores dos dois elencos para concluir que existe “uma equipa que tem a obrigação de fazer muito mais”. A maior profundidade do elenco rubro-negro é uma discussão legítima — ainda mais depois de uma janela em que o Palmeiras perdeu Allan e passou a recorrer com maior frequência aos jovens no banco. O problema é outro: transformar de novo o principal concorrente em régua para explicar as próprias dificuldades. Em 23 de maio, quando venceu o Fla por 3 a 0 no Rio, o Palmeiras abriu sete pontos sobre o rival: 38 a 31. No fim de julho, a diferença chegou a oito. Agora está um ponto atrás. É esta curva que exige respostas.

Até microfones viram desculpas

A parte mais longa e inflamada veio quando Abel foi questionado sobre a arbitragem e sua punição no STJD. Falou dos “três microfones” posicionados próximos ao banco, questionou por que isso acontece no futebol brasileiro, comparou com Liga dos Campeões, Liga Europa e Mundial e disparou: “É Big Brother? Estamos no Big Brother?”

Também enumerou lances nos quais entendeu que jogadores do Botafogo, Marçal e Ferraresi, deveriam ter sido expulsos e contrapôs essas decisões ao segundo amarelo recebido por Barboza. Tudo isso poucos dias depois de ser suspenso por duas partidas pelo STJD por chutar um microfone. O efeito suspensivo concedido no sábado permitiu sua presença no Nilton Santos enquanto o recurso aguarda julgamento no Pleno.

Marlos Freitas (esq.) Danilo Pereira
Marlon Freitas é perseguido por Danilo Pereira; palmeirense recebe o cartão amarelo e não encara o São Paulo / Palmeiras

Abel tem direito a discordar da arbitragem, questionar o tribunal e defender critérios uniformes. Mas também precisa conviver com uma realidade: seus recorrentes conflitos à beira do gramado são responsabilidade dele. Entretanto, a frase mais importante veio no encerramento: “O Palmeiras tem muito que melhorar. O treinador do Palmeiras tem muito que fazer para ajudar os jogadores. Não foi suficientemente bom.”

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Talvez essa devesse ter sido a coletiva. Porque calendário apertado existe, vendas pesam, o Flamengo tem enorme poder econômico, árbitros erram e três microfones podem incomodar. Mas nada disso muda o dado fundamental deste domingo: o Palmeiras tinha a liderança nas mãos, chegou a possuir oito pontos de vantagem e permitiu que o adversário o ultrapassasse. Agora é perseguidor. E, para recuperar o primeiro lugar, Abel talvez precise gastar menos energia explicando tudo aquilo que acontece ao redor do Palmeiras e mais tempo respondendo pelo que acontece dentro dele.

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