Mesmo que entrasse com o time titular completo no gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey, no dia 13 de junho, na estreia contra o Marrocos, não dá para dizer hoje que o Brasil seria favorito a conquistar o título da próxima Copa do Mundo. Agora imagine um cenário — cada vez mais plausível — de Carlo Ancelotti chegar a essa estreia sem pelo menos cinco jogadores que, em condições normais, estariam no seu time ideal.

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O goleiro Alisson, o lateral Wesley, o zagueiro Militão e os atacantes Raphinha e Estevão. Todos eles estão lesionados a menos de 50 dias do início do Mundial. E, ainda que se recuperem a tempo de figurar na lista final, não há qualquer garantia de que estarão em plenas condições físicas — no nível de exigência que o próprio Ancelotti costuma impor. O mesmo vale, em outra dimensão, para Neymar, cuja presença já seria cercada de dúvidas mesmo sem lesão, tamanha a incerteza sobre o seu estado físico e, sobretudo, anímico para encarar uma Copa.

Vestiário da seleção brasileira: Carlo Ancelotti começa a ter problema de lesão de atletas a menos de 50 dias da Copa / CBF

Como se não bastasse, há ainda o caso de João Pedro, fora desde o dia 12 por lesão muscular na coxa. A impressão é clara: a bruxa está solta. E, mais do que isso, ameaça comprometer de maneira direta o planejamento de um técnico que já trabalha em condições longe do ideal, com pouco tempo de treino e um grupo que ainda não teve continuidade suficiente para criar identidade.

Ciclo turbulento até o fim

O contexto agrava o cenário. Ancelotti assumiu a missão de conduzir o Brasil ao hexa no fim de um dos ciclos mais turbulentos da história recente da seleção. Antes dele, o time passou sem convicção pelas mãos de dois treinadores que nunca se firmaram — Dorival Júnior e Fernando Diniz — enquanto, fora de campo, a CBF mergulhava numa crise institucional marcada por disputas de poder, acusações e troca de comando. A saída conturbada de Ednaldo Rodrigues e a ascensão de um nome pouco conhecido como Samir Xaud ajudam a compor um ambiente de instabilidade que inevitavelmente respinga no futebol.

Estêvão, do Chelsea, sofreu ruptura das fibras da coxa direita em jogo da Premier League e deve ficar fora da Copa / CBF

Dentro de campo, o diagnóstico é igualmente desconfortável. Tecnicamente, o Brasil já não ocupa a primeira prateleira entre as grandes seleções do mundo. O amistoso recente contra a França foi menos um tropeço e mais um choque de realidade. Diante de um adversário organizado, intenso e repleto de talentos em alta rotação, a seleção brasileira pareceu um time ainda em construção — distante da elite que um dia dominou com naturalidade.

Falta opções e garantias

E é justamente nesse ponto que a preocupação se amplia: se já não sobra talento em relação aos principais concorrentes, perder peças-chave por lesão pode ser um golpe difícil de absorver. A reposição, hoje, não inspira unanimidade. As alternativas disponíveis oscilam entre jogadores que já tiveram oportunidades e não se firmaram, como Gabriel Jesus e Endrick, e nomes que carregam mais passado do que presente, como o próprio Neymar, cuja imprevisibilidade assusta. Não se trata de ausência de opções, mas de falta de garantias. O Brasil até pode substituir — o que não se sabe é em que nível.

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Tudo conspira contra. O momento técnico, o histórico recente, o ambiente político e, agora, a questão física de jogadores fundamentais. O Brasil chega ao Mundial, neste recorte, como um candidato que depende de variáveis demais para dar certo. E, ainda assim, é justamente nesse terreno instável que se apoia a última esperança. Porque, no fim das contas, há algo que escapa à lógica fria das análises: a mística. O peso da camisa. A memória de um país que, mais de uma vez, foi campeão quando saiu do país desacreditado. Talvez seja pouco diante de tantos problemas. Mas talvez seja tudo o que nos resta.

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