Passava das 11 da noite de 12 de julho de 1998, um domingo, quando a França explodiu em uma festa sem precedentes na sua história. Em um resultado inesperado, a seleção francesa tinha acabado de ganhar da poderosa equipe do Brasil, por 3 a 0, conquistando, assim, a primeira Copa do Mundo da sua história. Os dois primeiros gols daquela final foram marcados a partir de cabeçadas do meia Zinedine Zidane, aos 27 e 45 minutos do primeiro tempo. Foram frutos das observações do técnico da França, Aimé Jacquet. “Eu percebi que a defesa brasileira falhava bastante nas bolas cruzadas e pedi para o Zidane ir para dentro da área deles para tentar a sua sorte, em vez de esperar pelos rebotes”, me contou Jacquet, naquela noite.

Tudo sobre a Copa do Mundo

Momentos depois, ainda na zona mista do Stade de France, ele fez um acerto de contas com seus detratores, começando pelos do jornal esportivo francês L’Équipe: “Eu não os perdoarei, jamais”, disse ele para mim e para os outros jornalistas presentes às entrevistas. Era um desabafo contra as críticas que recebeu sobre as suas escolhas e seus métodos para montar a equipe, desde que tinha sido nomeado, em dezembro de 1993, poucas semanas depois de a seleção francesa protagonizar dois tropeços consecutivos.

Copa de 1998 Autor de dois gols na final contra o Brasil, Zinedine Zidane comanda o primeiro título da França de Copa do Mundo
Autor de dois gols na final contra o Brasil, Zidane levanta taça do primeiro título da França de Copa do Mundo / Fifa

Campanha até Copa de 1998

Na matemática, precisando apenas de um empate nas duas partidas que disputaria contra Israel e Bulgária, no Estádio Parque dos Príncipes, em Paris, a França acabou se complicando — e perdeu os dois jogos, considerados fáceis. Foram derrotas com requintes de crueldade: mesmo considerados fracos, os dois adversários conseguiram ganhar dos franceses de virada — e com gols nos últimos segundos. Esse inesperado fracasso provocou uma reviravolta: custaria o cargo ao técnico Gérard Houllier, de quem Jacquet era o assistente principal, e derrubou, também, a cúpula da Federação Francesa de Futebol.

A começar pelo presidente, Jean Fournet-Fayard, substituído de forma emergencial por Claude Simonet. Foi, portanto, com desconfiança que 60 milhões de franceses foram formalmente apresentados a Jacquet. Designado para liderar a remontagem do time, o homem originário de Sail-sous-Couzan, uma cidadezinha com cerca de 900 habitantes, perto do rio Loire, nas entranhas da França, tomou decisões radicais.

Pulso firme

Sua primeira tarefa foi conter o ‘clima de guerra civil’ que havia se instaurado na equipe, rachada entre jogadores ligados ao Olympique de Marselha e ao Paris Saint-Germain, os dois principais clubes do país. Barrou Eric Cantona, o atacante do Manchester United, capitão do time; o artilheiro Jean-Pierre Papin; e o endiabrado David Ginola; e decidiu renovar o time. Simultaneamente, convenceu o zagueiro Laurent Blanc a desistir da ideia de aposentar-se e ofereceu oportunidades a atletas em busca de espaço, como o zagueiro Marcel Desailly, os laterais Lilian Thuram e Bixente Lizarazu e os meias Zinedine Zidane e Youri Djorkaeff. Ele também apostou em jovens como Thierry Henry e David Trezeguet.

Mesmo enfrentando críticas severas da imprensa francesa e sendo visto com ceticismo pelos torcedores, o fato é que a seleção de Jacquet deslanchou assim que começou a Copa de 1998: passou invicta pela fase de grupos, vencendo a África do Sul por 3 a 0 na estreia em Marselha; goleou a Arábia Saudita por 4 a 0, em Saint-Denis; e derrotando a Dinamarca por 2 a 1 em Lyon. Mas sem o talento de Zidane, suspenso por dois jogos por causa do cartão vermelho tolo contra os sauditas, os franceses sofreram um bocado contra o Paraguai nas oitavas de final: o gol que garantiu a vitória só saiu na prorrogação, após uma desesperada descida de Blanc para o ataque.

O sufoco continuou na fase seguinte, contra a Itália: os franceses venceram a disputa de pênaltis por 4 a 3 graças às jovens apostas de Jacquet: foram Henry e Trezeguet que converteram os dois últimos pênaltis da série. Nas semifinais, os donos da casa foram buscar a vitória contra a Croácia. Naquele dia, os rivais marcaram primeiro, até que surgisse um herói improvável: o lateral-direito Lilian Thuram, que marcou dois gols. Nunca mais ele conseguiu repetir esta façanha.

Drama de Ronaldo

Naquele Mundial, o Brasil, adversário dos franceses na final da Copa, era um time de altos e baixos: apesar de ter uma equipe que contava com o talento dos tetracampeões Ronaldo e Bebeto e um Rivaldo em plena ascensão, o time dirigido por Zagallo apresentava momentos de instabilidade: tinha perdido de virada para a Noruega, na fase de grupos; passado maus bocados contra a Dinamarca, apesar da vitória por 3 a 2, nas quartas de final; e sofrido muito contra a Holanda, em um duelo em que Taffarel defendeu as cobranças de Cocu e Ronald de Boer, em Marselha.

Mas o pior sufoco estava por vir para os brasileiros. E horas antes da final. Pouco depois do almoço, aproximadamente sete horas antes da partida, no seu quarto na concentração da seleção brasileira, em Ozoir-la-Ferrière, Ronaldo Nazário passou mal. Ele tremeu, ficou roxo e até desmaiou. Independentemente do que tenha acontecido, a situação foi considerada grave, a ponto de o nome do camisa 9 do Brasil sequer aparecer na primeira lista distribuída na sala de imprensa do Stade de France. Em seu lugar, no time titular, estava o atacante Edmundo.

Copa de 1998 Após drama na concentração e ida ao hospital, Ronaldo joga a decisão e fica desolado após a derrota
Após drama na concentração e ida à clínica médica, Ronaldo jogou a decisão e ficou desolado após a derrota / Reprodução

Reviravolta e craque na final

Assim, enquanto a seleção francesa seguia triunfante para o estádio, a partir da sua concentração, em Clairefontaine, com o ônibus da delegação percorrendo os 76 quilômetros até o estádio e cruzando com milhares de pessoas pelas ruas, gritando e agitando bandeiras com as cores do país, os jogadores e a comissão técnica do Brasil viviam um baque: aguardavam o resultado dos exames pelos quais Ronaldo passava na Clínica de Lilas, nos arredores de Paris.

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No final das contas, mesmo abalado, com o aval dos médicos da seleção brasileira, Lídio Toledo e Joaquim da Mata, o técnico Zagallo decidiu escalar o atacante. Isso teve o seu preço quando a bola rolou: sem condições de apoiar a defesa, sobrou para Leonardo e Dunga — cada um deles com 1,77 metro de altura — a missão de marcar Zidane, oito centímetros mais alto, em cruzamentos alçados para a área. Deu tudo errado. Foi assim que a França, liderada por Aimé Jacquet, conquistou a sua primeira Copa do Mundo.

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