A pendenga entre Neymar e Robinho Júnior, que se desentenderam em um treinamento no CT Rei Pelé neste fim de semana, ganhou contornos que vão muito além de um simples atrito entre dois colegas de trabalho durante uma atividade de rotina. Até porque, o episódio tem como atores dois personagens simbólicos do clube, ambos criados no sagrado território onde nascem os Meninos da Vila.

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Segundo as versões já conhecidas, Neymar não gostou de tomar um drible desconcertante durante o treino e se irritou, apelando contra o menino, a quem teria agredido com um tapa e uma rasteira. O craque chegou a se desculpar em suas redes sociais, mas o caso ganhou nova proporção diante da informação de que os empresários de Robinho Júnior apresentaram uma ação extrajudicial à diretoria do Santos, exigindo providências para apurar, esclarecer e eventualmente punir os envolvidos.
Neymar arrumou confusão com Robinho Jr, seu colega no Santos, após um lance no treinamento / Santos
O pedido inclui a análise das imagens das câmeras de segurança do CT Rei Pelé, que podem ter registrado o passo a passo da agressão. Isso, evidentemente, abre mais uma ferida no ambiente já doente do Santos, que amarga uma má fase técnica, luta novamente contra o rebaixamento e troca de técnicos a torto e a direito sem achar um caminho que o tire da crise. Um inferno astral que parece não ter fim.

Neymar no olho do furacão

Além disso, mais uma vez o episódio coloca Neymar no olho do furacão de problemas que vão além do dia a dia do futebol. Já há, inclusive, quem admita que essa seja apenas mais uma reação que reforça a suspeita de que o jogador está arrependido de ter voltado ao clube — e que já não tem mais ambiente para seguir lá, seja por vontade própria ou por pressão externa.

Aquela fase de lua de mel que marcou seu retorno ao antigo ninho já se desgastou diante da falta de resultados e do descontentamento de muitas alas do clube em relação ao fato de o jogador ter certos privilégios internamente, beneficiado também pela atuação de seu pai nos bastidores. É público que Neymar pai tem ascendência quase total na gestão de Marcelo Teixeira, sendo tratado por muitos como uma espécie de presidente informal do clube — quase um dono de fato.

Conversas intramuros

Por ora, a diretoria do Santos trata o caso com formalidade e cuidado para não se deixar levar por julgamentos precipitados, até porque imaginava que a questão já estivesse superada. Mas, diante da ação dos representantes de Robinho Júnior — que consideram, inclusive, a possibilidade de rescisão contratual —, o clube se viu obrigado a se posicionar.

Robinho Jr. e Neymar em treinamento do Santos no CT Rei Pelé, na Baixada Santista / Santos

Em comunicado oficial, o Santos informou a abertura de sindicância interna para apurar o episódio ocorrido no treino do último domingo. Espera-se rigor e transparência na análise dos fatos. Afinal, a questão importante agora é saber como a direção do clube vai atuar daqui para frente: proteger o grupo ou passar a mão na cabeça do ídolo intocável? Seja qual for a decisão, ela dirá muito sobre o futuro do time e do próprio Neymar.

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Fora isso, há ainda o impacto do exemplo de Neymar para os mais novos. Para a garotada, a agressão por motivo tão banal é um sinal preocupante. E, no plano maior, a atitude também levanta dúvidas sobre o comportamento do craque em relação ao seu projeto de voltar à seleção. O que faria Neymar se tomasse uma caneta de um jogador como Vinícius Júnior em um treino do Brasil?

Reação desproporcional

Intimamente, Neymar sabe que errou. Sua reação foi exagerada, ainda mais porque ele sempre defendeu o direito de impor o drible, o chapéu, a caneta como humilhação intrínseca à arte do futebol. Logo, a impressão que fica é que esta pode ser mais uma demonstração de um possível arrependimento do jogador por ter retornado ao Santos no momento em que o clube atravessa essa fase ruim. Não por acaso, já foi flagrado recentemente chamando os próprios companheiros de “bando de burros”.

Cuca ganhou um problema inesperado envolvendo o seu principal jogador e uma aposta da base com futuro certo / Santos

Por outro lado, também é preciso reconhecer que o futebol tem uma ética própria, típica de um ambiente competitivo e, muitas vezes, explosivo. Não se pode tratar uma discussão de treino como se fosse uma briga entre colegas em uma linha de montagem de fábrica de parafusos. Mas isso não significa normalizar agressões. Não se pode aceitar que um jogador agrida outro no ambiente de trabalho — nem recorrer a episódios do passado, até mais graves, para justificar que isso “faz parte do futebol”.

Casos como o tapa de Romário em Andrei, em um jogo do Fluminense contra o São Paulo no Brasileirão de 2002, ou brigas históricas de vestiário (como a conhecida treta entre Rincón e Marcelinho Carioca no Corinthians) devem ser tratados como parte de um outro tempo — lembradas apenas como folclore. Os tempos mudaram. Hoje, qualquer agressão no ambiente de trabalho é inadmissível e deve ser punida. Não importa quem sejam os envolvidos.

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