O domingo de Páscoa, que costuma carregar o simbolismo da renovação, encontrou o Corinthians mergulhado justamente no oposto desse sentimento de esperança. O torcedor que foi a Itaquera apostando em uma virada de chave, se deparou com um estado de esgotamento, repetição de erros e descrença no futuro. A derrota para o Internacional, na Neo Química Arena, por 1 a 0, não foi apenas mais um resultado ruim. Foi o alerta de que não dá mais para continuar assim. O técnico Dorival Júnior foi demitido, como se esperaba com mais uma derrota. A paz acabou. A torcida quer mais cabeças.
O que se viu em campo não foi um acidente. Foi a reafirmação de tudo aquilo que já vinha sendo dito — e ignorado. O time de Dorival entrou pressionado e saiu ainda mais acuado. São quase dez jogos de um futebol raso, previsível, incapaz de evoluir. Faz nove partidas que o time não sabe o que é ganhar. Sete derrotas. A paciência da torcida, que já vinha sendo esticada ao limite, finalmente arrebentou. E não há espaço para discursos protocolares, explicações genéricas ou promessas vagas de melhora. O corintiano já viu esse filme vezes demais e está cansado.

A diretoria perdeu a paciência também. Agradeceu o trabalho do treinador e desejou sorte a ele. Na próxima semana tem a Libertadores e um clássico com o Palmeiras. Por ora, o comando fica com um interino.
Time não mostra evolução
O problema é estrutural — e visível a olho nu. O Corinthians não tem padrão de jogo. A saída de bola é um drama semanal, uma sequência de erros anunciados que trava qualquer possibilidade de construção ofensiva. A bola não chega aos atacantes, os meias não pisam na área, os laterais são facilmente anulados. O que sobra é um repertório pobre: passes laterais entre zagueiros, recuos insistentes para o goleiro Hugo, que claramente não tem no jogo com os pés sua principal virtude, e uma sensação permanente de que ninguém sabe exatamente o que fazer com a bola. Dorival se perdeu e o elenco o abandonou.
Ter a posse, para esse Corinthians, virou um problema. E quando não consegue jogar, o time se entrega. Rifa a bola, se desorganiza e se expõe. Foi assim no lance do gol de Bernabei, em um contra-ataque que encontrou a defesa aberta, vulnerável, como tem sido regra — não exceção. Mas talvez o mais preocupante não esteja nem na parte tática. Está no comportamento.
Não é apenas má fase
Há um time emocionalmente abalado, com medo de errar, preso ao óbvio, incapaz de tentar algo diferente. Um elenco que joga travado, refém da própria insegurança, reproduzindo semana após semana os mesmos erros crônicos, como se o tempo de treino simplesmente não existisse. Isso não é apenas má fase. É sintoma de algo mais profundo.
Pressão, cobrança e tempo não param
A arquibancada percebeu. E reagiu. Os cânticos ao fim do jogo não foram apenas de cobrança — foram de ruptura. O torcedor não aceita mais. Não aceita o futebol pobre, não aceita a falta de evolução e sensação de que nada muda. O que se desenha agora é uma semana de ebulição: pressão externa, questionamentos internos e decisões que podem custar caro. O primeiro a deixar o clube foi Dorival. Ele não é mais o treinador. E o calendário não espera.
No meio da semana tem a estreia na Copa Libertadores da América. No domingo, o clássico com o Palmeiras, líder do campeonato e, mais uma vez, referência de estabilidade e desempenho. Dois jogos que exigem respostas imediatas de um time que, hoje, não dá sinais de que pode oferecê-las. A mudança foi por isso também. Como esperar reação de quem ainda não conseguiu sequer se entender?

A fala de Gustavo Henrique resume o momento com uma honestidade rara. “Ninguém queria estar vivendo isso, é difícil explicar, é preciso trabalhar para dar a volta por cima”. Mas o futebol não cobra apenas trabalho — cobra resultado, desempenho e evolução. A Páscoa passou. Mas, no Parque São Jorge, não há qualquer sinal de ressurreição à vista. O que se aproxima é uma semana de tensão, cobrança e, talvez, mais mudanças. Porque quando a realidade grita tão alto, ignorá-la deixa de ser uma opção — e passa a ser um erro ainda maior.





