Pouco mais de dois meses depois da grande frustração vivida por Carlo Ancelotti — e por todo o futebol brasileiro — na Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá, o técnico italiano dá início nesta quarta-feira a um novo ciclo de preparação da seleção brasileira para o projeto do hexa, um sonho que vem sendo adiado há quase três décadas. Com ele, o País do Futebol renova mais uma vez o sonho e a esperança do sexto título. 2030 é logo ali! O Brasil fará dois amistosos, um contra a Austrália e outro diante da Índia na data Fifa, que acontece entre o fim deste mês e o ínicio de outubro.
Desta vez, porém, existe uma diferença importante. Ancelotti tem diante de si uma oportunidade que não teve quando chegou ao Brasil: tempo para construir um time para chamar de seu. Ancelotti terá a possibilidade de começar um trabalho desde o início, sem precisar construir um grupo às pressas e ter a obrigação de encontrar soluções imediatas para problemas que já estavam instalados. E, principalmente, sem precisar trocar os pneus do carro com o veículo em movimento, como aconteceu durante o período que antecedeu a Copa de 2026.

É uma vantagem considerável. Mas também é um enorme desafio. Porque não existe fórmula pronta para devolver o Brasil ao lugar que um dia ocupou no futebol mundial. Não há receita capaz de garantir que, daqui a quatro anos, a seleção estará disputando uma final de Copa do Mundo. E muito menos existe a possibilidade de conduzir esse processo na base da tentativa e erro. A primeira convocação de Ancelotti para esse novo ciclo, portanto, merece ser observada menos pelos nomes que aparecem na lista e mais pela ideia que existe por trás dela.
Projeto do hexa
E em alguns sinais já podem ser percebidos. Há, evidentemente, o desejo — e a necessidade — de iniciar um processo de renovação. De abrir espaço para jogadores mais jovens, capazes de amadurecer ao longo dos próximos quatro anos e chegar à Copa de 2030 com a experiência e a personalidade necessárias para suportar o peso de vestir a camisa brasileira. Mas o problema é maior do que encontrar novos jogadores. O Brasil precisa reencontrar uma identidade.
Essa talvez seja a tarefa mais importante entregue a Ancelotti. Porque, se não for possível repor as peças no mesmo nível daqueles craques que fizeram a história da seleção, que ao menos seja possível construir um padrão de jogo. Uma maneira de jogar que não dependa da inspiração individual de um ou outro talento. E, mais do que isso, que esse padrão possa ser reproduzido pelas seleções de base. Seria uma forma de, daqui a quatro anos, o Brasil não chegar à Copa apenas com um grupo de jogadores, mas com uma ideia de futebol. Uma identidade.

Algo que se perdeu ao longo de um período longo sem títulos e planejamento consistente, sem projetos confiáveis e, sobretudo, sem uma geração de talentos capaz de ocupar o espaço deixado por aqueles que fizeram do Brasil o país mais respeitado da história das Copas. É preciso reconhecer uma realidade que muitas vezes incomoda. O conceito do futebol brasileiro no cenário mundial ainda carrega enorme respeito. Mas, cada vez mais, esse respeito parece estar mais associado à nossa história do que à excelência do nosso presente.
Seleção sem rumo
O Brasil continua sendo reverenciado pelo que foi. Mas já não assusta pelo que é. As últimas Copas deixaram isso evidente. A seleção que vimos em campo estava muito distante daquela que aprendemos a identificar como referência mundial. E seria injusto atribuir essa degradação aos treinadores. Eles também são consequência do problema. O campo apenas espelha as mazelas de um futebol que, há anos, convive com problemas estruturais, administrativos, políticos e esportivos que ultrapassam os limites das quatro linhas.
Também é preciso reconhecer que o Brasil não tem produzido, nos últimos anos, uma sucessão de talentos extraordinários capaz de mascarar essas deficiências. Neymar foi o último grande representante desse ciclo de protagonismo individual. E fracassou em quatro Copas. Antes dele, tivemos uma geração que parecia inesgotável. A que conquistou o pentacampeonato em 2002 e reunia Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Cafu, Roberto Carlos e tantos outros jogadores capazes de decidir uma partida em qualquer circunstância.
Brasil terá grupo renovado
Hoje, não temos jogadores desse quilate à disposição. Ancelotti não recebeu a missão de apenas montar uma seleção. Recebeu a oportunidade de ajudar a reconstruir um time nacional. E isso exige tempo, observação e coragem para fazer escolhas. Mas exige respaldo. A história mostra que nenhum processo de renovação de uma seleção nacional acontece de um dia para o outro. É preciso garimpar jogadores, acompanhar seu desenvolvimento, aceitar oscilações e compreender que alguns deles só estarão preparados quando chegar o momento certo. Queimar etapas é alimentar a fogueira dos fracassos.

O problema é que o futebol brasileiro raramente teve paciência para isso. Todos os treinadores que tentaram promover uma ruptura mais profunda para construir um trabalho autoral acabaram pagando um preço alto quando os resultados não apareceram imediatamente. Talvez o exemplo mais emblemático seja o de Paulo Roberto Falcão. Depois da Copa de 1990, Falcão assumiu a seleção com a missão de promover uma renovação que apagasse os rastros do vexame do time de Sebastião Lazaroni na Copa da Itália. Ficou pouco mais de um ano no cargo e comandou o Brasil em 17 partidas, com seis vitórias, sete empates e quatro derrotas.
Mais do que apenas craques
Terminou como vice-campeão da Copa América de 1991, no Chile. Mas foi demitido logo depois, para a chegada do técnico do tetra Carlos Alberto Parreira. Pouco tempo, poucos resultados e pouco respaldo. Ainda assim, Falcão lançou jovens jogadores como Cafu, Mauro Silva e Leonardo, que fariam parte da seleção campeã do mundo em 1994. A memória da breve passagem de Falcão vem a calhar quando uma dúvida já se impõe no dia desta primeira convocação: Ancelotti terá tempo para fazer essa transição?
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Porque um projeto de quatro anos não pode ser avaliado a cada três ou quatro jogos. Uma renovação verdadeira produzirá tropeços. Jogadores vão oscilar. Escolhas serão questionadas. Alguns nomes promissores não vão confirmar as expectativas. Outros, que hoje não estão sequer no radar, podem aparecer de repente. Faz parte do processo.
O que não pode acontecer é o Brasil abandonar o caminho a cada obstáculo. Ancelotti tem uma oportunidade que seus antecessores não tiveram: começar um ciclo desde o princípio e conduzi-lo com tempo suficiente para escolher, testar, corrigir e consolidar. Tite teve, mas foi mal. Mas essa oportunidade também carrega uma responsabilidade enorme. Não se trata apenas de chegar à Copa de 2030. Trata-se de fazer com que o Brasil chegue lá sabendo quem é. O Brasil precisa voltar a descobrir seu próprio futebol.





