São quatro anos até a próxima Copa do Mundo. No futebol de seleções, parece muito. Para o Brasil, talvez seja pouco. No amistoso contra a Austrália, os primeiros passos depois da derrocada nas oitavas de final diante da Noruega, nos Estados Unidos, deixaram uma impressão difícil de ignorar: a seleção brasileira reapareceu com um futebol paupérrimo de ideias e difícil imaginar soluções a curto prazo.
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Por outro lado, a Espanha, bicampeã na final contra a Argentina, voltou a campo com a naturalidade de quem apenas dá continuidade ao que já fazia neste ciclo vitorioso, que conta também com a conquista da Eurocopa-2024.

Um oceano de diferença
Remontar o Brasil é uma tarefa árdua. Afina, não são dúvidas sobre um lateral, um centroavante ou uma convocação. São questões maiores: como quer jogar, quem sustenta esse jogo, qual será a espinha dorsal e, sobretudo, que identidade pretende levar até 2030.
É aí que a comparação incomoda. A Espanha ganhou a Copa do Mundo, mudou de calendário e seguiu sendo Espanha. O Brasil perdeu cedo no Mundial, virou a página e parece ter encontrado outra página em branco. Ou seja, não aprendeu nada com os erros.
Portanto, não se trata de supervalorizar uma vitória espanhola sobre a Inglaterra, na estreia na Liga das Nações, em pleno Wembley, nem transformar um empate brasileiro com a Austrália, com o gol no último lance, em sentença definitiva. Seria uma análise preguiçosa. O ponto está menos no placar e mais no que existe por trás dele.
A Espanha transmite continuidade. O Brasil sinaliza que a reconstrução vai ser dolorosa. A Fúria preserva conceitos que vêm desde a Copa de 2010, quando conquistou o primeiro mundial, na África do Sul. As referências técnicas e comportamento coletivo estão enraizados. A seleção brasileira voltou a apostar em jogadores com pouca bagagem para testar caminhos e procurar combinações. Os espanhóis parecem discutir como aperfeiçoar um time campeão. Os brasileiros ainda discutem como formar um time competitivo.
Essa diferença é enorme. Durante décadas, o Brasil pôde confiar que sua produção de talento compensaria boa parte das deficiências estruturais. Sempre surgiria alguém capaz de decidir uma partida, quebrar um sistema defensivo ou esconder uma atuação coletiva ruim. Esse conforto desapareceu.
Igualdade em talentos
A Europa também produz talento em escala industrial e não apenas talento. O futebol praticado lá produz jogadores com técnica refinada, educados desde cedo aos conceitos táticos e acostumados a funcionar dentro de estruturas coletivas sofisticadas. É importante ressaltar que não é só a Espanha. França e Inglaterra também, chegam a um novo ciclo sem precisar escolher entre organização e qualidade individual. Têm as duas coisas.
O Brasil continua tendo excelentes jogadores. Esse nunca foi o principal problema. Vinicius Junior, Estêvão, Endrick, Raphinha, Bruno Guimarães, Rayan e tantos outros garantem matéria-prima suficiente para formar uma seleção forte, sob o comando de Carlo Ancelotti. Mas uma seleção não pode ser apenas a soma de seus melhores nomes. A última Copa já deveria ter enterrado de vez essa crença.
O desafio de Ancelotti é esse: transformar abundância em equipe. Portanto, quatro anos deixam de parecer muito quando quase todos os grandes concorrentes começam alguns quilômetros à frente.
A Espanha não precisa criar uma cultura vencedora. Ela já existe. Não precisa convencer seus jogadores sobre um modelo. Eles reconhecem o modelo. Não precisa reinventar a maneira de ocupar o campo a cada data-Fifa. Existe uma linguagem comum. É um patrimônio invisível que pesa tanto quanto qualquer craque.
Padrões obsoletos
O Brasil desperdiçou boa parte dos últimos ciclos por não construir esse tipo de continuidade. Mudam treinadores, mudam conceitos, mudam hierarquias e, muitas vezes, muda até a interpretação sobre aquilo que a seleção deveria representar. Cada fracasso parece inaugurar uma nova fundação.
Qualquer torcedor brasileiro sabe que não deveria ser assim. Seleções fortes também perdem Copas. França, Inglaterra e Espanha já viveram eliminações duras sem concluir, no dia seguinte, que tudo precisava ser demolido. Há uma diferença entre corrigir um projeto e começar outro.

O Brasil se acostumou à segunda opção. Por isso, o início deste novo ciclo só aumentou a desesperança, afinal empatar com a Austrália carrega um peso muito maior do que o resultado em si. As dúvidas são visíveis em uma seleção que pretende voltar ao topo. E há outro desconforto.
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O Brasil não pode mais medir sua força pela própria história. As cinco estrelas não pressionam, não ocupam espaço, não fazem cobertura e não resolvem problemas de construção no meio-campo. Servem como patrimônio e cobrança. Não como vantagem competitiva. Em 2030, nenhum adversário entrará em campo intimidado pelo que aconteceu em 1958, 1970 ou 2002.
A referência precisa ser o presente. E, hoje, o presente mostra uma Espanha que sabe o que é, uma França que renova sem perder potência e uma Inglaterra que transformou sua produção de jogadores em uma ameaça permanente.





