Partindo da premissa — sempre questionável — de que todo time tem uma torcida e, no caso do Corinthians, é a torcida que tem um time, lideranças de seis torcidas organizadas estiveram no CT Joaquim Grava nesta sexta-feira para cobrar explicações e responsabilidades de jogadores, comissão técnica e diretoria. O encontro foi autorizado pelo clube e, felizmente, terminou de forma pacífica. Mas a cena merece uma reflexão que vai além do resultado do próximo jogo: até onde pode ir a cobrança de um torcedor sobre um jogador profissional dentro do seu ambiente de trabalho?

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A revolta da Fiel não nasceu na quarta-feira. A eliminação para o Estudiantes de La Plata, em Itaquera, apenas fez transbordar uma insatisfação que vinha crescendo havia algum tempo. São cinco derrotas consecutivas no Brasileirão, uma eliminação dolorosa da Libertadores e um time que chega ao jogo de domingo, contra o Fluminense, ainda mais fragilizado e próximo da zona de rebaixamento. É compreensível que a paciência tenha chegado ao limite.

Fernando Diniz comanda treino do Corinthians: equipe está pressionada pela torcida / Corinthians

Um clube com a história e a tradição do Corinthians não pode normalizar uma sequência tão ruim de resultados e de atuações. Os jogadores precisam reagir. Fernando Diniz precisa encontrar soluções. A diretoria precisa explicar o que está acontecendo e cumprir aquilo que prometeu. A torcida tem todo o direito de cobrar. O que não está tão claro é se a ida das organizadas ao CT produz algum efeito positivo ou apenas acrescenta mais uma camada de pressão a um grupo que já trabalha sob enorme tensão.

Cobrança da Fiel não garante nada

Não há estudo científico, levantamento estatístico ou qualquer evidência objetiva que permita afirmar que esse tipo de cobrança produz vitórias como consequência. Nada garante que o Corinthians entrará em campo domingo mais concentrado ou mais competitivo porque os jogadores ouviram as reclamações das organizadas. Pode acontecer. Também pode não acontecer. E, dependendo da maneira como a cobrança é feita, o efeito pode até ser o contrário.

Cobrança ou intimidação?

Um jogador que entra em campo preocupado com o que poderá ouvir da arquibancada depois de um erro não necessariamente joga melhor. Pode jogar mais tenso, tomar decisões mais precipitadas e se esconder ainda mais dentro do jogo. A presença da torcida no CT não é novidade no Corinthians. Vira e mexe, a Fiel se arvora no direito de ir até lá tirar satisfações com os atletas. Felizmente, os últimos encontros foram pacíficos. Mas é preciso cuidado para que o que hoje é cobrança não se transforme amanhã em intimidação.

A nota divulgada pelas organizadas mostra que Garro e Memphis foram os principais alvos entre os jogadores. E os dois, de fato, estão devendo. Memphis, que até pouco tempo era tratado como um dos grandes xodós da Fiel, conheceu depois do pênalti desperdiçado contra o Estudiantes o outro lado da relação com a torcida. O holandês pareceu abatido e reconheceu, diante dos torcedores, que pode e deve entregar mais. Resta saber se terá equilíbrio para transformar a cobrança em resposta dentro contra o Flu.

O tamanho da camisa

Mas há outro lado nessa história que também precisa entrar na balança. Como exigir tranquilidade e desempenho de um grupo de profissionais que convive há meses com salários atrasados e sem perspectiva de regularidade nos pagamentos? Isso não absolve os jogadores de suas responsabilidades. Eles sabem o tamanho da camisa que vestem, sabem quanto ganham e sabem que uma atuação como a de quarta-feira será questionada. Mas é preciso reconhecer que ninguém trabalha com a cabeça completamente tranquila quando o mês tem 60 dias e os boletos continuam chegando em casa.

Osmar Stabile é o maior responsável por ter deixado a situação chegar a esse ponto insustentável para todos / Corinthians

São atletas bem remunerados. Muitos têm reservas financeiras que a esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros jamais terá. Mas isso não torna normal o atraso de salário nem dá a ninguém o direito de tratar uma relação profissional como se fosse uma concessão pessoal. O Corinthians tem responsabilidades com seus atletas, assim como os atletas têm responsabilidades com o Corinthians.

Garro e Memphis

A própria reunião desta sexta-feira mostrou que a crise é maior do que aquilo que acontece durante os 90 minutos. As organizadas cobraram Garro e Memphis, questionaram Diniz sobre a evolução tática da equipe e exigiram explicações de Osmar Stabile sobre os problemas financeiros e administrativos. Os jogadores, segundo a nota das torcidas, relataram dificuldades enfrentadas no dia a dia do clube. Todos reconheceram, ainda assim, que os problemas não justificam o futebol apresentado.

A responsabilidade pela crise é de todos, em proporções que precisam ser discutidas, mas sem que ninguém tente empurrá-la para o outro. A diretoria precisa organizar o clube. A comissão técnica precisa fazer o time jogar. Os jogadores precisam entregar em campo aquilo que se espera deles. E a torcida precisa continuar cobrando, fiscalizando e apoiando, sem transformar a paixão pelo Corinthians numa autorização para instalar um tribunal de exceção. Domingo, contra o Flu, a Fiel estará na arquibancada. É ali que a torcida exerce sua força mais legítima. Apoiar, cobrar quando for necessário e exigir respeito à camisa é parte inseparável da vida de um clube como o Corinthians.

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O que não se sabe — e talvez seja a pergunta que fique depois de tudo isso — é se um jogador pressionado por uma torcida que foi até o seu local de trabalho para cobrar explicações terá mais condições de jogar futebol ou apenas mais medo de errar. No Corinthians, a torcida sempre teve voz. E deve continuar tendo. Só não pode esquecer que, por trás da camisa, existem profissionais que precisam trabalhar. E que crise de verdade não se resolve no grito de um lado nem na desculpa do outro.

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