Preciso me decidir se tenho dó ou medo dos chefes que dão porrada na mesa e humilham os outros com esporros públicos, descabelados, fazendo a aorta pulsar no pescoço. Fui criado com chamego pela mamãe, estranhei demais essa gritaria nas firmas de São Paulo. Nasci na ZL e, embora lá as coisas sejam barulhentas, nada se compara aos sons dos escritórios. É uma sinfonia de desespero, regida por ambição e insegurança. E a plateia está ali obrigada.

Uns anos depois, me deram um crachá graúdo e tive de me inventar como chefe – ou líder, no eufemismo corporativo. Em tempos convulsos, notei que os boçais haviam me ensinado muito, em especial a não ser patético a ponto de me comportar como eles. Radicalizei na gentileza, porque a vida é um caos e, se há algo humano a ser feito, é não piorar o caos dos outros. Falei manso, não raro fui relapso com as metas, avancei mais por privilégios do que por desempenho. Meu Ebtida era medido em respeito e afeto, no que, a julgar pela quantidade de convites para happy hour, fui bem sucedido.

A MÁQUINA DE FAZER ESPANHOIS

Num desses encontros, um colega, com as ideias já levitando na quarta long neck, depositou a mão no meu ombro e disse: “você é tão magnânimo, tão justo, tão cortês, me lembra um espanhol”. A frase formou redemoinhos na minha cabeça, sem que eu pudesse formar algum juízo. Ok, o tom era elogioso, o nível etílico dele estava no estágio da euforia, ainda faltava um tanto para avançar o limite sombrio do agressivo, do depressivo. Mas restou um sabor de insulto.

Nunca me comportei de forma a despertar sentimentos normalmente dirigidos a quem, por exemplo, toma a casa dos outros, serve-se das mulheres sem consentimento e obriga a crença no próprio Deus, tudo à força bruta. De qual loucura vem a relação de gentileza com um espanhol? Seria a doutrinação nas escolas, essa da qual se fala tanto, com tanta convicção, com tanta empáfia?

POUCOS CRESCEM, MUITOS FAZEM FIGURAÇÃO

Sou corintiano e esse troço de achar bonito ser espanhol me incomoda, porque está dando certo. A farialimarização do futebol nos aproximou dos europeus, talvez, mas matou o imponderável. Tudo precisa ser doentiamente eficiente, mensurado, “otimizado”, como se diz nas firmas. Os meninos do Terrão, se franzinos, já não servem. Há uma metrificação até de quantas vezes se atou o cadarço da chuteira rosa esquerda, enquanto o improviso, a solução criativa, ficam subordinados à mecânica. No Brasileirão, o sucesso dessa sandice está consolidado: dois clubes acumulam dinheiro, talento e pontos, e os outros vão se alternando no papel de coadjuvantes. É o futebol reproduzindo o escritório, onde poucos crescem e os demais fazem a figuração. Viramos espanhóis. Parabéns?

Na próxima incursão ao boteco, vou dizer ao meu amigo que suspenda a tolice de me considerar espanhol. Posso querer dar porrada na mesa, gritar fazendo a aorta pulsar no pescoço. Estou em vias de pedir a volta do mata-mata. Só fraquejo na certeza quando lembro da desgraça dessa semana. E se o pênalti no último minuto dos acréscimos sobra para um europeu? Nós, brasileiros, latino-americanos, deveríamos deixar de ser otários e saber do que a força bruta é capaz.

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