Por Savério Orlandi

No fim de maio do ano passado, mediante uma transição célere e inesperada, ocorreu a mudança no comando do futebol brasileiro com a eleição da nova diretoria da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), após anos de desmandos e desacertos desde o Fifagate até a administração de Ednaldo Rodrigues. Eleito através de ampla composição entre dirigentes, políticos e autoridades, o novo presidente assumiu sob incredulidade e ceticismo geral, prometendo de imediato entregar no mesmo ano propostas para a solução de dois problemas da nossa indústria esportiva: as questões do calendário e do fair play financeiro.

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Apesar da desconfiança, o fato é que em outubro do mesmo ano, Samir Xaud apresentou o novo formato de Calendário do Futebol Brasileiro para 2026 e em dezembro, ele instituiu o Sistema de Sustentabilidade do Futebol, também com vigência a partir da temporada de 2026. Ou seja: a CBF cumpriu a promessa.

Uma das muitas reuniões do Conselho Técnico da CBF para a definição do Campeonato Brasileiro de 2026 / CBF

O calendário foi confeccionado sob a premissa da maior racionalidade, visando a um só tempo a diminuição da carga de jogos para equipes participantes de várias competições e a integração dos times com agenda curta em novos compromissos e campeonatos. Os Estaduais foram reduzidos para 11 (ou 12) datas ou “cerca de dois meses” de disputa com término na primeira quinzena de março. Também foi antecipado o início do Brasileirão, que agora se estende de janeiro a dezembro, junto com a Copa do Brasil entre fevereiro e dezembro: as demais séries do Campeonato Brasileiro terão início entre fim de março e abril, época do começo das repaginadas Copas Regionais com encerramento no primeiro semestre.

Estaduais devem acabar?

Muita se fala sobre a extinção dos Estaduais e tantos bradam de modo simplista que “eles têm de acabar”. Contudo, é muito claro que são vitais à manutenção do mercado futebolístico brasileiro, especialmente considerando sua origem e capilaridade. Além disso, são torneio que compõem a gênese das nossas competições e rivalidades e, como tal, ainda têm um lugar cativo no ideário de boa parte da torcida. Eles movimentam os mais variados aspectos em diversas localidades brasileiras.

CBF cumpre a sua promessa de organizar e definir regras para um fair play financeiro dos clubes / CBF

Nesse cenário, não só pelas condições sociais e culturais, mas sobretudo pelo fomento que a atividade econômica do futebol local proporciona regionalmente de modo direto e indireto, a vida dos Estaduais “tiro curto” parece garantida, demandando trabalho e criatividade das federações para consolidar os seus novos formatos ao interesse do torcedor.

Paulistão mudou aquela forma esdrúxula

Em São Paulo, por exemplo, a necessidade de redução do número de datas em relação às edições anteriores resultou num modelo que foi o possível para a circunstância enfrentada e que no fim das contas acabou corrigindo pela “via torta” a esdrúxula fórmula vigente há anos, em que nem sempre o maior número de pontos obtidos no campo de jogo significava avanço dentro da competição.

O que já vimos e devemos pensar

Evidentemente, pelo próprio ineditismo, surgem novos desafios, inclusive nesse primeiro ano de experiência do novo calendário com a Copa do Mundo, tornando ainda mais difícil de se compatibilizar, pois a questão da carência de datas se acentua. Do ponto de vista objetivo, o que se observou foi a queda geral das médias de público nos Estaduais, o mesmo ocorrendo nas rodadas iniciais do Brasileiro disputadas concomitantemente às fases finais nos Estados.

Presidente da CBF, Samir Xaud, assume o comando do futebol brasileiro com a promessa de mudar o calendário / CBF

A comparação das médias de público das rodadas 1 e 3 do Brasileirão ficou abaixo em relação aos anos anteriores, quando seu início ocorria em abril. Isso, provavelmente, se deu por aquilo que os especialistas chamam de “canibalização de ativos”, isto é, a sobreposição de datas e competições, algo a ser avaliado pela CBF, uma que na prática implicou na diminuição da frequência.

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A evolução das experiências se dará em processo de erro e acerto, é bom dizer. A iniciativa e proposição das mudanças já foram, por si, louvável. Agora se seguem os ajustes com base nas diretrizes delineadas que envolvem a redução de datas em competições de menor relevância econômica, expansão e adensamento dos campeonatos nacionais das séries inferiores, bem como o fortalecimento das Ligas Regionais com a ampliação do calendário para que mais equipes tenham maior período anual de atividade.

Valor ao produto

O calendário é certamente o maior ativo do mercado futebolístico em qualquer lugar do planeta. É a partir dele que se organiza e estrutura a cadeia de negócios entre os seus muitos atores, como clubes, entidades, meios de comunicação, patrocinadores, torcedores e demais stakeholders. Por essa razão, deve ser permanente revisitado com o propósito de propiciar melhores condições para equipes e dirigentes, trabalhando para que a redução da quantidade traga ganho qualitativo e criação de valor ao produto.

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