A Argentina aprendeu a sobreviver nesta Copa do Mundo. Quando o futebol não flui, resiste. Quando o adversário ameaça arrancar-lhe o sonho, reage. E, quando o relógio aperta, procura Lionel Messi. Foi assim contra Cabo Verde, Egito e Suíça. Voltou a ser escrito com muito suor diante da Inglaterra. Com dois gols nos minutos finais, a seleção de Lionel Scaloni venceu por 2 a 1, nesta quarta-feira, em Atlanta, e avançou à decisão contra a Espanha.

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A vaga nasceu de outra virada carregada de tensão. Anthony Gordon colocou os ingleses em vantagem aos 10 minutos do segundo tempo, ao aparecer atrás de Molina e completar o cruzamento de Morgan Rogers. Naquele instante, a Inglaterra parecia perto de transformar sua organização em uma passagem histórica. O que veio depois foi uma demonstração argentina de inconformismo — e um recuo inglês que custaria caro.

Argentina Enzo fernández
Enzo Fernández é certeiro na sua quarta finalização contra Pickford e festeja com a torcida o gol de empate / Afaseleccion

Argentina sufoca Inglaterra

Em uma decisão de alto risco, o técnico Thomas Tuchel retirou Gordon e colocou Ezri Konsa, reforçando a defesa. A Inglaterra baixou as linhas e entregou a bola. A Argentina aceitou o convite. O jogo passou a ser disputado quase inteiramente no campo inglês, numa sequência de cruzamentos e segundas bolas. Scaloni lançou Rodrigo De Paul, Nicolás González, Gonzalo Montiel, Nicolás Otamendi e, por fim, Lautaro Martínez. Não havia mais preocupação com desenho tático. Havia urgência.

Pickford tentou transformar a resistência em classificação. Primeiro, voou para impedir o gol de Nicolás González, que cabeceou após lançamento de Messi. Depois, viu Alexis Mac Allister acertar a trave em outra cabeçada, após cruzamento de De Paul. Djed Spence já havia salvado a Inglaterra com um carrinho diante de Giuliano Simeone. Nos acréscimos, Mac Allister voltaria a carimbar o poste. A pressão argentina não era apenas territorial. Era sufocante.

Messi comandava tudo. Aos 40 minutos, cobrou um escanteio curto, recebeu de volta e encontrou Enzo Fernández livre na entrada da área. O meio-campista dominou e acertou um chute violento, de direita, no canto de Pickford. Era o empate merecido e a confirmação de que a Inglaterra havia recuado cedo demais.

A Argentina não se satisfez com a prorrogação. Aos 47 minutos, Messi recebeu pela direita, levou a bola para o pé direito e cruzou com precisão na segunda trave. Lautaro Martínez, que havia entrado aos 36, apareceu entre os defensores e cabeceou para completar a virada. Foram as terceira e quarta assistências do camisa 10 no Mundial. Somadas aos oito gols, elas o deixaram à frente de Kylian Mbappé na disputa pela Chuteira de Ouro.

Messi é um show à parte

Aos 39 anos, o capitão alcança sua terceira grande final em quatro anos: conquistou a Copa do Mundo de 2022, levantou a Copa América de 2024 e agora tentará defender o título mundial. Nesta edição, além de liderar a artilharia, voltou a ser o centro técnico e emocional da equipe. Contra a Inglaterra, não marcou, mas deu as duas assistências que mudaram a semifinal.

Essa sucessão de provações explica por que a Argentina chega à final com uma identidade clara. Não dominou todos os adversários. É uma seleção que se recusa a aceitar a eliminação. Carrega a serenidade de quem venceu no Catar e a fome de quem sabe que pode estar vivendo os últimos capítulos de Messi em uma Copa.

O adversário acrescenta uma camada especial à história. Argentina e Espanha nunca decidiram uma Copa do Mundo. Para Messi, o encontro é ainda mais simbólico. Foi na Espanha que ele chegou aos 13 anos, foi formado pelo Barcelona e construiu a maior parte da carreira. Elegível para defender a seleção espanhola e procurado nas categorias de base, escolheu representar o país onde nasceu. Agora, enfrentará a nação que o acolheu e quase o vestiu de vermelho.

Argentina Lautaro Martínez
Com a assistência de Messi, Lautaro Martínez aproveita o vacilo de Stones e cabeceia para virar o marcador / Afaseleccion

A decisão também terá peso continental. Antes da final, seleções europeias somam 12 títulos mundiais, contra dez das sul-americanas. Se conquistar o tetracampeonato, a Argentina reduzirá a diferença para 12 a 11 e se juntará a Alemanha e Itália no grupo dos quatro vezes campeões, atrás apenas do Brasil, com cinco. Também poderá ser a primeira seleção bicampeã consecutiva desde o Brasil de 1958 e 1962.

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Fiasco inglês

A Inglaterra também não conseguiu acertar novamente as contas com um dos adversários mais traumáticos de sua história. Em 1986, nas quartas de final, a Argentina venceu por 2 a 1 em uma atuação eternizada pelos dois gols de Diego Maradona: o polêmico “La Mano de Dios” e o lance que seria consagrado como o Gol do Século. Doze anos depois, nas oitavas de final da Copa de 1998, os argentinos voltaram a levar a melhor: empate por 2 a 2 e vitória por 4 a 3 nos pênaltis, em uma partida marcada pela expulsão de David Beckham.

O troco inglês veio na fase de grupos de 2002, com triunfo por 1 a 0, gol de pênalti do próprio Beckham. Agora, 24 anos depois daquele encontro, a Inglaterra teve a oportunidade de desequilibrar novamente esse confronto carregado de história, mas voltou a cair diante da Argentina — desta vez, a um passo da final.

Para a Inglaterra, resta outra queda dolorosa. Sessenta anos depois do único título e da única final, em 1966, o país voltou a parar na semifinal. A equipe de Tuchel esteve a pouco mais de cinco minutos da decisão, mas pagou pela escolha de abandonar o ataque e proteger uma vantagem mínima contra um adversário que fez da superação seu método.

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