O fatalismo parte da ideia de que o futuro está dado. Que as circunstâncias determinam o destino e que, diante delas, resta apenas aceitar o papel imposto. O Corinthians de hoje nasce exatamente da recusa a essa lógica filosófica. Jogadores e comissão técnica decidiram não aceitar, passivamente, que a soma de dívidas, escândalos, atrasos e má gestão fosse um roteiro inevitável. Decidiram que, mesmo no buraco, deveriam ao menos honrar suas próprias biografias.
Há grupos que conquistam títulos. Outros, mais raros, conquistam lugar na história. O Corinthians atual pertence à segunda categoria. Pelos resultados obtidos — três títulos em pouco mais de um ano — jogadores e comissão técnica serão guardados na memória do clube como um símbolo de resistência. Não apenas pelo que venceram em campo, mas sobretudo pelo que se recusaram a aceitar fora dele.

Este elenco e esta comissão técnica não cumpriram, passivamente, o papel ao qual foram condenados por dirigentes de um passado recente que deixaram apenas rastros de coisas ruins: dívidas impagáveis, escândalos, denúncias de suborno, corrupção, mutretas, desvios de dinheiro, de conduta e de caráter. Um legado tão tóxico que, não fosse o Corinthians o que é — uma camisa pesada, uma torcida gigantesca e uma identidade que desafia a lógica — talvez estivéssemos falando hoje de falência esportiva, de rebaixamento e de uma instituição centenária carcomida por dentro.
Corinthians se recusa a se entregar
O cenário mais realista, pouco mais de um ano atrás, era esse: queda para a segunda divisão, colapso financeiro e dirigentes sendo chamados a responder a investigações do Ministério Público. Nada indicava um caminho diferente. Mas jogadores e comissão técnica, liderados por Dorival Júnior, decidiram honrar a própria reputação. Decidiram não aceitar o destino que lhes foi imposto. Preferiram resistir.

E resistiram em condições que fariam qualquer projeto esportivo ruir. Salários atrasados, contratos descumpridos, Transfer ban na Fifa, malabarismos para honrar acordos mínimos de parcelamento de dívidas. Um clube sobrevivendo no limite, enquanto o time, em campo, dava sinais de uma grandeza quase inacreditável. Grandeza que se materializou em títulos conquistados no ambiente mais hostil possível: jogos de mata-mata contra gigantes.
Palmeiras, Cruzeiro e Flamengo
Palmeiras, na final do Paulistão. Cruzeiro, na semifinal da Copa do Brasil. Flamengo, na decisão da Supercopa Rei. Três clubes que hoje estão na primeira prateleira do futebol, com orçamentos muito superiores, contas em dia e modelos de governança que beiram o céu de brigadeiro comparado ao caos do Parque São Jorge. E ainda assim, um por um, caíram diante de um time que se recusou a ser vítima.
O que disse Memphis Depay
Nesse contexto, o desabafo de Memphis Depay após a final contra o Flamengo ganha um peso simbólico enorme. O holandês, a quem o clube deve uma pequena fortuna por simples incapacidade econômica de cumprir o que foi acordado em contrato, emocionou-se ao falar da conquista e revelou o desejo de ver, um dia, o Corinthians melhor organizado fora de campo. Estruturado. Capaz de sonhar esportivamente sem que cada vitória seja um ato de sobrevivência.
Ainda há quem questione o valor e a importância de Memphis para o clube. Mas é inegável que sua presença ajudou a construir essa carcaça resistente que sustentou o time em meio a tanta adversidade. Memphis poderia estar ganhando os mesmos milhões em qualquer lugar da Europa ou do mundo árabe, sem atrasos, sem ruído, sem sobressaltos um. Preferiu estar aqui. Porque aprendeu a viver o Corinthians como ele é.
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O Corinthians não se explica por padrões convencionais de racionalidade. Ele existe na dor e na delícia de ser o que é. Subverte a lógica, desafia previsões, confunde analistas e reafirma, para fiéis e anticorintianos, que este é um clube diferente. Difícil de entender, impossível de explicar — e, por isso mesmo, eterno. Esse grupo não venceu apenas campeonatos. Venceu o conformismo. E isso, na história do Corinthians, vale tanto quanto qualquer taça. É disso que vive o Corinthians e essa gente que se alimenta do próprio sofrimento. Um bando de loucos que consegue ver cor onde só há preto e branco.






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