Visivelmente emocionado, Cafu lembrou que toda a sua carreira começou num campinho de terra do Jardim Irene, zona sul de São Paulo. Já o atacante Raphinha, que está na Copa e corre contra o tempo para se recuperar de uma lesão, contou dar os primeiros chutes numa bola no clube que jogava na Restinga, na periferia de Porto Alegre. A minissérie de três episódios Várzea: Onde o Futebol Nasce, do cineasta Alec Cutter trata de realidade e sonhos de meninos e times desconhecidos dos grotões da capital paulista. A série documental estreou na plataforma Netflix no dia 20 de junho. “Queria criar algo que mostrasse um outro lado do esporte”, argumentou o realizador ao The Football, com exclusividade.

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Durante os episódios, o espectador é apresentado à trajetória de equipes da periferia de São Paulo, como o MEC de Cidade Tiradentes, o Raça Ruim da Vila Matilde e o Milianos do Jardim Rosana. Com orçamento controlado, o diretor ofereceu o projeto para o streaming, que aprovou a ideia e assinou a produção. A luta agora é pela sequência de mais uma temporada. Cafu e Raphinha são dois dos personagens da história. “A ideia é apresentar mais clubes e jogadores incríveis que ainda não tivemos tempo de mostrar na primeira parte”, revela.

Histórias da várzea

Minissérie “Várzea: Onde o Futebol Nasce”, de Alec Cutter, estreou em 20 de junho no Netflix / Netflix

O diretor explica que a maior dificuldade para a produção da minissérie foi atravessar diversos bairros da cidade de São Paulo atrás de times e personagens do futebol não profissional. A várzea tinha muitas histórias. Ele tinha uma equipe técnica pequena e começou a produção sem nenhum distribuidor garantido. “Investi meu dinheiro no projeto – e eu também não tenho muito dinheiro para investir. Muitas vezes assumi funções como diretor, diretor de fotografia, produtor e várias outras”, conta.

Início na várzea

A minissérie também entrevistou alguns protagonistas da seleção brasileira que passaram pelo futebol de várzea. Em depoimento, Cafu relembra que foi recusado em nove peneiras. Já Raphinha falou sobre o seu pai, que atuou no clube varzeano do Monte Castelo e mostrou a camisa do Cobal, onde ele jogou antes de se tornar profissional. Raphinha nunca jogou no Brasil, mas é do Barcelona e da seleção. O cineasta destaca que através da conquista do capitão do penta muitos talentos perceberam até onde podem chegar na várzea. The Football conversou com Alec Cutter, diretor da minissérie Várzea: Onde o Futebol Nasce. Confira os principais momentos da entrevista.

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The Football: Como surgiu a ideia de fazer a minissérie sobre o futebol de várzea de São Paulo?

Alec Cutter: Há uma frase logo no começo da série que diz: “O futebol precisa resgatar sua alma. Aquele sentimento que o dinheiro não pode comprar.” Sempre senti que o futebol é o esporte do povo. E, apesar de eu amar o futebol profissional, queria criar algo que mostrasse o outro lado do futebol — aquele que é criado somente pela comunidade e para a comunidade.

Por que você optou por fazer a minissérie em três episódios?

Existem muito mais histórias para serem contadas, e espero que tenhamos mais oportunidades para contá-las no futuro. A Netflix foi uma parceira incrível e apostou nessa história tão única. Sentimos que, para esta primeira temporada, três episódios seriam uma ótima introdução a esse universo. Mas há muito mais para mostrar, e espero que possamos continuar contando essas histórias.

Jogador do Barcelona, Raphinha revela que seu primeiro time foi na Restinga, periferia de Porto Alegre / Netflix

Como você decidiu explorar times como o MEC de Cidade Tiradentes, o Asa da Vila Prudente e o Raça Ruim da Vila Matilde?

Tínhamos um orçamento extremamente limitado para a produção. Eu adoraria ter acompanhado ainda mais clubes incríveis ao longo da competição, mas simplesmente não tínhamos recursos ou equipe suficiente para isso. Muitas vezes éramos apenas duas ou três pessoas visitando esses bairros, tentando fazer o nosso melhor para contar as histórias dos jogadores e dos times.

Cada uma das equipes que acompanhamos tinha sua própria identidade e suas próprias histórias — assim como acontece com todos os clubes da várzea. Precisamos ser muito estratégicos sobre como utilizar a nossa equipe e orçamento limitados.

Também acompanhamos diversos jogadores e clubes que acabaram sendo eliminados logo na primeira partida. Infelizmente, com apenas três episódios, não tivemos tempo para desenvolver todas essas histórias. Por isso, tivemos de continuar acompanhando alguns times e deixar outros fora. Mas todos os clubes da várzea têm histórias únicas, e espero que possamos contar muitas delas no futuro.

O que mais te surpreendeu ao fazer a minissérie?

O que mais me surpreendeu foi o tamanho desse universo e o quanto ele continua crescendo. Existem torcedores de várzea que já não acompanham mais o futebol profissional e sentem sua conexão com o futebol exclusivamente através do clube do seu bairro. É impressionante ver essas pessoas, de certa forma, retomando o futebol e devolvendo-o ao povo.

Na sua opinião, qual é a importância desses clubes e do futebol de várzea na periferia de uma metrópole como São Paulo?

Acho que muitas pessoas dessas comunidades perderam a possibilidade de frequentar jogos do futebol profissional e encontraram essa conexão nos times de seus bairros. É muito bonito ver como toda a comunidade se reúne em torno desses times. Existem poucas coisas no mundo capazes de unir as pessoas como o futebol. E essas comunidades encontraram uma maneira própria de preservar essa conexão, esse sentimento de pertencimento e essa união através do esporte.

Torcida do MEC, Maranhão Esporte Clube, da Cidade Tiradentes, uma das equipes retratadas na produção / Netflix

Como surgiu a ideia de falar com ídolos consagrados que passaram pelo futebol de várzea como Cafu e Raphinha?

Sou extremamente grato ao Cafu e ao Raphinha por terem dedicado seu tempo a este projeto. Eu queria garantir que a história principal fosse sobre os personagens da várzea de hoje e suas jornadas dentro da Copa Pioneer. Mas senti que a história do Cafu, por exemplo, escrevendo “100% Jardim Irene” na Copa de 2002, era perfeita para o primeiro episódio, para mostrar ao público a trajetória que esses jogadores podem percorrer. Mostrar de onde eles vêm e, através da conquista de um título mundial pelo Cafu, até onde os talentos da várzea podem chegar.

Qual foi a maior dificuldade de fazer a série?

O trânsito de São Paulo! Estou brincando! Com uma equipe tão pequena, era extremamente difícil atravessar uma cidade tão grande e chegar até bairros tão distantes da periferia, dedicando o tempo necessário para contar cada história da forma que ela merecia. Além disso, começamos a produção sem qualquer distribuidor garantido. Investi meu próprio dinheiro no projeto — e eu também não tenho muito dinheiro! Assumi, sem remuneração, funções como diretor, diretor de fotografia, produtor e várias outras, para garantir que pudéssemos usar o máximo possível dos recursos para contratar pessoas talentosas e amigos próximos que ajudassem a tornar a série possível.

Eu me importava muito com todas as pessoas que confiaram em nós para contar suas histórias, e foi muito difícil encontrar uma distribuição para a série. Por isso, sou extremamente grato à Netflix por acreditar no projeto e fazer com que todo esse esforço valesse a pena para as comunidades retratadas na série.

Você tem mais projetos de documentário ou ficção sobre futebol?

Espero muito que consigamos fazer uma segunda temporada para contar ainda mais histórias da várzea e apresentar muitos dos clubes e jogadores incríveis que não tivemos tempo de mostrar nestes três episódios. Também trabalho com alguns jogadores profissionais, mas sempre com a intenção de criar histórias humanas, que mostram por que o futebol é um esporte tão bonito e tão especial.

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