A classificação continua confortável. A liderança permanece nas mãos do Palmeiras. Os números acumulados ao longo do Campeonato Brasileiro ainda oferecem argumentos suficientes para enxergar o time de Abel Ferreira como principal candidato ao título. O problema começa quando se olha menos para a tabela e mais para aquilo que aconteceu dentro de campo nos dois últimos compromissos, ambos após a Copa do Mundo, da equipe no Nubank Parque. Depois da derrota para o Atlético-MG (2 a 1), o Palmeiras voltou a deixar pontos pelo caminho no empate sem gols diante de sua torcida neste domingo, contra o Internacional.

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Somados os dois jogos, contra equipes que não brigam pelo título, o Palmeiras conquistou apenas um dos seis pontos possíveis. A queda não começou depois da Copa: ao somar os últimos cinco compromissos como mandante pelo Brasileiro, o Palmeiras venceu apenas um e somou apenas seis pontos dos 15 pontos disputados. Antes, venceu a lanterna Chapecoense, por 1 a 0, com um a menos desde o primeiro tempo, no jogo em que o rival perdeu um pênalti nos acréscimos do segundo tempo, e foram dois empates, ambos em 1 a 1, contra Cruzeiro e Santos.

Mais preocupante do que a matemática, porém, foi a repetição de uma dificuldade: novamente o líder encontrou pela frente um adversário bem organizado sem a bola, disposto a reduzir espaços, encurtar o campo e entregar ao Palmeiras a obrigação de encontrar caminhos. E novamente encontrou poucos.
Palmeiras Maurício e Maripán
Maurício sofre com a marcação de Maripán; Verdão esbarra no Inter e acende o alerta para a Libertadores / Palmeiras

Palmeiras amarrado

Contra o Inter, o roteiro deixou uma sensação incômoda. O Palmeiras teve a iniciativa que naturalmente se espera de quem joga em casa e ocupa a primeira colocação, mas passou boa parte da partida circulando a bola sem conseguir transformar a posse em superioridade real. A marcação colorada fechou espaços entre as linhas, diminuiu a possibilidade de aceleração por dentro e empurrou o ataque palmeirense para ações previsíveis.

Faltaram movimentos capazes de desmontar essa estrutura. Trocas rápidas de posição, infiltrações, tabelas curtas, jogadores atacando as costas da defesa. O Palmeiras teve a bola, mas nem sempre soube o que fazer com ela. Quando o adversário recusou um jogo aberto e ofereceu paciência como desafio, o time de Abel Ferreira também perdeu parte de sua agressividade. Além disso, o Colorado, que luta contra o rebaixamento, usou e abusou da cera para esfriar a partida. Tanto que os jogadores comemoraram o empate como se fosse uma vitória.

A situação não chega a ser novidade. Na derrota por 2 a 1 para o Atlético-MG, em 26 de julho, o Palmeiras já havia enfrentado obstáculo semelhante. Naquela ocasião, chegou perto de 70% de posse no primeiro tempo e conseguiu construir até as proximidades da área, mas teve enorme dificuldade para penetrar na última linha atleticana. O domínio territorial não virou domínio do placar.

Defeitos repetidos

Houve, evidentemente, circunstâncias diferentes. Contra o Galo, uma falha do goleiro Carlos Miguel teve peso decisivo para mudar o rumo da partida, com o gol de Victor Hugo, e o Palmeiras chegou a buscar o empate, com Felipe Anderson, antes de sofrer o segundo gol, de Igor Gomes. Ainda assim, por trás dos episódios individuais havia uma questão coletiva que reapareceu diante do Internacional: como atacar equipes que não oferecem campo para transições e preferem esperar?

É uma pergunta especialmente relevante porque o Palmeiras de Abel sempre se sentiu confortável em partidas de outra natureza. Quando encontra espaço para acelerar, atacar em velocidade e explorar erros do adversário, tem jogadores capazes de transformar poucos segundos em uma chegada perigosa. Foi também por isso que o desempenho longe de casa apareceu de maneira tão distinta recentemente, com a goleada por 4 a 0 sobre o Vitória, fora de casa, pela Série A, e o triunfo diante do Fortaleza, por 3 a 0, em casa, em confronto de ida pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

O problema surge quando o rival entrega a bola, recua e praticamente diz: ‘venha nos desmontar’. Atlético-MG e Internacional, cada um à sua maneira, fizeram esse convite. E o Palmeiras respondeu com pouca criatividade. Seria exagero transformar dois tropeços em crise. O próprio Brasileiro impede uma leitura tão dramática. O Palmeiras começou a rodada com 47 pontos em 21 partidas, oito à frente do Flamengo, que tinha um jogo a menos, além do melhor ataque e da melhor defesa da competição naquele momento. Uma campanha desse tamanho não desaparece por causa de duas atuações abaixo da expectativa.

Palmeiras John Arias
John Arias arranca para tentar se livrar de Bruno Gomes; colombiano não deu nenhuma finalização com perigo / Palmeiras

Lição do Cerro Porteño

Mas uma vantagem confortável também pode esconder defeitos. E o calendário decidiu colocar esse problema imediatamente à prova. Na quarta-feira, o Palmeiras recebe o Cerro Porteño, às 19h (horário de Brasília), pela partida de ida das oitavas de final da Libertadores. A volta será uma semana depois, em Assunção. Em uma eliminatória desse tamanho, fazer valer o mando de campo deixa de ser apenas uma vantagem desejável e passa a ter enorme peso estratégico.

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O Cerro, que usou esta estratégia e venceu o Palmeiras pela fase de grupos, deve repetir a dose como um manual de sobrevivência: compactar setores, negar espaços, suportar períodos de pressão e obrigar o time brasileiro a construir pacientemente contra uma defesa posicionada. É aí que o empate com o Internacional deixa de ser apenas mais dois pontos desperdiçados no Brasileiro. O Palmeiras ainda lidera, ainda tem margem e continua dono de uma das campanhas mais consistentes do campeonato. Mas perdeu a imposição que vinha transformando seus jogos como mandante em uma das bases dessa vantagem.

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