A Copa do Mundo de 2006 permanece viva na memória como o último grande capítulo de uma era essencialmente romântica do futebol internacional. Sediada por uma Alemanha que se despiu de sua tradicional rigidez política para abraçar os visitantes com o lema oficial “O mundo entre amigos”, a 18ª edição do torneio da Fifa ofereceu uma atmosfera quase lírica ao futebol.
Pelas ruas do país e em arenas modernas completamente lotadas, o planeta assistiu o desfile de uma geração espetacular de craques consagrados dividindo o gramado com jovens prodígios que logo herdariam o topo do esporte. Andrea Pirlo, Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Michael Ballack, Lionel Messi, Hernán Crespo, Schweinsteiger, Steven Gerrard, Franck Ribéry, Juan Román Riquelme… todos estavam lá.

Só que, longe de ser apenas uma festa de gols e jogadas bonitas, lances de habilidade e talento, aquela edição consagrou o pragmatismo e a força defensiva como as chaves definitivas para a imortalidade. A Itália que o diga. O Brasil, ainda mais.
O silêncio do ‘quadrado mágico’
Para a seleção brasileira, o Mundial de 2006 evoca uma sensação agridoce, mistura de deslumbramento e melancolia. A delegação desembarcou na Europa cercada por uma aura de invencibilidade poucas vezes vista. Sob a batuta de Carlos Alberto Parreira e detentor da coroa de campeão de 2002, o país apresentou uma combinação de craques que ficou conhecida como “quadrado mágico”. O Brasil dava a impressão de que iria novamente varrer a Europa.
Havia no time um quarteto ofensivo dos sonhos, composto por Ronaldinho Gaúcho no auge de sua magia no Barcelona, Kaká em sua versão mais vertical e veloz, além dos artilheiros letais Ronaldo Fenômeno e Adriano Imperador. Era muito talento junto. O hexacampeonato parecia um destino manifesto, uma mera formalidade a ser cumprida ao final das sete partidas obrigatórias para chegar à taça.

Só que há uma verdade no futebol: a bola pune a desconexão. A engrenagem brasileira, pesada e descompassada sem a posse de bola, foi se arrastando em exibições burocráticas contra Croácia, Austrália, Japão e Gana. Um indício de que as linhas do quadrado estavam tortas. Como se previu, não deu certo. Faltou o principal: concentração no trabalho. A seleção brasileira era uma festa antes mesmo da estreia.
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O martelo pesado da realidade ocorreu nas quartas de final, diante de uma França envelhecida, mas liderada por um Zinedine Zidane tão fantástico que virou até adjetivo. Em Frankfurt, o camisa 10 francês regeu uma ópera em campo, dominou o meio e encontrou Thierry Henry no gol que decretou o placar de 1 a 0. O quadrado mágico de estrelas, que no fim das contas só existiu no papel, desmoronou diante dos olhos de todos, expondo a fragilidade de um grupo brilhante em nomes, mas pobre em alma coletiva.
A consagração da solidez italiana
Com a queda precoce dos sul-americanos, a Europa transformou o campo de jogo em um tabuleiro estratégico. A grande decisão, em Berlim, reservou um dos roteiros mais teatrais da história dos Mundiais. O confronto entre França e Itália começou com uma apoteose e terminou com uma tragédia grega de Zidane, que abriu o placar com uma cavadinha audaciosa de pênalti em Buffon, mas viu o zagueiro Marco Materazzi empatar o duelo na bola parada.
Na prorrogação, houve um rompante de fúria do gênio francês que gerou a imagem mais marcante daquela Copa. E não tinha nada a ver com futebol. Provocado, o camisa 10 francês deu uma cabeçada violenta no peito de Materazzi, que se jogou no chão igualmente de forma cinematográfica. Resultado: Zidane recebeu o cartão vermelho naquele que foi o seu último jogo da carreira. Aos 34 anos, ele decidiu pendurar as chuteiras após a competição.

Ele lamentaria em dobro por perder a cabeça. O duelo seguiu para os pênaltis e a Itália exibiu a frieza que moldou toda a sua identidade naquela campanha e venceu por 5 a 3. O título que selou o tetracampeonato premiou a fortaleza defensiva da Azzurra de Marcello Lippi, que sofreu meros dois gols na competição. Tanto que o líder da defesa italiana, Fabio Cannavaro, receberia a Bola de Ouro seguinte, a primeira dada a um zagueiro, muito condicionado à exibição em solo alemão.





