A Copa do Mundo de 1990 costuma ser lembrada pelo que teve de áspero. Foi um torneio de poucos gols, muitos cartões, partidas amarradas e decisões resolvidas no limite do detalhe. A memória popular guardou o torneio com sede na Itália como muito dura, quase árida, em que o medo frequentemente venceu a ousadia. Mas talvez seja aí que esteja sua importância histórica. A 14ª edição do Mundial não foi bonita no sentido clássico. Foi reveladora. Mostrou um futebol em transformação, cada vez mais físico, mais tático, mais fechado, menos disposto a conceder espaço ao improviso.
A Itália recebeu o torneio cercada de expectativa. Havia um país inteiro embalado por uma atmosfera quase operística, com estádios reformados, arquibancadas vibrantes e a sensação de que a Azzurra tinha todos os elementos para transformar o verão italiano em consagração. A equipe de Azeglio Vicini era sólida, talentosa e emocionalmente conectada com o ambiente.
Salvatore Toto Schillaci
Tinha Walter Zenga no gol, uma defesa confiável, jogadores de meio-campo com leitura de jogo e atacantes capazes de decidir. Mas o rosto daquela campanha não estava previsto no roteiro original. Surgiu do banco, com olhos arregalados, fome de protagonista e faro de gol: Salvatore ‘Toto’ Schillaci.

Copa dos iluminados
O centroavante foi o personagem improvável que toda Copa precisa para virar narrativa. Começou como alternativa, entrou contra a Áustria, marcou, e dali em diante passou a carregar algo que ultrapassava a bola. Cada gol seu parecia incendiar o país. A Itália foi avançando sem sofrer gols, alimentando a crença de que aquela campanha tinha destino marcado. Schillaci fez seis gols, terminou como artilheiro e virou símbolo de um Mundial que, para os italianos, parecia caminhar para a apoteose. Até que apareceu a Argentina.
E apareceu, sobretudo, Diego Armando Maradona. Não o Maradona absoluto de 1986, capaz de submeter o torneio inteiro à sua vontade. Em 1990, ele já jogava condicionado por dores, marcações severas e por uma Argentina inferior tecnicamente àquela do México. Mas Maradona nunca foi apenas desempenho. Era presença, ameaça, comando psicológico. A Argentina de Carlos Bilardo não encantava; resistia. Foi derrotada por Camarões na abertura, sofreu durante a fase de grupos, avançou aos trancos e se apoiou em uma mistura de sobrevivência, experiência e oportunismo.
Deus Diego contra a Itália
A semifinal contra a Itália, em Nápoles, foi um dos grandes capítulos emocionais da história das Copas. Schillaci abriu o placar e manteve viva a fantasia da final em Roma. Mas Caniggia empatou de cabeça no segundo tempo, encerrando a invencibilidade de Zenga. A partir dali, o jogo virou uma disputa de nervos. Nos pênaltis, Sergio Goycochea, que já havia sido decisivo contra a Iugoslávia, voltou a ser gigante. A Itália, dona da casa, caiu. E caiu diante da Argentina de Maradona, em uma cidade que o tratava como divindade. Havia ali uma crueldade poética: Nápoles amava Diego, mas naquela noite esse amor custou caro ao sonho italiano.
Uns jogam, outros vencem
A campeã, no entanto, foi a Alemanha, aliás tricampeã, igualando-se ao Brasil. E a conquista alemã não nasceu de acidente, sorte ou inspiração isolada. Nasceu de uma seleção madura, consciente de suas virtudes e de seus limites. Franz Beckenbauer comandava de fora do campo um time pronto, com liderança, força, variação ofensiva e capacidade competitiva. Lothar Matthäus era o coração e o cérebro da equipe. Andreas Brehme dava qualidade pelos lados. Jürgen Klinsmann e Rudi Völler ofereciam agressividade, profundidade e incômodo permanente às defesas adversárias.
A estreia alemã, com vitória por 4 a 1 sobre a Iugoslávia, já funcionou como aviso. Aquela seleção não estava na Itália apenas para competir. Estava para cobrar a dívida de 1986, quando perdera a final para a Argentina no México. A Alemanha Ocidental fez uma campanha firme, superou obstáculos difíceis e chegou à decisão com mais futebol acumulado do que a rival. A final, em Roma, foi uma partida compatível com o espírito do torneio: tensa, truncada, pouco generosa com a beleza.

A Argentina entrou em campo desfalcada, cansada e com Maradona longe de sua melhor condição física. Caniggia, autor do gol que eliminara o Brasil e do empate contra a Itália, estava suspenso. Sem ele, a equipe perdeu sua melhor válvula de escape. A Alemanha teve mais iniciativa, ocupou o campo ofensivo e procurou o gol com mais constância. Ainda assim, tudo parecia caminhar para mais uma decisão de nervos. Até que, aos 40 minutos do segundo tempo, o árbitro marcou pênalti em lance envolvendo Völler. Brehme cobrou com frieza e fez o gol do título. A Alemanha venceu por 1 a 0 e se tornou tricampeã mundial.
O detalhe histórico é poderoso: aquela foi a última Copa da Alemanha Ocidental antes da reunificação do país. A imagem de Beckenbauer caminhando sozinho pelo gramado depois da final virou uma espécie de retrato de época. A Alemanha encerrava um ciclo político e esportivo com uma taça. Em 1974, Beckenbauer havia sido o capitão campeão. Em 1990, tornou-se campeão como técnico. Poucos personagens sintetizam tão bem a grandeza alemã em Copas quanto ele.
Camarões encanta, Brasil fracassa
Mas Itália-90 também foi o Mundial de Camarões. Logo na abertura, os africanos derrotaram a Argentina por 1 a 0 e anunciaram que aquela Copa teria espaço para rupturas. Roger Milla, aos 38 anos, saiu do banco para marcar gols, dançar perto da bandeirinha e transformar uma seleção vista como coadjuvante em sensação planetária. Camarões chegou às quartas de final, caiu diante da Inglaterra na prorrogação, mas deixou uma marca que ultrapassou o placar. Pela primeira vez, uma seleção africana chegava tão longe em uma Copa. O mapa simbólico do futebol começava a se alargar.
Para o Brasil, porém, a Copa de 1990 deixou menos encanto e mais cicatriz. A seleção comandada por Sebastião Lazaroni chegou à Itália carregando uma crise de conceito. Depois das eliminações dolorosas de 1982 e 1986, o futebol brasileiro parecia convencido de que precisava se proteger de si mesmo. A solução encontrada foi tentar importar uma ideia de modernidade baseada em cautela, marcação, força e estrutura defensiva. O sistema com três zagueiros virou a face mais visível dessa tentativa.
O problema não estava apenas no desenho tático. O problema era a sensação de que o Brasil jogava contra sua própria natureza. Havia bons jogadores: Taffarel, Jorginho, Ricardo Gomes, Branco, Dunga, Alemão, Valdo, Careca, Muller, Bebeto e Romário. Não faltava talento individual. Faltava convicção coletiva. A seleção venceu os três jogos da primeira fase, contra Suécia, Costa Rica e Escócia, mas não convenceu. Passou com aproveitamento perfeito e futebol incompleto. O resultado escondia o incômodo; não o eliminava.

Na malandragem de Diego
Nas oitavas, contra a Argentina, o Brasil fez sua melhor partida na Copa. Criou chances, acertou a trave, pressionou, empurrou o rival para trás e deu a impressão de que a classificação era uma questão de tempo. A Argentina parecia acuada. Maradona era vigiado, caçado, comprimido. Caniggia mal aparecia. O Brasil dominava o jogo, mas não transformava domínio em sentença. E Copa do Mundo costuma ser implacável com quem perdoa.
Aos 35 minutos do segundo tempo, Maradona encontrou a fresta que ninguém mais via. Recebeu pelo meio, carregou a bola cercado, atraiu marcadores e entregou o passe no ponto exato para Caniggia. O atacante avançou, driblou Taffarel e tocou para o gol vazio. Foi uma jogada de poucos segundos, mas de consequência gigantesca. O Brasil caiu diante de um lance que misturou malandragem, genialidade e frieza. A Argentina passou. A seleção brasileira voltou para casa tentando entender como uma partida controlada pôde escapar tão tarde e de forma tão cruel.
Há ainda a famosa polêmica da água oferecida a Branco, episódio que atravessou décadas entre relatos, acusações e versões desencontradas. Ela faz parte do folclore daquele clássico e ajuda a compor a aura de provocação que sempre cercou Brasil x Argentina. Mas não pode ser usada como explicação única. O Brasil perdeu porque não resolveu o jogo quando teve chances. Perdeu porque sua tentativa de ser moderno resultou em uma equipe travada entre dois mundos. Não era o Brasil criativo de outros tempos, nem uma seleção pragmática com a eficiência alemã.
Copa de 1990 em fatos
Por isso, a Copa de 1990 precisa ser lida como uma Copa de lições. Para a Alemanha, foi consagração. A Itália viveu uma frustração. Para a Argentina, resistência. Camarões, a descoberta. Para o Brasil, advertência. A derrota em Turim mostrou que organização é indispensável, mas não pode significar renúncia. Quatro anos depois, nos Estados Unidos, o Brasil seria campeão com uma seleção também pragmática, porém sustentada por uma diferença decisiva: Romário. Em 1994, havia sistema, mas havia também um gênio autorizado a decidir.

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A Itália-90 talvez não tenha sido a Copa mais bela. Mas foi uma das mais reveladoras. Ensinou que o futebol estava mudando, que o talento precisava sobreviver em espaços menores e que o medo podia levar longe, mas nem sempre à glória. A Alemanha soube vencer esse jogo. A Itália tropeçou no próprio sonho. A Argentina sobreviveu enquanto Maradona teve forças para inventar. E o Brasil, naquele lance entre Maradona e Caniggia, percebeu que tinha perdido mais do que uma partida. Tinha perdido, por um momento, a clareza sobre quem queria ser.





