A equipe concebida pelo técnico Luiz Felipe Scolari, a última seleção brasileira a conquistar uma Copa do Mundo da Fifa, em junho de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, foi resultado de uma combinação de acaso e perseverança. Quase um ano antes, quando o treinador gaúcho foi contratado para dirigir a equipe, o Brasil estava literalmente por baixo. Após a derrota para a França, na final do Mundial anterior, em 1998, o Brasil não se acertava. Antes de Scolari, o Brasil tinha sido treinado por técnicos com abordagens diferentes, como Wanderley Luxemburgo e Emerson Leão, mas não se acertava.

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Nesse ciclo, o Brasil perdeu para a fraca seleção de Honduras, na Copa América, e fez a pior campanha da história nas Eliminatórias da Conmebol: perdeu pontos para oito dos nove adversários, incluindo derrotas para Paraguai, Chile, Equador, Uruguai, Argentina e Bolívia. A disputa por uma vaga no Mundial de 2002, na repescagem contra a Austrália, parecia iminente.

Copa de 2002: Com 100% de aproveitamento, seleção brasileira festeja a conquista do pentacampeonato.
Com 100% de aproveitamento, seleção brasileira festeja a conquista do pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002 / Fifa

Vaga no sufoco

A classificação acabou vindo em cima da hora, na última rodada, em São Luís, no Maranhão, com uma vitória por 3 a 0 contra a Venezuela. Foi em uma noite em que o centroavante Luizão, recuperado de uma lesão, entrou em campo e fez dois gols. O outro foi de Rivaldo, justamente o mais criticado do time. Não bastasse a maré de azar que enfrentava, naquela altura, ao tratar lesões no tornozelo e em um ligamento do joelho direito, o então jogador do Barcelona era alvo de críticas. Motivo: era considerado “fominha”. Ronaldo, cotado para ser o outro atacante do time, também era uma aposta criticada: naquela altura, muitos torcedores preferiam que Romário vestisse a camisa 9 e não entendiam a insistência de Scolari com um atacante que tinha passado mais tempo em sessões de fisioterapia do que em campo.

Engrenagem dos ‘três Rs’

Mas Scolari tinha um plano — e ele girava em torno dos ‘três Rs’: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. E construiu a sua equipe em torno dos seus três craques. Isso ficou ainda mais claro quando o técnico decidiu romper com Romário, após a derrota para o Uruguai, em Montevidéu. Apesar de Ronaldo e Rivaldo estarem se recuperando de lesões, ele e os demais membros da comissão técnica bancaram que valia a pena apostar no trio de craques.

A situação de Ronaldo era a mais grave. Em novembro de 1999, quando atuava pela Internazionale, Ronaldo sofreu uma grave lesão no joelho direito. O caso se agravaria em abril de 2000, no retorno aos gramados, quando voltou a romper o tendão patelar da perna direita. No entanto, o departamento médico da CBF e Felipão achavam que valia a pena persistir com o jogador. “O doutor José Luís Runco examinou o Ronaldo e me assegurou que ele poderia jogar, se necessário”, me disse Luiz Felipe Scolari, em uma entrevista. “E Cúper, que era o seu técnico na Inter, me disse que, mesmo com 70% de sua capacidade física, ele era o melhor do time.”

Algo semelhante ocorreu com Rivaldo, que também voltava de uma fase de lesões. O terceiro “R” do ataque daquela seleção, Ronaldinho Gaúcho, sempre esteve nos planos. Em 2002, a ideia de Scolari era que eles pudessem se movimentar livremente pelo campo, usando o talento que tinham para combinar jogadas à vontade. No comando do ataque, Ronaldo foi bancado como titular; Luizão ficou como alternativa importante, depois de ter sido decisivo na classificação.

Se o ataque estava definido, desde que os “três Rs” estivessem em forma, o restante da seleção brasileira que participou da Copa do Mundo de 2002 só foi definido nos últimos amistosos antes do torneio. Contudo, tão crucial quanto os jogadores selecionados para entrar em campo foram o comprometimento do grupo e a organização daquela equipe dentro de campo. “Aprendemos a ter consistência defensiva, mantendo nosso talento individual”, me disse Scolari.

Com faro de artilheiro e o cabelo ´Cascão’, Ronaldo se consagra com dois gols na final contra a Alemanha / Reprodução

Brasil se molda e deslancha

Isso demandou uma mudança tática que nunca havia sido vista na seleção: como os laterais Cafu e Roberto Carlos frequentemente apoiavam o ataque, para resguardar o gol defendido por Marcos, Felipão montou uma linha de defesa com três zagueiros. Essa ideia era inspirada em um conceito que o técnico argentino Marcelo Bielsa aplicava na seleção de seu país: ele também precisava fechar os espaços deixados pelos avanços dos laterais Zanetti e Sorín. Por meio de uma conversa de Scolari com seu amigo Geninho, que, então, dirigia o Athletico Paranaense, o esquema ficou redondo com Roque Júnior e Lúcio jogando mais próximos de Edmílson.

E, para tornar sua equipe ainda mais protegida, nos últimos amistosos antes da estreia no Mundial de 2002, em Ulsan, na Coreia do Sul, utilizou dois volantes: Gilberto Silva, do Atlético Mineiro, e Emerson, da Roma. O destino quis que Emerson se machucasse um dia antes da estreia do Brasil contra a Turquia, em Ulsan. Ele participava de uma pelada para descontrair o clima entre os jogadores, atuando como goleiro, quando, ao tentar defender um chute de Rivaldo, caiu de mau jeito — e bateu o ombro direito com força no chão. Com a lesão de Emerson, Ricardinho foi chamado para completar o grupo. Dentro de campo, Juninho Paulista começou a Copa como titular ao lado de Gilberto Silva, mas Kléberson ganhou espaço durante o torneio e virou titular a partir das quartas de final, contra a Inglaterra.

Copa de 2002 dos sonhos

Na sua estreia, o Brasil venceu a complicada Turquia, revertendo o resultado com gols de Ronaldo e Rivaldo, que ainda provocou a expulsão de Hakan Ünsal quando os turcos ensaiavam uma reação. No segundo confronto daquela Copa, em Jeju, houve goleada por 4 a 0 sobre a China, com cada um dos “3 Rs” anotando um gol. Para concluir a fase de grupos, vitória brasileira por 5 a 2 sobre a Costa Rica. E assim, enquanto os favoritos Argentina e França eram eliminados após três rodadas, o Brasil seguiu para o mata-mata.

No duelo das oitavas de final contra a Bélgica, em Kobe, o Brasil teve um susto: aos 35 minutos do primeiro tempo, o atacante Wilmots, estrela dos belgas, mandou a bola para as redes em uma cabeçada certeira, mas o gol foi anulado por uma falta considerada discutível sobre Roque Júnior. No segundo tempo, Rivaldo e Ronaldo marcaram. Houve mais sufoco na fase seguinte, contra a Inglaterra, nas quartas de final. Novamente, o Brasil saiu em desvantagem. O zagueiro Lúcio falhou justamente na frente do atacante Michael Owen, que abriu o placar para os ingleses aos 23 minutos de jogo. Contudo, naquela tarde, uma atuação inspirada de Ronaldinho Gaúcho salvaria a seleção brasileira.

No final do primeiro tempo, ele driblou a defesa da Inglaterra e tocou para Rivaldo empatar. E, aos cinco minutos do segundo tempo, marcou um dos gols mais espetaculares dos Mundiais da Fifa: em uma cobrança de falta na intermediária, conseguiu encobrir o goleiro Seaman. Sete minutos depois, o camisa 11 cometeu uma falta violenta no lateral Mills — e foi expulso. Mas não fez diferença: ele tinha inscrito seu nome na história.

Copa de 2002 Capitão do penta, o lateral direito Cafu beija a taça na cerimônia do título da seleção brasileira após a vitória sobre a Alemanha na final
Capitão do penta, o lateral direito Cafu beija a taça na cerimônia do título da seleção brasileira na Copa de 2002 / Fifa

Enfim, o penta

Nos dois últimos jogos, Ronaldo foi o protagonista. Primeiro, pelo seu corte de cabelo para lá de inusitado, inspirado em Cascão, o personagem dos quadrinhos. Depois, pelos gols decisivos que marcou. Na revanche contra os turcos, em Saitama, marcou um salvador e sutil gol de biquinho, sem chances para o goleiro Rustu. Na final, em Yokohama, enfrentando a Alemanha, que jogava sem Ballack, seu melhor jogador, mais uma vez os três craques brasileiros fizeram a diferença. Aos 22 minutos do segundo tempo, Ronaldo passou para Rivaldo, que chutou com força da entrada da área: Oliver Kahn, o goleiro alemão, bateu roupa e soltou a bola para o camisa 9 emendar de pé direito. Brasil 1 a 0! 

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Doze minutos depois, Kleberson deu um passe para Rivaldo, na meia-lua da área adversária. Genial, o camisa 10 brasileiro deixou a bola passar por entre as suas pernas, permitindo que ela chegasse até Ronaldo, que estava desmarcado. Com frieza, ele dominou e finalizou de perna direita, mais uma vez, sem chances para Kahn. Nascida do encontro entre acaso, sorte e genialidade, essa improvável seleção bolada por Scolari conquistou a sua sétima vitória e, de quebra, o quinto título mundial brasileiro. Até hoje, nenhuma outra equipe conseguiu repetir esse feito.

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