A Coreia do Sul começou a Copa como quem entende que uma estreia pode mudar o peso de um grupo inteiro. No segundo jogo do Mundial, contra a República Tcheca, a seleção asiática teve de lidar com o roteiro mais traiçoeiro possível: jogou melhor durante boa parte da partida, saiu atrás no placar e precisou provar, logo de cara, que havia maturidade para não confundir urgência com desespero e venceu, por 2 a 1, de virada, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, no México.

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Com uma reação construída no controle emocional e decidida pelos pés de Hwang In-beom, a Coreia do Sul largou no Grupo A com três pontos que valem mais do que a simples matemática da tabela. Foi a quarta vitória de virada dos sul-coreanos em Copas do Mundo. Foi também o fim de um incômodo jejum: a Coreia não vencia uma estreia desde 2010, quando bateu a Grécia por 2 a 0, na África do Sul, com gols de Lee Jung-soo e Park Ji-sung.

Coreia do Sul autor do primeiro gol
Após a frieza no gol de empate, Hwang In-beom corre em direção dos companheiros na festa do gol de empate / Thekfa

Coreia do Sul incansável

Dezesseis anos depois, a nova geração coreana voltou a abrir uma Copa com vitória. E fez isso em uma noite que teve Son Heung-min como símbolo, mas Hwang In-beom como personagem principal.

O jogo começou com a Coreia mais confortável com a bola. Sem transformar a posse em domínio absoluto, a equipe asiática mostrava mais fluidez no meio-campo e mais facilidade para fazer a bola chegar ao ataque. Hwang se movia bem entre as linhas, Paik Seung-ho ajudava na circulação e Lee Kang-in procurava acelerar quando encontrava espaço. Son, naturalmente, era o ponto de referência ofensivo, atraindo marcação e tentando aparecer nas costas da defesa tcheca.

A República Tcheca, de volta à Copa depois de duas décadas, apresentou um desenho mais previsível, mas perigoso dentro daquilo que sabe fazer. Um time físico, de imposição, apoiado na bola aérea, no jogo direto e na presença de atletas acostumados a duelos de força. Durante o primeiro tempo, os tchecos sofreram para controlar a movimentação coreana, mas conseguiram impedir que a superioridade adversária virasse vantagem no placar.

Quem não faz, leva

A estreia, então, foi para o intervalo com uma sensação dupla. A Coreia tinha sido melhor. A Tchéquia seguia viva. E em Copa do Mundo, essa combinação costuma cobrar caro. Cobrou aos 14 minutos. Em uma jogada que expôs justamente a virtude mais evidente da seleção europeia, Ladislav Krejci apareceu para colocar a Tchéquia em vantagem. O gol caiu como um teste de nervos para os coreanos. Até aquele momento, o time de Hong Myung-bo havia construído mais, atacado melhor e passado a impressão de estar mais perto de marcar. De repente, estava atrás.

É aí que a partida começou a revelar seu verdadeiro conteúdo. A Coreia não se desmontou. Não aceitou o golpe como sentença. Também não se lançou ao ataque de maneira caótica, como tantas seleções fazem em estreias quando o relógio começa a apertar. O time manteve a estrutura, continuou procurando Hwang por dentro e encontrou no seu camisa de meio-campo o equilíbrio necessário entre organização e agressividade.

O empate veio aos 22 minutos. Hwang In-beom recebeu pelo lado esquerdo, entrou na área com decisão, deu belo drible, que enganou três adversário, e finalizou com frieza para fazer 1 a 1. O gol não foi apenas uma resposta rápida; foi a confirmação de que a Coreia tinha encontrado o jogador capaz de ordenar a reação. Hwang já era um dos melhores em campo pela leitura dos espaços e pela capacidade de acelerar a circulação. Depois do empate, passou a ser também o dono emocional do jogo.

O dono da noite

A virada nasceu pouco depois de uma troca importante. Son deixou o campo, e Oh Hyeon-gyu entrou para dar outra presença ao ataque. A substituição não diminuiu a Coreia. Pelo contrário. Tirou parte do peso simbólico concentrado em Son e abriu caminho para um protagonista inesperado no lance decisivo. Aos 35 minutos, Hwang voltou a aparecer. Desta vez, como garçom, no cruzamento pela ponta direita, ele encontrou Oh em condição de finalizar, e o atacante fez o gol da virada. Em pouco mais de dez minutos, a Coreia tinha transformado uma derrota parcial em uma estreia de força. Hwang In-beom, autor do empate e da assistência para o gol decisivo, foi eleito o jogador da partida. Com justiça.

A vitória entra em uma linhagem específica da história sul-coreana em Copas. Antes desta noite, a Coreia havia vencido de virada três vezes em Mundiais. A mais famosa segue sendo contra a Itália, em 2002, nas oitavas de final, quando a equipe anfitriã saiu atrás, empatou no fim do tempo normal e venceu com o gol de ouro de Ahn Jung-hwan. Em 2006, contra Togo, repetiu a dose: sofreu o primeiro gol, reagiu e venceu por 2 a 1. Em 2022, no Catar, viveu outra noite de dramaticidade, ao virar sobre Portugal por 2 a 1, com gol de Hwang Hee-chan nos acréscimos, resultado que levou os coreanos às oitavas.

Agora, a virada contra a Tchéquia vira o quarto capítulo dessa coleção. Não teve o peso épico da Itália em 2002 nem o drama de sobrevivência contra Portugal em 2022, mas teve algo talvez mais importante para o início de campanha: autoridade. A Coreia mostrou que sabe sofrer sem perder o plano de jogo.

Coreia do Sul lance do primeiro tempo
Decisivo no segundo tempo, Kang-in Lee deu a assistência do gol de empate, anotado por Hwang In-beom / Thekfa

Vitória do plano de jogo

Esse é o ponto central da estreia. O placar é relevante, mas a forma como ele foi construído talvez diga mais. A Coreia não dependeu de um abafa final, de uma bola quebrada, de uma reação emocional sem método. Ao contrário. A equipe se manteve fiel ao que fazia melhor: mobilidade no meio, aproximação rápida, pressão pós-perda e busca por infiltrações quando a defesa tcheca começava a correr para trás.

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Para a República Tcheca, a derrota tem um gosto especialmente amargo. Abrir o placar em uma estreia de Copa e sair sem ponto algum é um golpe duro, sobretudo em um grupo no qual cada detalhe pode pesar. A equipe europeia mostrou que sua bola aérea pode machucar qualquer adversário, mas também deixou dúvidas sobre a capacidade de controlar partidas quando é pressionada em velocidade. Depois do empate, a Tchéquia passou a defender em recuo, perdeu presença no meio-campo e permitiu que a Coreia ocupasse os espaços mais perigosos.

 

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