Se o futebol fosse um jogo explicado simplesmente pelo critério da justiça, nem Corinthians nem Botafogo teriam muito do que reclamar do empate em 2 a 2. O duelo teve tanto equilíbrio, tantas alternâncias de controle e de estados de espírito, que seria quase cruel arrancar um vencedor desse roteiro. Mas é aí que mora a tragédia corintiana do domingo: o empate, justo, soou injusto para quem saiu na frente no placar.
O Corinthians foi soberano no primeiro tempo. Aos 6 minutos, Raniele abriu o placar após uma falha bisonha de Léo Linck na saída de bola. A partir daí, a impressão era de que o Timão construiria a vitória com relativa tranquilidade. Houve criação, agressividade e até certa sensação de reencontro com a própria identidade. O oitavo lugar — e com ele o direito de sonhar com a pré-Libertadores dependendo apenas das próprias forças — parecia um degrau simples de subir.

Mas veio o segundo tempo. Ou melhor, veio o Botafogo — porque o Corinthians mesmo não voltou do vestiário. Em poucos minutos, todos os papéis da partida foram invertidos: domínio territorial alvinegro, ações ofensivas coordenadas, uma bússola que girou por completo. O que antes era patrimônio do time da casa virou propriedade exclusiva do visitante. E, à beira do campo, Dorival Júnior assistia à transformação com uma passividade que irritava a arquibancada.
Gol de Gustavo Henrique
O empate veio com Cuiabano, explorando um vazio às costas de Matheusinho. A virada, com um golaço de Barreira, de meia-bicicleta, indefensável para Hugo. Em questão de instantes, o Corinthians entrou em parafuso. A tarde, que parecia ser de afirmação, virou um drama que se repetiu ao longo de toda temporada. O jogo parecia decidido, mas o resultado se esvaiu diante de velhos e repetidos erros.

Mas o futebol, tão cruel quanto generoso, guardava ainda um sopro final. Num lance de individualidade de Vitinho pela direita, o Corinthians arrancou o empate no apagar das luzes: Gustavo Henrique recebeu um cruzamento açucarado dentro da pequena área e completou para o gol. Tecnicamente, o placar voltava a refletir o conjunto da obra. Emocionalmente, porém, era derrota.
Dois pontos perdidos
“Não ganhamos um ponto. A sensação que fica hoje é de que perdemos dois”, disse Gustavo Henrique, numa síntese perfeita do sentimento coletivo da Fiel. E havia razão em cada sílaba. Mesmo mostrando garra para correr atrás do empate, o Corinthians perdeu a oportunidade de se impor, de consolidar uma vaga no G-8 e de assumir o controle do próprio destino. Agora já não é mais assim: será preciso vencer e fazer contas nas duas rodadas finais.
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A isso se soma um dilema inevitável. Livre do rebaixamento — num ano de instabilidade, tropeços e um futebol que raramente se encontrou —, o clube precisa definir sua prioridade. O foco tende a migrar para a Copa do Brasil, onde enfrentará o Cruzeiro nas semifinais. Memphis foi poupado hoje. Garro deve ser preservado contra o Fortaleza. A partir daqui, tudo indica planejamento específico para os jogos que podem salvar a temporada.
Porque, no Brasileirão, a chance de fazer do campeonato sua peça de resistência parece ter se esgotado com o empate deste domingo. Um empate justo no placar, mas inaceitável para quem já tocava a vitória com as mãos e se viu engolido pelos próprios erros — erros que simbolizam um ano que não deixará saudade.





