Há embates em que o futebol parece escrever a mesma cena, mas muda o final no último segundo. A Austrália tentou, no Dallas Stadium, reeditar uma de suas maiores lembranças recentes: trocar o goleiro no fim da prorrogação, transformar a disputa por pênaltis num teatro psicológico e sair de campo com uma classificação improvável. Em 2022, na repescagem para a Copa do Catar, Graham Arnold havia tirado Mat Ryan para colocar Andrew Redmayne contra o Peru. Deu certo: Redmayne defendeu a cobrança decisiva, a Austrália venceu por 5 a 4 e carimbou o passaporte para o Mundial do Catar. Dessa vez, não deu certo. Após o empate em 1 a 1, no tempo normal, sem gols na prorrogação, o Egito levou a melhor, por 4 a 2 nas penalidades, e a vaga às oitavas de final.
O roteiro com riqueza de detalhes: Quatro anos depois, Tony Popovic tentou beber da mesma fonte. Só que, desta vez, a história virou contra os australianos. Aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, Patrick Beach, o goleiro que havia segurado a Austrália viva em toda a competição, deu lugar justamente a Mat Ryan. A ideia era clara: levar um especialista, um veterano, uma presença maior para a disputa. O problema é que pênalti também tem memória, mas não obedece ao passado.

Egito passa nos estudos
Ryan não defendeu nenhuma cobrança. Pior para a Austrália: seus companheiros também não ajudaram. Harry Souttar abriu a série mandando a bola por cima. Lucas Herrington, de apenas 18 anos, teve a responsabilidade de manter os australianos vivos, mas carimbou o travessão. Jackson Irvine e Awer Mabil até converteram suas batidas, mas não bastou. Do outro lado, o Egito foi frio como quem esperou 92 anos por esse momento. Após estudar o comportamento do goleiro australiano pelo computador, Ahmed Saber, Rami Rabia, Mohamed Salah e Hossam Abdelmaguid marcaram.
A ironia é que a Austrália tentou repetir 2022, mas acabou ficando mais perto da Holanda de 2014 — só que pelo avesso. Naquele Mundial, Louis van Gaal tirou Jasper Cillessen e colocou Tim Krul no fim da prorrogação contra a Costa Rica. Krul defendeu duas cobranças, a Holanda venceu por 4 a 3 e foi à semifinal. Foi uma daquelas decisões que entram para a mitologia das Copas.
Recorde de gols contra
A partida já tinha sido um pequeno tratado sobre sofrimento. O Egito começou melhor, com mais presença ofensiva e menos medo do peso do jogo. Aos 13 minutos, Karim Hafez cruzou, Emam Ashour apareceu no segundo pau e cabeceou para abrir o placar. Era um gol com cara de libertação: simples, direto, histórico. O Egito não parecia apenas vencer a Austrália. Parecia tentar vencer a própria biografia em Copas do Mundo.
Só que o roteiro não seria tão limpo. Logo no início do segundo tempo, Omar Marmoush teve a chance de fazer 2 a 0 e encaminhar a classificação, mas desperdiçou uma oportunidade enorme. Pouco depois, veio o castigo. Aos 11 minutos, Aiden O’Neill cobrou falta na área, Mohamed Hany tentou cortar e acabou desviando contra o próprio gol. Era o empate australiano. E era também o segundo gol contra de Hany nesta Copa, depois de já ter marcado contra a Bélgica na estreia egípcia. Ele se tornou apenas o segundo jogador na história dos Mundiais a fazer dois gols contra numa mesma edição, repetindo o búlgaro Ivan Vutsov, em 1966.

Duelo truncado
A partir daí, o jogo entrou naquela zona cinzenta em que ninguém sabe se deve atacar para vencer ou se proteger para não morrer. A Austrália cresceu, empurrou o Egito para trás em alguns momentos e apostou na bola parada. O Egito, por sua vez, ainda tinha Salah em campo, mesmo sem parecer fisicamente inteiro, e tentava encontrar alguma fresta para Marmoush, Ashour ou Zico. Nada, porém, foi tão decisivo quanto Patrick Beach aos 48 minutos do segundo tempo. Rami Rabia desviou de cabeça, e o goleiro australiano fez uma defesa espetacular para mandar o jogo à prorrogação.
O jovem goleiro australiano foi o homem que adiou a eliminação. Mas, quando a decisão foi para o território em que um goleiro poderia virar herói, ele já não estava mais em campo. A prorrogação teve mais tensão do que futebol. Poucas jogadas limpas, muita bola disputada, pernas pesadas e a sensação de que qualquer erro poderia virar sentença. Como ninguém conseguiu escapar desse labirinto, vieram os pênaltis.
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Mais um degrau
O Egito está nas oitavas de final. Mais precisamente: venceu pela primeira vez um jogo eliminatório de Copa do Mundo e voltará a disputar uma fase de oitavas 92 anos depois de 1934, quando caiu diante da Hungria. Agora, espera o vencedor de Argentina x Cabo Verde. A Austrália fica pelo caminho, de novo sem conseguir ganhar uma partida de mata-mata em Mundiais. Tentou repetir a sorte de Redmayne. Encontrou, do outro lado, um Egito que não estava disposto a deixar sua noite histórica virar lembrança australiana.





