Quando anunciou a lista dos 26 convocados para a Copa, Carlo Ancelotti reconheceu que aquela era a lista possível — pois que não existe a lista ideal. Mais do que uma figura de linguagem, o italiano deixava claro que não existe fórmula pronta para o sucesso. Agora, a nove dias da estreia na Copa do Mundo, contra o Marrocos, Carlo Ancelotti ainda parece procurar respostas para o que seria o time ideal para a estreia. E, curiosamente, por mais paradoxal que seja, essa talvez seja a melhor notícia para a seleção brasileira.
Quando assumiu o comando da equipe, o treinador italiano deu sinais claros de que imaginava um Brasil extremamente agressivo, construído a partir de um quarteto ofensivo capaz de sufocar os adversários pela qualidade técnica. Era uma ideia sedutora. Afinal, poucas seleções no mundo podem sonhar em colocar simultaneamente em campo jogadores do calibre de Vinícius Júnior, Raphinha, Igor Thiago, Matheus Cunha, Luiz Henrique e Neymar.

Ancelotti usa prancheta
O problema é que o futebol moderno cobra uma conta alta de quem ataca sem defender. O amistoso contra a França já havia deixado esse alerta aceso. O Brasil produziu momentos interessantes com a bola, mas também mostrou fragilidades preocupantes quando precisou recompor espaços e proteger sua defesa. Contra adversários mais organizados, agressivos e velozes, um sistema com quatro jogadores essencialmente ofensivos pode elevar o grau de vulnerabilidade.
Por isso, os sinais observados nos últimos dias de preparação nos Estados Unidos chamam a atenção dos observadores de plantão. Ancelotti parece finalmente disposto a testar com maior profundidade alternativas que reduzam a exposição defensiva da equipe. O segundo tempo da vitória sobre o Panamá ofereceu uma pista importante. A entrada de um terceiro meio-campista com características mais criativas do que propriamente de contenção deu ao Brasil maior equilíbrio entre os setores, sem necessariamente comprometer sua capacidade ofensiva.
A possibilidade de utilizar Lucas Paquetá ou até Danilo Santos nesse papel abre um novo horizonte para a equipe. Em vez de insistir em um desenho próximo ao 4-2-4, o treinador passa a trabalhar com uma estrutura mais parecida com um 4-3-3, modelo que continua ofensivo, mas distribui melhor as responsabilidades coletivas.
Liberdade ofensiva
Nesse cenário, Vinícius Júnior e Raphinha permanecem abertos pelos lados, explorando os espaços e os duelos individuais que os tornaram referências mundiais. À frente deles, Igor Thiago oferece uma característica diferente: mais presença física, ocupação de área e capacidade de servir como referência para os cruzamentos e infiltrações.
Tudo indica que esse será o caminho observado no amistoso deste sábado contra o Egito, em Cleveland, último compromisso antes da estreia no Mundial. As mudanças não se limitam ao meio-campo. A defesa também ganhará sua configuração mais forte com os retornos de Marquinhos e Gabriel Magalhães, ausentes contra o Panamá em razão da final da Champions League. A dupla, que recentemente esteve em lados opostos na principal decisão do futebol europeu, volta para formar aquela que hoje parece ser a zaga ideal da seleção brasileira.
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Douglas Santos também surge como novidade na lateral esquerda, enquanto Wesley segue ganhando espaço por sua capacidade de transformar o corredor direito em uma importante válvula ofensiva.
E a escalação?
O provável time reúne Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro e Bruno Guimarães; Lucas Paquetá, Raphinha, Igor Thiago e Vinícius Júnior. Mas talvez o mais relevante nem seja a escalação em si. Durante os treinamentos, Ancelotti também observou alternativas como Rayan nas vagas de Vinícius ou Raphinha, deixando claro que ainda trabalha com possibilidades abertas.

Nenhuma seleção campeã do mundo chegou ao torneio com todas as respostas prontas. A história das Copas está repleta de ajustes feitos durante a competição. Em 1994, 2002 e até em campanhas menos vitoriosas, jogadores que embarcaram como reservas acabaram se transformando em peças fundamentais poucas semanas depois. O Mundial não costuma premiar quem acredita ter encontrado a fórmula perfeita antes de a bola rolar. Costuma premiar quem consegue corrigir a rota enquanto a viagem acontece. Ancelotti parece ter percebido isso a tempo. Mudanças de última hora não são garantia de sucesso, é verdade. Mas ignorá-las pode ser um mal irrecuperável.





